O Aeroporto de Goiânia ficou lotado no dia 21 de dezembro de 1963. Aproximadamente mil pessoas esperavam a personalidade que desembarcaria a bordo do avião “Esperança”. Seria alguma ação do governo Mauro Borges por conta das proximidades do dia de Natal? Será que aquelas milhares de pessoas esperavam a chegada do Papai Noel? As festas natalinas trazem esperança, mas o “Esperança” não tinha nada a ver com o Natal. Na verdade, tinha a ver com um evento que aconteceria no Cine Teatro Goiânia e que não se parecia com uma festa natalina.

Eram 19h20 quando o avião “Esperança” aterrissou na pista de pouso do Aeroporto Santa Genoveva. Quando a porta se abriu, as pessoas gritaram “Viva Lacerda!”. “Lacerda, o futuro presidente”. Eis que surgiu Carlos Lacerda, governador da Guanabara. As pessoas correram para a pista de pouso querendo um abraço, um olhar, ou simplesmente um aperto de mão. O secretário de Segurança Pública, Rivadávia Xavier Nunes, recepcionou o ilustre personagem representando o governador Mauro Borges. A Polícia Militar bem que tentou manter a segurança do governador, mas tanto ele como os goianienses que foram recebê-lo queriam a aproximação.

Lacerda se animou com a recepção e foi para junto dos seus apoiadores. Muitos abraços, muitos sorrisos, muitas palavras de ordem em favor do candidato à Presidência da República pela UDN (ele planejava disputar em 1965). Demorou muito até que o governador entrasse no carro que o conduziria até o Cine Teatro Goiânia. Foi-se o tempo em que o aeroporto ficava na esquina da Avenida Paranaíba com a Avenida Tocantins. Em 1963, o aeroporto agora se chamava Santa Genoveva e ficava bem distante do centro de Goiânia. Lacerda não teve tempo de descansar e às 21 horas já estava no local onde todos o esperavam. Naquela noite, os formandos de Direito da Universidade Federal de Goiás iriam colar grau e ele fora convidado para ser o paraninfo. Excelente orador que era, todo mundo queria saber o que Carlos Lacerda iria dizer seja para elogiar, seja para criticar.

De acordo com o jornal “Folha de Goiaz”, “seu discurso foi vivamente aplaudido pelo sentido democrático”. Já o “Cinco de Março” não poupou nas críticas ao formando Darci Pereira Zeka, orador da turma: “O discurso do orador da ‘turma Lacerda’ da Faculdade de Direito da Federal de Goiás foi um dos mais infelizes destes últimos tempos”.

Tudo isso era fruto da radicalização ideológica da época. Para os opositores, Lacerda era “o corvo” ou “o representante da elite e do imperialismo estadunidense”. Já para os apoiadores, ele era “a esperança”, o “futuro presidente da República”. O certo é que, depois da cerimônia de colação de grau, Lacerda foi convidado para um jantar na Churrascaria Campestre, no centro de Goiânia. Javier Godinho (pai do jornalista e escritor Iúri Rincon Godinho) escreveu em sua coluna no “Cinco de Março” que Lacerda representava a elite, os ricos. “As faixas que o saudavam, nas avenidas centrais, adiantavam que eram bem-vindo à UDN e aos pecuaristas. Nenhuma delas afirmava: ‘O povo saúda Lacerda’”.

O governador da Guanabara ficou hospedado no Hotel Bandeirante, próximo à praça homônima. No dia seguinte, Carlos Lacerda tinha dois encontros. Às 9 horas ele iria se encontrar com seus colegas udenistas na Assembleia Legislativa, no Palácio dos Buritis, e, às 11 horas, ele se encontraria com pecuaristas da Sociedade Goiana de Pecuária. Aos partidários, Lacerda falou sobre a necessidade de se antecipar a convenção da UDN para escolher o candidato presidencial para as eleições de 1965. Quando se encontrou com os pecuaristas, o governador foi chamado de “Kennedy da democracia brasileira”. Em seu discurso, reforçou seu posicionamento em defesa da propriedade privada. Isso agradou e muito os presentes.

A agenda de Carlos Lacerda em Goiânia se encerrou às 16 horas, na TV Rádio Clube de Goiânia. Ele deu uma entrevista para a emissora e desmentiu o boato de que chamara de “ridícula” a segurança policial que o governo goiano lhe ofereceu quando desembarcou no Santa Genoveva. “Eu não vi como ridículo isso. Compreendi e respeito as providências que o governo goiano entendeu do seu dever tomar em vista de ameaças e ‘pataquadas’ dos comunistas e classes anexas.” Perguntado sobre o governador Mauro Borges, respondeu que havia divergência entre eles, mas, se o goiano defendia a democracia e as leis, os dois estavam no mesmo caminho. Logo após a entrevista, Carlos Lacerda se dirigiu para o Santa Genoveva onde embarcou no “Esperança” de volta para o Rio de Janeiro. É uma pena não termos esse registro televisivo da visita de Lacerda a Goiânia.

A presença de Carlos Lacerda seria muito lembrada pelos apoiadores, elogiando-o, e pelos adversários, criticando-o. Assim se encerrou o ano de 1963: com a visita do governador que queria ser Presidente da República e a agitada disputa ideológica que desaguou no golpe meses depois.