“Nesta hora, não me nego a falar. Ao contrário, julgo chegado o momento de todos os brasileiros opinarem. Esta é uma hora decisiva que exige a participação de todos no rumo dos acontecimentos.” Assim começava a página 14 do jornal “Correio da Manhã” de 22 de fevereiro de 1945. A última página daquela edição trazia uma entrevista de José Américo de Almeida, nascido em 10 de janeiro de 1887, para o jornalista Carlos Lacerda. Ele convocava os brasileiros a opinarem e participarem da vida pública. Naquela época, o Brasil vivia os últimos meses da ditadura do Estado Novo. Desde 1937, o presidente Getúlio Vargas governava o país com mãos de ferro, apesar dos sorrisos, acenos e afagos para a classe trabalhadora.

A propósito, na época do golpe de Estado, José Américo era candidato nas eleições presidenciais de 1938. Com o começo da ditadura, acabaram as eleições e as candidaturas. Vargas disse apoiar o colega de Revolução de 1930 para a sua sucessão. Mas o golpe do Estado Novo acabou com tudo e deu amplos poderes para o presidente. A censura ceifou a liberdade de imprensa. Quando a entrevista de José Américo foi publicada, a censura já mostrou que não tinha mais forças. Lá fora, a guerra acabando. Aqui dentro, a ditadura dando seus últimos suspiros.

José Américo de Almeida: escritor e político | Foto: Reprodução

O ex-colega de revolução virou opositor de Vargas. José Américo, além de criticar o Estado Novo, exigia liberdade para todos. Ele apoiou a formação da União Democrática Nacional (UDN), partido anti-getulista. Em 1934, conheceu um jovem tenente chamado Ernesto Geisel, que viria a ser o quarto presidente da ditadura militar. Além da política, José Américo foi escritor e se tornou imortal pela Academia Brasileira de Letras em 1966.

Um ex-aliado de Vargas falando em participação dos brasileiros nos instantes finais de uma ditadura era uma amostra de que a censura já não apitava mais nada e que o governo autoritário de Getúlio Vargas já estava no fim.