Euler de França Belém
Euler de França Belém

Uma viagem pela Livraria Palavrear e a descoberta de A Lanterna Mágica de Mólotov, de Rachel Polonsky

Especialista em literatura russa, de Cambridge, fala de sua temporada na Rússia, revela o Sócrates russo e fala de Mandelstam, Akhmátova, Nadiéjda e assassinos, como Stálin

As livrarias virtuais são ótimas e sou um de seus “frequentadores”. Mas nada substitui uma visita a uma livraria física. Abrir um livro, verificar o papel, ler um prefácio ou trecho de um capítulo são coisas, sei lá, meio mágicas. Na terça-feira, 13, estive na Livraria Palavrear (www.palavrear.com.br), na Rua 232, nº 338, Setor Universitário, em Goiânia. Eu ia escrevendo uma “pequena livraria”. Mas não devo. Porque seu acervo é de tão boa qualidade, com uma variedade imensa, que talvez seja preciso dizer que se trata de uma grande casa de livros. Por sinal, fica num sobrado. De cara, na entrada, avisto livros de literatura brasileira — Machado de Assis, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Osman Lins (“Avalovara” é uma obra-prima), Lygia Fagundes Telles, Bernardo Carvalho, Cristóvão Tezza, Angélica Freitas e, entre tantos outros, Milton Hatoum. Um metro depois, se tanto, eis a grande literatura russa: Liev Tolstói (“Anna Kariênina”), Tchékhov (contos), Fiódor Dostoiévski e um exemplar de “Vida e Destino”, de Vassili Grossman. Há outras maravilhas, que pude manusear em pé e, no andar superior, sentado. Minha mulher, Candice Marques de Lima, conferia livros de psicanálise (leitora de Freud e Lacan), filosofia (leitora de Platão, apaixonada pelo “Banquete”) e literatura (está lendo “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, que morreu aos 59 anos, minha idade atual).

Rachel Polonsky, especialista em literatura russa e professora de Cambridge | Foto: Reprodução

Li páginas de vários livros, como “O Romance de Formação” (Todavia, 515 páginas, tradução de Natasha Belfort Palmeira), de Franco Moretti; “A Fonte da Autoestima — Ensaios, Discursos e Reflexões” (Companhia das Letras, 451 páginas, tradução de Odorico Leal), de Toni Morrison (excelente prosadora e ensaísta); “A Ilha de Sacalina — Notas de Viagem” (Todavia, 461 páginas, tradução e apresentação de Rubens Figueiredo, com posfácio de Samuel Titan Jr.), de Anton Tchékhov; “A Lanterna Mágica de Mólotov — Uma Viagem pela História da Rússia” (Todavia, 365 páginas, tradução de Sergio Mauro Santos Filho), de Rachel Polonsky; e “Pedro Páramo” (José Olympio, 175 páginas, tradução de Eric Nepomuceno), de Juan Rulfo.

Leio há alguns anos a obra curta e densa do escritor mexicano Juan Rulfo, talvez porque lembra, na sua precisão e secura, à do brasileiro Graciliano Ramos — o escritor brasileiro que mais amo (sei, sei que Machado de Assis e Guimarães Rosa são mais “importantes”; ainda assim, fico com o alagoano — e não considero que literatura é um campeonato de quem é maior ou menor). Na minha última viagem a Buenos Aires, numa passagem pela Livraria Cúspide (sem o glamour da El Ateneo, mas ótima. Na unidade da Recoleta, o livreiro Alejo Ini, um garoto de pouco mais de 20 anos, recomendou-me o livro de contos “Pássaros na Boca”, da escritora Samanta Schweblin. Candice começou a ler na livraria, sentada numa poltrona confortável, e, em seguida, quase concluiu a leitura na Le Pain Quotidien), vi, li 20 páginas e adquiri logo o livro “Noticias Sobre Juan Rulfo — La Biografía: 1762-2016” (RM Verlag, 412 páginas, edição de Barcelona), de Alberto Vital. Uma inconfidência, enfim revelada: antes de levar o exemplar ao caixa, possivelmente mesmerizado, grifei um trecho e usei um marca-texto para ilustrar minha satisfação. Ao perceber o que havia feito, olhei para um lado e para o outro — esquecendo-me que, por certo, havia câmeras —, e guardei a caneta e o marca-texto. Agora, ao escrever este texto, volto ao livro, à página 13, e confiro o que havia sublinhado: “Rulfo havia dito que em sua vida havia muitos silêncios e em sua escritura também, e que ‘Pedro Páramo’ havia sido um exercício de eliminação”. Trata-se de um escritor de sínteses, dotado de uma rara contenção. (Confesso: aprecio escritores palavrosos e digressivos, como Proust. Não adiro à tese de que menos é mais.)

