Augusto Diniz
Augusto Diniz

Veículos caem no boato da “vacina de Madureira” e publicam história sem a devida checagem

Nunca existiu venda de doses do imunizante falsificado por camelôs no Rio de Janeiro, mas muitas redações embarcaram nas mentiras que surgiram na internet

No jornalismo, o termo “barriga” é utilizado para descrever a publicação de uma informação falsa por um veículo de comunicação profissional. Surgiu nas redes sociais, provavelmente no dia 10 de dezembro, uma foto que mostrava a caixa de uma vacina contra a Covid-19 e a descrição de que camelôs do bairro de Madureira, no Rio de Janeiro, não só vendiam como também aplicavam doses falsificadas do imunizante no meio da rua.

As informações na internet iam além. Davam conta de que o preço cobrado pelos camelôs cariocas em cada dose era de R$ 50. Não demorou para que a história fosse parar, com destaque, nos sites de veículos nacionais, como a Folha de S.Paulo. No final da tarde terça-feira, 22, a matéria “Camelôs vendem vacina falsa contra Covid-19 por R$ 50 no Rio” foi publicada.

A revista Veja também embarcou na história com “Ambulantes vendem Coronavac falsificada por 50 reais no Zona Norte do Rio”, mas depois mudou o título para “Polícia Federal e Anvisa investigam suposta venda de CoronaVac no Rio”.

A velocidade da circulação e publicação das informações muitas vezes exige das redações uma velocidade muito maior do que a necessária para a devida apuração das informações que chegam ao conhecimento dos jornalistas. Entre a pressão de um editor que muitas vezes quer a matéria para ontem e a necessidade de sair da redação e ir ao local onde o fato teria ocorrido para verificar se a história é verdadeira, algo no meio do processo pode faltar.

Foi parar na Folha

Na quarta-feira, 23, menos de 24 horas depois da publicação da matéria, a Folha mudou o título para “Anvisa e PF apuram venda de vacina falsa contra Covid-19 após relatos de moradores no Rio” e, como veículo sério que é, informou por meio de uma nota “erramos” que aguardava o esclarecimento dos fatos. “O título anterior deste texto, “Camelôs vendem vacina falsa contra Covid-19 por R$ 50 no Rio”, foi modificado para refletir melhor o teor da reportagem, e as informações foram atualizadas.”

A matéria da Folha se baseou nos relatos do produtor cultural Jones MFjay sobre a venda de doses da vacina por camelôs no meio da rua em Madureira. A repercussão da história chegou à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e à Polícia Federal (PF), que anunciaram a intenção de investigar os relatos. Como é de conhecimento público, ainda não há qualquer vacina contra Covid-19 aprovada para uso, nem mesmo emergencial, no Brasil.

A história era tão impressionante que o jornalista de checagem de fatos Marco Faustino, do site e-farsas, foi atrás do rastro das publicações que começaram a espalhar a tal vacina de Madureira. “Apesar da enorme repercussão, a história não procede”, diz a publicação de Kyene Becker no Boatos.org com base nas informações de Faustino.

Informação inventada

A fonte da matéria da Folha acabou por confessar que a história não era verdadeira. “O autor de uma das publicações, identificado como Jones MFjay, admitiu, contudo, ter feito o post ‘mais para brincar com algo inusitado que teria testemunhado do que realmente levantar suspeitas de um crime'”, diz trecho de matéria do jornal carioca Extra.

O homem que disse ter visto os camelôs a venderem doses da vacina em Madureira apagou a publicação que pode ter dado início ao boato nas redes sociais antes de a história inventada chegar à imprensa. “Agentes da Delegacia do Consumidor (Decon) realizaram diligências na região em busca da suposta mercadoria, que não foi encontrada. Os investigadores suspeitam que o conteúdo veiculado nas redes é enganoso, se tratando de um caso de ‘fake news’.”

Como também descreve a CNN Brasil, a busca pela tal vacina de Madureira foi feita por outra corporação: “Policiais Militares do batalhão da região fizeram uma varredura entre os ambulantes e não localizaram nenhuma embalagem da suposta vacina contra coronavírus”.

Em Madureira, nada de vacina

A jornalista Natália Scarabotto fez o que seria o necessário para verificar o fato. Foi até Madureira e tentou encontrar algum camelô que vendesse doses da vacina. Nada foi encontrado. Outros repórteres começaram a tentar descobrir a origem da foto utilizada no boato que se tornou matéria.

Não conseguiram chegar à fotografia publicada nas redes sociais, mas a outros registros da mesma caixa da vacina em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, que começou a vacinação emergencial contra a Covid-19 em setembro com doses fabricadas pelo laboratório chinês Sinopharm [National Pharmaceutical Group]. No final das contas, tudo não passou de uma grande barriga.

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