Euler de França Belém
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Yuval Harari diz que, ao não trabalhar pela união, Bolsonaro não é patriota

“Se agirmos com compaixão, acreditando na ciência e cooperando com nossos vizinhos, podemos criar um mundo melhor. Decisões sábias podem criar uma sociedade capaz de reagir melhor aos desafios que teremos de enfrentar juntos”

O historiador israelense Yuval Noah Harari concedeu entrevista ao repórter Ruan de Sousa Gabriel, de “O Globo”, no sábado, 8, na qual faz reflexões sobre a pandemia do novo coronavírus e menciona o presidente do Brasil, Jair Messias Bolsonaro.

Harari frisa que espera que a crise gerada pela pandemia “nos convença de que estamos mais seguros quando todos estão seguros”. O pesquisador sublinha que, “se todos tiverem acesso a serviços de saúde, se todos os países tiverem centros de monitoramento de doenças contagiosas, a chance de futuras epidemias saírem do nosso controle será muito menor”. O repórter não mencionou e o israelense possivelmente não tem informação a respeito: morreram 163 mil brasileiros, mas poderia ter sido muito pior se o país não tivesse o Sistema Único de Saúde. No SUS, o cidadão, com ou sem renda, é atendido gratuitamente e recebe, em geral, um serviço médico de boa ou, às vezes, de relativa qualidade.

Yuval Noah Harari: historiador israelense | Foto: Reprodução

Ruan de Sousa indaga: “Devemos pedir a cabeça de quem pelo fracasso no combate ao coronavírus?” Harari é enfático: “Dos políticos que, deliberadamente, desinformaram o público atacando a ciência e os especialistas. Hoje temos todo o conhecimento científico necessário para conter e derrotar a Covid-19. Se falharmos, é culpa da incompetência dos políticos”. Veja-se o caso do Brasil, que, apesar dos arroubos autoritários do presidente Jair Bolsonaro — “eu mando”, “eu tenho a caneta” —, ainda é uma federação. Se não fossem os governadores, assim como aconteceu nos Estados Unidos, a tragédia estaria sendo maior do que já é. Gestores que foram rápidos, tanto na defesa de certo isolamento quanto na montagem de uma estrutura médica adequada, têm de ser considerados como fundamentais tanto para reduzir o número de mortes como para tratar os que foram infectados. Os governadores de São Paulo, João Doria (PSDB), e de Goiás, Ronaldo Caiado (Democratas), merecem o aplauso da sociedade.

Se os políticos não se unem — a “especialidade” de Bolsonaro (não sai do palanque de 2022) é atacar João Doria —, Harari pontua que “assistimos à incrível colaboração de cientistas de todo o mundo, trocando suas descobertas”. Dada a guerra política, com o presidente Donald Trump e epígonos, como Bolsonaro, brigando com os chineses, “ainda não temos um plano de ação global. Nem um plano médico para conter a pandemia nem um plano econômico para lidar com a crise. Não há liderança”. O presidente eleito dos Estados Unidos, Joe Biden, se liderar o mundo numa caminhada para uma ação coletiva, tende a se consagrar. Diga-se que quem está dizendo isto não é Harari, mas o autor deste texto.

Há três principais ameaças à humanidade, no entendimento de Harari: a guerra nuclear, o colapso ecológico e a disrupção tecnológica. Mas, quer saber Ruan de Sousa, e a pandemia? “A pandemia não mudou tendências a longo prazo. A Covid-19 não vai destruir a humanidade. Somos muito [mais] fortes do que o vírus. O pior do vírus da Covid-19 é como a pandemia impacta essas outras ameaças. (…) A taxa de mortalidade da Covid-19 é muito menor do que a de outras doenças como a Gripe Espanhola. É como se a natureza estivesse nos treinando para lidar com algo ainda pior no futuro. Infelizmente, nossa resposta não inspira confiança de que saberemos lidar com crises mais complexas, como as mudanças climáticas.”

Jair Bolsonaro: o presidente não agrega para salvar vidas | Foto: Reprodução

Harari comenta sobre o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e Bolsonaro: “Em tempos de crise, todo mundo precisa cooperar, e esses dois líderes não inspiram confiança. Há anos, Bolsonaro e Netanyahu espalham desinformação e agora usam emergência sanitária para se agarrar ainda mais ao poder e incitar o ódio. Eles se afirmam patriotas, mas patriotismo é trabalhar pela união. Bolsonaro e Netanyahu são o oposto de patriotas”.

Harari enfatiza que o futuro depende das decisões que as pessoas vão tomar nos próximos meses. “Podemos reagir a esta crise com ódio (culpando estrangeiros e minorias), ganância (permitindo que as empresas tratem a pandemia como uma oportunidade de aumentar os lucros) ou ignorância (espalhando teorias da conspiração que colocam a saúde e a segurança das pessoas em risco). Se reagirmos assim, o mundo pós-pandemia será muito pior: mais desunido, violento e pobre. Mas se reagirmos com compaixão, generosidade e sabedoria, acreditando na ciência, cooperando com nossos vizinhos e dividindo o que temos, podemos criar um mundo muito melhor. Espero que tomemos decisões sábias nos próximos meses para criar uma sociedade capaz de reagir melhor aos desafios que teremos de enfrentar juntos.”

Graphic novel “Sapiens”

A Companhia das Letras está lançando uma nova tradução (feita por Jorio Dauster) de “Sapiens — Uma Breve História da Humanidade”. Harari é autor de “Notas Sobre a Pandemia”. O primeiro volume da graphic novel “Sapiens”, parceria do historiador com o francês Daniel Casanave e desenhos do belga David Vandermeulen, começa a sair no Brasil. A Cia das Letras publicará mais três volumes brevemente.

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