A edição do “Diário da Noite” de 26 de agosto de 1950 trazia uma frase impactante do governador paulista Ademar de Barros: “A eleição de Vargas depende do PSP. A candidatura do Café Filho a vice-presidente será mantida, custe o que custar”. Desde 1930 que o potiguar João Café Filho era filiado ao partido ademarista. Se Vargas quisesse voltar ao poder em 1950, teria que ter o apoio paulista e se quisesse ter o apoio paulista teria que ouvir e fazer o que Ademar de Barros pedisse. A contragosto, Vargas aceitou Café Filho como candidato à vice-presidente. O velho ditador temia que o indicado de Ademar pudesse lhe causar problemas nas eleições, já que militares o chamavam de comunista e a Igreja Católica não queria um protestante no poder. Com Ademar de Barros e Café Filho, Vargas voltou ao poder nos braços do povo. Naquela época, o vice também era eleito. Café venceu para vice e deputado federal (coisas que a Constituição de 1946 permitia).

Durante a crise de agosto de 1954, principalmente depois do atentado contra o jornalista Carlos Lacerda, na Rua Toneleros, em Copacabana, Café Filho sugeriu a Vargas que ambos renunciassem à Presidência e Vice-Presidência e se instituísse um governo de coalização. Vargas pediu conselho para Tancredo Neves, seu ministro da Justiça, que o convenceu a não aceitar a proposta, pois, para o ministro, a sugestão era uma tentativa de golpe. Quando Vargas comunicou ao vice que não aceitava renunciar, Café disse: “Caso o senhor deixe desta ou daquela maneira este palácio, a minha obrigação constitucional é vir ocupá-lo”.

E Café Filho ocupou o palácio em 25 de agosto de 1954, logo após o suicídio de Vargas. Ele tentou fazer um governo liberal seguindo as diretrizes econômicas de Eugênio Gudin, seu ministro da Fazenda. Porém, Café se afastou da Presidência no final de 1955 para tratamento de saúde e Carlos Luz, presidente da Câmara, assumiu o poder. Neste meio tempo aconteceu o contragolpe do marechal Henrique Teixeira Lott que garantiu a posse de Juscelino Kubitschek e depôs Carlos Luz e Café Filho da Presidência.

Logo após sua curta e conturbada passagem pelo poder, Café Filho trabalhou em uma imobiliária no Rio de Janeiro. Já imaginou você conversar sobre imóveis com um ex-presidente? Em 1961, o governador da Guanabara, Carlos Lacerda, convidou Café Filho para ser ministro do Tribunal de Contas. O ex-presidente permaneceu nesse tribunal até sua morte, em 20 de fevereiro de 1970. O presidente Emílio Médici decretou luto de oito dias em homenagem ao ex-presidente.