Stálin (centro), com Molotov à sua esquerda | Foto: Reprodução

“Pedro Páramo” é um romance extraordinário e o leitor patropi tem de se mostrar contente por contar com duas traduções de qualidade. A primeira é de Eliane Zagury (Paz e Terra, 213 páginas; inclui “O Planalto em Chamas”) e a segunda de Eric Nepomuceno.

Acomodo-me numa cadeira branca, de estilo moderno, da Palavrear e leio trechos do “prólogo” de “A Lanterna Mágica de Molotóv”. A vontade de grifar voltou, mas me lembrei a tempo que ainda não havia comprado o livro. Pensei: como Rachel Polonsky escreve bem, como sabe narrar e prender a atenção do leitor. Quero saber quem é. A editora informa que a especialista em literatura russa nasceu no Reino Unido e é professora no Murray Edwards College, da Universidade de Cambridge.

O Brasil é a Rússia dos trópicos e a Rússia é o Brasil da Europa-Ásia. A frase talvez seja boa, mas, por certo, é imprecisa. Países, apesar das parecenças, nunca são iguais. Somos melodramáticos como os russos? Talvez sim. Mas somos menos “ensaísticos” ao falar. A nossa malemolência é, por vezes, impeditiva de uma linguagem mais politizada, precisa e lógica. Talvez os russos queiram mais mudar o mundo, ou o próprio país, enquanto nós, tropiniquins, estamos mais interessados em viver o dia e lamentar o que poderíamos ser e não somos (somos bons do jeito que somos, tão idiossincráticos quanto quaisquer outros povos). Falamos de nós na terceira pessoa — como Edson Arantes do Nascimento fala de Pelé (e, de fato, são dois num só) — e nos criticamos como se não estivéssemos analisando nós mesmos. O “ataque” ao coletivo é uma maneira, vá lá, de “perdoar” o indivíduo, aquele que está falando. Tipo: “Eu sou bom, mas o país é uma merda”. O que o tcheco Franz Kafka, um homem que viveu apenas 40 anos e deixou uma literatura que não deixa de reverberar, inclusive na linguagem cotidiana, diria de um senador, Chico Rodrigues, que usa a própria cueca como cofre? Sorriria ou, incrédulo, perguntaria: “É isto verdade?” O senador, espécie de metamorfose surrealista, certamente, como um ex-governador do Distrito Federal, que confundia Kafka com Kafta — “comi muito, é ótima” —, nunca ouviu falar de Gregor Samsa. Mas certamente sabe que ficará na história como um ser kafkiano.

Óssip Mandelstam e Nadiéjda Mandesltam: parceria amorosa e poética | Foto: Reprodução

Pois é: eu falava da Rússia e de Rachel Polonsky, mas meu espírito tão dispersivo quanto digressivo levou-me para outros caminhos — tão russos (fico a pensar: os ucranianos já se libertaram do espírito russo? Gógol, Trótski e Vassili Grossman são ucranianos, mas, ao escreverem em russo, certamente também se tornaram russos, sem deixar de ser ucranianos), tão brasileiros.

