A noite do dia 9 de novembro de 1889 foi inesquecível para a Coroa brasileira. Aquela pequena ilha na Baía de Guanabara nunca viu tanta comida e tanta gente fina. A festa era para comemorar as bodas de prata da Princesa Isabel e do Conde D’Eu e homenagear os oficiais chilenos que atracaram seus navios na capital do império há semanas. Era tanta comida que, segundo relato do jornal “O Paiz” teve gente que passou mal de tanto comer.

O movimento republicano ganhava força. O Segundo Reinado enfraquecia. Dom Pedro II não estava bem de saúde e não tinha a mesma liderança de tempos anteriores. Ele brigou com a Igreja Católica por causa da proibição de maçons participarem das irmandades religiosas. Os cafeicultores se afastaram do imperador. Como acabar com a escravidão sem indenizar os proprietários? Os militares voltaram da Guerra do Paraguai querendo palpitar na política e Dom Pedro deu um chega pra lá neles. A orelha do imperador queimava sempre que tinha reunião no Clube Militar.

A imprensa se debruçou sobre a festa. O jornal “O Paiz”, dois dias depois do baile, noticiou que “um convidado muito gordo” passou mal depois da ceia. Para a sua sorte, um cirurgião da Guarda Nacional estava presente e realizou os primeiros socorros. Sabendo que o paciente tinha comido sozinho uma travessa de maionese, o médico pediu que ele metesse “dois dedos na goela e deitar carga ao mar”. Depois, receitou uma porção de hidrolato de camomila, elixir paregórico, alcoolato de melissa e xarope de absinto. Por fim, pediu que voltasse à terra para reestabelecer a saúde após a comilança. Acha que o paciente fez o que o médico pediu? Que nada. Ele rasgou a receita e tomou um “capilé no quiosque do Largo do Paço”. E, como o Império, quase caiu.

O Baile da Ilha Fiscal foi a última festa do Império. A galera de ressaca nem conseguia enxergar a nuvem republicana no céu. Até o dia 15 de novembro tem alguns dias. Ainda dá tempo de bajular a Princesa Isabel esperando algo em troca num possível Terceiro Reinado. Que Dom Pedro não nos ouça.