Euler de França Belém
Euler de França Belém

Woody Allen deve ser criticado como abusador sexual. Proibir sua autobiografia não é democrático

O diretor de cinema fez filmes extraordinários e sua obra pode ser criticada mas não deve ser censurada. Já o indivíduo merece as críticas que vem recebendo

Woody Allen nega abuso sexual, mas Dylan Farrow mantém a denúncia há 27 anos ; ela não recuou e não mudou sua versão | Fotos: Reproduções

Julguem Woody Allen. Condenem Woody Allen. Prendam Woody Allen. Há indícios fortes de abuso sexual contra uma filha, Dylan Farrow, quando ela era uma criança de 7 anos. Aos 34 anos, ela mantém a mesma posição, e um irmão, o jornalista Ronan Farrow, postula que está falando a verdade. O cineasta nega, mas não é convincente.

Portanto, se é um diretor de cinema “genial” — na verdade, parece ter perdido a mão, e seus últimos filmes são fracos, até muito fracos —, não deixa de ser um “assediador”, para não usar um termo mais pesado. A execração pública que vem sofrendo não deixa de ser justa. Um criminoso sexual não merece “perdão” só porque é um criador cultural de respeito (há, entre certos intelectuais, uma certa condescendência com o diretor de “Manhattan”). Merece mesmo o desprezo da sociedade.

Ainda assim, sua obra cinematográfica merece ser vista? Sim, merece. Recentemente, sob pressão da sociedade, uma editora dos Estados Unidos recuou de publicar sua autobiografia.

Caracterizou-se uma espécie de “censura do bem”. Mas é justa? Não. Ele tem o direito de publicar o que quiser, assim como, lido o livro, alguém, se se sentir agredido, pode processá-lo. E quem discorda de suas ideias e, sobretudo, de sua conduta, no lugar de trabalhar para vetar o livro, deveria, no máximo, deixar de lê-lo. A obra vai acabar saindo — agora ou depois da morte do cineasta, hoje com 84 anos. Deixá-la “mofar” nas livrarias seria o maior “castigo”. Mas é provável que aqueles que a condenam serão os primeiros a lê-la.

Louis-Ferdinand Céline: fascista que deixou uma literatura extraordinária | Foto: Reprodução

Céline, Ezra Pound, Drieu La Rochelle e Knut Hamsun

Não há a menor dúvida de que Louis-Ferdinand Céline era um homem execrável. Seu combate sistemático aos judeus o coloca na lista dos canalhas universais. Mas sua obra literária, de grande qualidade, deve ser proibida? Não. Nem mesmo o panfleto que escreveu contra os judeus deve ser proscrito. É preciso conhecê-lo. Até para criticá-lo e, se se quiser, combatê-lo. Winston Churchill combateu Hitler, desde o início, e rejeitou a política de apaziguamento de Neville Chamberlain porque havia lido “Minha Luta”, de Adolf Hitler. Ele soube, pela leitura, que Hitler iria à guerra, devido à ideia de espaço vital, e que os soviéticos, mais do que os ingleses, eram o seu principal alvo.

Erza Pound: grande poeta e crítico que aderiu às ideias de Benito Mussolini | Foto: Reprodução

No caso de Céline, é possível distinguir o escritor, grande, do indivíduo, execrável. Erza Pound defendeu o fascismo de Benito Mussolini e, igualmente, atacou os judeus. Sua história merece ser contada de maneira completa, mas é preciso ressalvar que fez uma poesia e uma crítica literária de primeira linha. Merece louvor por ter “revisado” o romance “Ulysses”, de James Joyce, e “A Terra Devastada”, do poeta T. S. Eliot. As duas principais obras, na prosa e na poesia, do século 20.

Knut Hamsun, o Nobel de Literatura que apoiou Hitler | Foto: Reprodução

Pierre Drieu La Rochelle é autor de boa literatura, como o romance “Fogo Fátuo” (que deu origem a um belo filme, “Trinta Anos Esta Noite”, dirigido pelo francês Louis Malle, em 1963), mas apoiou o nazismo, na França, e sua história é execrável (com algumas ressalvas). Ele se matou, em 1945, para “escapar” de ser penalizado pelos Aliados (alguns colaboracionistas foram condenados à pena de morte).

La Rochelle deve ser lido? Deve. Há um romance de sua autoria, “O Homem a Cavalo” — publicado pela Editora Tchê!, com tradução de Paulo Hecker Filho —, que precede a literatura sobre coronéis-ditadores de García Márquez e outros. De 1943, o livro é sobre um país da América do Sul. O interesse pelo continente sul-americano tem a ver, possivelmente, com sua paixão pela escritora, editora e mecenas argentina Victoria Ocampo, a criadora da célebre revista “Sur”, na qual pontificaram Jorge Luis Borges, Bioy Casares e Silvina Ocampo (excelente contista).

Pierre Drieu La Rochelle: colaboracionista francês | Foto: Reprodução

Assim como o norueguês Knut Hamsun, Prêmio Nobel de Literatura, que escreveu sobre a morte do nazista Hitler: “Ele era um guerreiro, um guerreiro pela humanidade e um profeta da verdade e da justiça para todas as nações”. Mas sua literatura (Carlos Drummond de Andrade é tradutor de “Fome”) é maior do que o fascista.

O julgamento de uma obra literária — ou filme — deve começar por sua qualidade e não pelo caráter de seu autor. Mas o indivíduo, como Woody Allen, não precisa ser admirado e respeitado. Pode ser execrado. Porém a democracia, que em tese todos defendem — mesmo quando sugerem censura para aquilo de que divergem —, tem de ser “aplicada” a todos e a tudo. Se é assim, vale publicar a autobiografia do diretor de “Annie Hall”. Não ler é democrático. Criticar é democrático. Proibi-la não é democrático.

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