No início do belíssimo livro (fico com a impressão de que Stálin não gostaria do sobrenome da autora, por lembrar a Polônia, que o ditador detestava), no prólogo de 13 páginas (minha visita à Palavrear se deu no dia 13, então o supersticioso que habita em mim, bisneto que sou da negra Tuosa, retorna, mas a leitura leva-me a esquecer de minha infância, quando eu não podia ver uma sandália havaiana revirada que corria para desvirá-la, aceitando a ideia de que, se não o fizesse, uma pessoa da família poderia morrer. Não sei o que acontece, mas continuo não deixando sandálias desviradas, o que, para um ímpio, deveria provocar certo estranhamento), Rachel Polonsky conta de uma lanterna mágica que encontra no apartamento de Viatcheslav Mikháilovitch Mólotov (1890-1986). O apartamento agora é de um banqueiro texano.

Brinca-se com uma lanterna mágica, que contém imagens às vezes belas, às vezes provocantes — quase sempre interessáveis. O olhar perscrutador de Rachel Polonsky, de caráter antropológico, percebe a diversidade cultural do que observa.

Anna Akhmátova e Boris Pasternak: poetas perseguidos pela tirania stalinista ! Foto: Reprodução

O banqueiro faz os olhos de Rachel Polonsky brilharem e ficarem maiores ao falar da biblioteca de Mólotov. Pois sim: a neta “do mais leal assecla de Stálin” havia passado “o apartamento a banqueiros internacionais, incluindo centenas de livros”.

Mólotov, sabe-se, era tão assassino quanto Stálin. Quando o ditador mandou prender sua mulher, a judia Polina — inclusive para testar sua lealdade —, Mólotov ficou quieto. Stálin, mesmo errado, estava, para o auxiliar, “certo”. Polina só escapou da prisão depois da morte de Stálin. A história está devidamente registrada no livro “Stálin — A Corte do Czar Vermelho” (Companhia das Letras, 860 páginas, tradução de Pedro Maia Soares), do historiador britânico Simon Sebag Montefiore (que adorou o livro de Rachel Polonsky). Transcrevo um trecho do expert na história russa: “‘Está na hora de você se divorciar de sua mulher’, disse Stálin. Mólotov concordou, em parte porque era um bolchevique, mas também porque a obediência poderia salvar a mulher que ele amava. Quando contou a ela sobre as acusações que lhe faziam, Polina gritou: ‘E você acredita neles! Se é disso que o Partido precisa, nos divorciaremos’, concordou ela. De um modo esquisito, foi um divórcio muito romântico, com um se sacrificando para salvar o outro”. Polina realmente conspirara contra o governo soviético? Papo furado. Na verdade, era judia, o que, para o paranoico Stálin, era praticamente um “crime”.

Livraria Palavrear: o nome está escrito num muro que se tornou mural | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção

Mesmo um assassino serial, como sabia Dostoiévski, tem certo interesse. Mólotov pertenceu à cúpula que implantou o comunismo na União Soviética — que não deve ser confundida com Rússia (tradutores patropis espalham a confa), que era parte do império — a ferro e fogo, matando milhões de pessoas, muitas delas, como na Ucrânia, de fome. No apartamento de Mólotov, Rachel Polonsky diz que sentiu “como se tivesse chegado a um destino”.

Mexendo nas prateleiras, examinando livros, de repente, Rachel Polonsky lembrou-se de um livro que, na adolescência, havia ganhado do pai. “A Febre do Rouxinol”, de Ronald Hingley, professor de Oxford, relatava a vida e obra dos poetas russos Anna Akhmátova, Óssip Mandelstam, Marina Tsvetáieva e Boris Pasternak. Os quatro foram perseguidos pelo regime comunista, do qual Mólotov era um dos representantes. Mandelstam morreu no Gulag, doente e faminto, porque escreveu um poema sobre os bigodes de barata de Stálin — o montanhês do Krêmlin. Tsvetáieva se suicidou.  “Fiquei então sensibilizada pela maneira como, na Rússia, a força da poesia era confirmada pelos políticos, a se considerarem as reações a estes quatro poetas por parte dos homens do Krêmlin.” A autora está tratando de seu tempo de adolescente, conectado ao tempo atual, como se o apartamento de Mólotov fosse sua Madeleine.

