Wagner Schadeck põe de pé em português a obra-prima de Karl Kraus, Os Últimos Dias da Humanidade
17 outubro 2026 às 21h00

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Há um tradutor heroico — e competente — no Brasil. Trata-se de Wagner Schadeck.
Ousado, Wagner Schadeck tem o hábito de transpor para o português escritores de língua alemã, como Hermann Broch (“A Morte de Virgílio”, 424 páginas, Editora Sétimo Selo) e, agora, Karl Kraus (o polemista austríaco tão admirado pelo escritor e filósofo Elias Canetti).
“Os Últimos Dias da Humanidade” (720 páginas), a obra prima-prima de Karl Kraus (1874-1936), finalmente se posta ante nossos olhos — falando a língua malemolente de Clarice Lispector e Nelson Rodrigues. Graças à coragem tradutória de Wagner Schadeck e editorial da Sétimo Selo. Palmas para os dois por colocarem nas livrarias um dos mais importantes lançamentos de 2026. Imperdível entre os mais imperdíveis.
Karl Kraus circulou bem no Brasil, com seus aforismos poderosos e sempre polêmicos. “Ditos e Desditos” saiu em 1988, sob a chancela da Editora Brasiliense, com tradução escorreita de Márcio Suzuki e Werner Loewenberg (José Carlos Barbosa revisou a tradução).

Os aforismos de Karl Kraus são frequentemente petardos altamente bem escritos. Sínteses densas que Nietzsche assinaria, por certo.
Estes acham aquilo, aqueles acham isso bonito. Têm de ‘achar’ alguma coisa. Procurar ninguém quer. Parece ter sido escrito para os tempos da hegemonia da inteligência artificial. Karl Kraus morreu há 90 anos.
“A missão da imprensa é a de difundir o espírito e, ao mesmo tempo, destruir toda a capacidade de assimilação”, afirma em “Ditos e Desditos”.
“O jornalismo serve apenas aparentemente ao dia a dia. Na verdade, destrói a receptividade espiritual da posteridade”, assinala no mesmo livro.

Do mesmo “Ditos e Desditos” se tem: “Estes acham aquilo, aqueles acham isso bonito. Têm de ‘achar’ alguma coisa. Procurar ninguém quer”. Parece ter sido escrito para os tempos da hegemonia da inteligência artificial. Karl Kraus morreu há 90 anos.
A Arquipélago Editorial publicou “Aforismos” (162 páginas), com tradução de Renato Zwick. Trata-se de uma coletânea excelente.
O que falta? Muita coisa. Por exemplo, a poesia de Karl Kraus. O polímata austríaco não era apenas autor de aforismos…
Na última minha visita à excelente Livraria Escaramuza, em Montevidéu, em 2024, o primeiro livro que comprei foi “Karl Kraus en los Últimos Días de la Humanidad” (Ediciones Universidad Diego Portales, 251 páginas, tradução do filólogo e filósofo chileno Adan Kovacsics (radicado na Espanha). Li e reli. Uma maravilha. O livro me fez voltar às memórias de Elias Canetti, que escreve belamente sobre Karl Kraus e Isaac Bábel. Quem não gostaria de ter assistido ao menos a uma conferência do jornalista, escritor e, sim, filósofo?

Espero ler, em breve, ‘Karl Kraus” (7Letras, 128 páginas, tradução e organização de Helano Ribeiro, com posfácio de Kátia Muricy), de Walter Benjamin.
Leia o release da Editora Sétimo Selo
“Os diálogos mais improváveis foram repetidos palavra por palavra; as invenções mais escabrosas são citações. Em agosto de 1914, a Europa entrou em guerra. Quatro anos depois, milhões de mortos separavam o continente do mundo que existira antes.
“Impérios haviam ruído, e uma confiança secular no progresso, na razão e na cultura sofrera um golpe irreversível. Pouquíssimos escritores perceberam essa transformação enquanto ela acontecia. Karl Kraus foi um deles.

“Enquanto a guerra avançava, recolhia vozes: lia jornais, escutava conversas de café, discursos parlamentares, proclamações militares e anúncios publicitários. Os assuntos de sua sátira não eram os grandes acontecimentos da história, mas os jornais, os discursos, os anúncios e os lugares-comuns pelos quais a história se tornava possível.
“Não procurava explicar a catástrofe; procurava ouvir a linguagem que a produzia. Em mais de duzentas cenas, generais e jornalistas, patriotas e especuladores, burocratas e cidadãos comuns atravessam a Viena da Grande Guerra. As conversas mais inverossímeis são citações.
“Escrita entre 1915 e 1922, ‘Os Últimos Dias da Humanidade’ é ao mesmo tempo drama documental, sátira e crônica histórica sem equivalente. Sua matéria não é apenas a guerra, mas a relação entre linguagem e realidade: o modo como palavras ocultam os fatos ou os revelam.

“Esta edição apresenta, pela primeira vez no Brasil, a tradução integral do original alemão: prólogo, cinco atos e epílogo. Nela, a guerra é vista não apenas do campo de batalha, mas das redações, dos cafés, dos escritórios e das ruas ― lugares onde as palavras começam a produzir os acontecimentos que pretendem apenas descrever. Tradução do alemão e notas de Wagner Schadeck. Introdução de Ronald Robson e Otto Maria Carpeaux. Acompanha cronologia do autor e breve cronologia da Primeira Guerra Mundial com mapas.”
Karl Kraus sobre Goethe e Schiller
“Disputa-se há muito tempo se Goethe ou Schiller é o mais popular entre os alemães. E, no entanto, com suas palavras ‘Franz se chama a canalha’ [Em “Os Bandoleiros”, de Schiller], Schiller não exerceu nem de longe o profundo efeito que, por força de sua redação geral, estava reservada à frase que o Goetz, de Goethe, dirige ao capitão.

“Ora, já que há décadas não se passa um dia de audiência sem que os relatórios não se refiram ao fato de que o acusado endereçou ao queixoso a ‘conhecida intimação do Goetz, de Goethe’, fica claro que, entre os alemães, a fama de Goethe é mais sólida.
“A maneira como o povo homenageia seus intelectos não resulta apenas do fato de ter descoberto rapidamente nas obras de Goethe a passagem que parece a mais saborosa à língua alemã, mas também do fato de que hoje ninguém mais é tão inculto para utilizar a locução sem se referir a Goethe”. (Da tradução de Márcio Suzuki e Werner Loewenberg.)


