O título deste texto peguei emprestado da revista “O Cruzeiro” de 5 de novembro de 1966 que trazia aos seus leitores informações sobre o recesso imposto pelo então presidente Castello Branco ao Congresso Nacional. Na madrugada do dia 20 de outubro daquele ano, as tropas lideradas pelo coronel Meira Matos invadiram o Palácio do Congresso em Brasília. Os soldados entraram no prédio e prenderam jornalistas que registravam o fato. Os deputados capitaneados pelo presidente da Câmara, Adauto Cardoso, tentaram resistir à investida do Poder Executivo. Mas, em uma ditadura liderada pelos militares, as armas falam mais alto dos que as vozes do Parlamento. A partir daquele momento, o Congresso entrava em recesso mediante a publicação do Ato Complementar número 23.

A crise do final de outubro de 1966 escancarou a distância entre Poder Civil e o Poder Militar. “O Cruzeiro” trouxe um diálogo entre Adauto Cardoso e Meira Matos que representou esse distanciamento entre os dois poderes. O presidente da Câmara disse: “Coronel, eu sou o presidente da Câmara. Lamento que, para aplicar o decreto do recesso, tenha submetido o Congresso a uma ocupação militar”. O coronel respondeu: “Lamento, presidente, que o senhor, um líder revolucionário, esteja agora a serviço da contrarrevolução”. Adauto respondeu: “É engano seu, coronel. Eu estou a serviço do Poder Civil”. “E eu estou a serviço do Poder Militar”, disse Meira Matos. A revolução continuava a devorar seus filhos (Georg Büchner estava mesmo certo: a revolução é como Saturno — devora os próprios rebentos).

Até Milton Campos, ex-ministro da Justiça de Castello, criticou o Ato. Em editorial, o “Correio da Manhã” comparou a invasão ao Congresso com o golpe do Estado Novo de 1937. O texto dizia também que o Ato Complementar era a incapacidade do Poder Militar de dialogar com o Poder Civil.

“O Jornal” trazia em sua edição no dia seguinte ao recesso do Congresso que o governo Castello Branco estudava a hipótese de expulsar Adauto Cardoso das fileiras da Arena, partido governista, e o MDB cogitava a autodissolução, pois não tinha condições de atuar como oposição no país. Um governo enviando tropas para fechar o Congresso, cassando mandatos de forma indiscriminada e pautando a atuação partidária. A democracia no Brasil era apenas uma página virada, um passado longínquo.

Era o segundo ano de governo militar no Brasil. Não seria a primeira vez que um militar apertaria o interruptor e desligaria as luzes do Congresso Nacional.