(Vale a transcrição do poema sobre o “montanhês do Kremlin”, na tradução de Augusto de Campos: “Vivemos sem sentir o chão nos pés/A dez passos não se ouve a nossa voz.//Uma palavra a mais e o montanhez/do Kremlin vem: chegou a nossa vez.//Seus dedos grossos são vermes obesos./Suas palavras caem como pesos.//Baratas, seus bigodes dão risotas./Brilham como um espelho as suas botas.//Cercado de um magote subserviente,/brinca de gato com essa subgente.//Um mia, outro assobia, um outro geme,/Somente ele troveja e tudo treme.//Forja decretos como ferraduras://Nos olhos! Nos quadris! Nas dentaduras!//Frui as sentenças como framboesas./O amigo Urso abraça suas presas.” Augusto de Campos apõe uma nota: “A tradução literal desta última linha equivale a: “O largo peito do ossétio”. Variante literal: “Um abraço de Ossétia às suas presas”.)

Sede da Livraria Palavrear, no Setor Universitário | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção

Stálin, quiçá o mais ardiloso dos comunistas (ao lado do homem que nasceu Mao — o Tsé-tung, da China), disse: “Se Mólotov não existisse, seria necessário inventá-lo”. A autora não faz a pergunta, mas decidi fazê-la: quem inventou Stálin? Teria sido o czarismo ou Lênin? Talvez os dois. Costumo dizer que o leninismo é o stalinismo engatilhado e o stalinismo é o leninismo atirando. São o ovo e galinha.

“Os poetas rouxinóis, cujos cantos o Partido [Comunista] não conseguiu silenciar, devem sua trágica grandeza a assassinos como Mólotov”, escreve Rachel Polonsky. A excepcional Nadiéjda Mandelstam, mulher do poeta Óssip Mandelstam, assinala em “Esperança Contra Esperança” (que precisa ser editado no Brasil), suas memórias, “que a imagem de ‘chefes de fino pescoço’  no curto poema que Mandelstam escreveu sobre a tirania de Stálin (e que o levou à sua primeira prisão, em 1934) fora inspirada pela visão ‘do pescoço fino de Mólotov emergindo do colarinho e pela pequena cabeça que o coroava. ‘Exatamente como um gato’, disse Mandelstam, apontando para um retrato de Mólotov’”. Ridicularizar, ou apenas mostrá-los como são, sem a aura da adulação que os torna gigantes, os poderosos é uma arte refinada dos poetas, e não só dos russos, é claro. A finura da descrição, praticamente um retrato, irrita aqueles que controlam o corpo e, até, a alma de todos, no caso de uma sociedade totalitária. Mas quem controla um poeta: o seu olhar faca só lâmina? Matar elimina o corpo, mas a alma, a poesia, fica como registro atemporal e universal. Não se apaga. O montanhês do Krêmlin, com seu bigode abaratado, fica cada vez pior para a história, apesar do ressurgimento de admiradores —na Rússia e, inclusive, no Brasil.

Entrada da Livraria Palavrear | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção

Ora veja, fica-se informado, lendo a sra. Rachel Polonsky, que Mólotov arranjou uma viagem para Mandelstam à Armênia. O poeta se sentia exaurido, como criador. Pois, segundo Nadiéjda Mandelstam, “a Armênia restaurou o dom da poesia em Mandelstam”. Palmas para o “filho” de Stálin? Nada disso. Pedradas. Aplausos, isto sim, para o bardo.

Com seu estilo literário, fundindo pesquisa com imaginação, Rachel Polonsky (atenção, revisor: não é “Polanski”, de Roman. Ih, esqueci que os jornais não têm mais revisores. O revisor sou eu mesmo. Triste: não posso culpar mais ninguém por minhas falhas e gralhas) anota: “Olhar para o passado é como assistir a uma projeção de lanterna mágica”. Em seguida, cita a poeta Anna Akhmátova: “A memória é estruturada como um projetor, de maneira a iluminar momentos descontínuos”.

Como não ficar com inveja de Rachel Polonsky, que, em 1980, encontrou “uma gravação de Akhmátova declamando o ‘Réquiem’”? “No lugar de um prefácio”, Anna Akhmátova — à medida que o tempo avança vai se tornando gigante e Stálin cada vez mais mignon — escreve: “Nos anos terríveis da Iéjovshtchina, passei dezessete meses fazendo fila diante das prisões de Leningrado. Um dia, alguém me ‘reconheceu’. Aí, uma mulher de lábios lívidos que, naturalmente, jamais ouvira falar em meu nome, saiu daquele torpor em que sempre ficávamos e, falando pertinho de meu ouvido (ali todas nós falávamos sussurrando), me perguntou:

“— E isso, a senhora pode descrever?

“E eu respondi:

“— Posso.

“Aí, uma coisa parecida com um sorriso surgiu naquilo que, um dia, tinha sido o seu rosto.” Anna Akhmátova e sua família foram duramente perseguidas pela tirania red.

Nadiéjda Mandelstam decorou vários poemas de Óssip Mandelstam e preservou sua memória e sua arte | Foto: Reprodução

O texto acima integra “Réquiem: um ciclo de poemas” e consta do livro “Poesia — 1912-1964” (L&PM, 216 páginas, tradução de Lauro Machado Coelho), de Anna Akhmátova. Lauro Machado Coelho, por sinal, escreveu “Anna: A Voz da Rússia — Vida e Obra de Anna Akhmátova” (Algol, 508 páginas). Deste livro, recolho o poema “Um pouco de geografia”, que Anna Akhmátova escreveu para Óssip Mandelstam: “Não foi numa capital europeia,/primeiro prêmio de beleza —/mas rumo ao horrível exílio de Ienissêi,/etapa para, depois, ir a Tchitá,/a Íshim ou à árida Irguíz/e à celebre Atbassár,/seguindo dali para a Cidade Livre,/no fedor das enxergas gangrenadas —,/que esta cidade me apareceu,/no azul da meia-noite,/ela que foi cantada pelo primeiro dos poetas,/por nós pecadores, e por ti.”

Lauro Machado Coelho informa que o poema “foi publicado pela primeira vez, em 1970, no livro de memórias de Nadiéjda Mandelstam, e só consta das edições mais recentes da obra completa de Akhmátova”.

Uma das histórias interessantes do “Prólogo” é sobre E. Sands, professor de russo em Cambrigde. Era um intelectual importante, mas evitava publicar. No texto de Rachel Polonsky não há aspas, mas, sim, está apresentando uma fala de E. Sands: “Por que deveria eu escrever quando posso ler cinquenta vezes mais no mesmo tempo em que produziria um artigo acadêmico de escasso valor?” Havia um drummond no meio do caminho: o que fazer com a papelada e os livros do scholar?

Rachel Polonsky mexeu daqui e dali, como uma inventariante quase informal do material de E. Sands. “Pergunte-me minha biografia e eu lhe direi que livros li”, disse Mandelstam. A pesquisadora compreendeu que no apartamento do mestre, na faculdade, havia tesouros — uma vida dedicada aos prazeres do intelecto. “Será possível encontrar em meio aos livros de uma pessoa mapas secretos que nos indiquem um caminho por entre as defesas de sua essência?”.

Ao vasculhar com respeito e delicadeza os fragmentos íntimos de um homem que morreu, Rachel Polonsky lembra-se de uma cena do capítulo sete de “Evguiêni Oniéguin”, o romance em versos de Púchkin. Oniéguin viaja e, em seu gabinete, “Tatiana, que o ama, (…) lê avidamente”. “Sob o retrato de Byron e a estatueta de Napoleão, Tatiana explora um novo mundo, tentando decifrar a misteriosa essência do homem, a partir das marcas deixadas pelas unhas nas páginas dos livros e das anotações feitas pelo lápis dele.”

Evidentemente, Rachel Polonsky não amava E. Sands, mas ficou tremendamente comovida ao examinar seus objetos, notadamente os livros, mas também fotografias. “Livros velhos são objeto de um tipo de desejo misterioso e compulsivo. (…) Livros são o cenário e o palco de seus próprios destinos, disse Walter Benjamin. Ao mirá-los vislumbramos o passado distante que eles encerram.”

Informada de que poderia ficar com livros de E. Sands, ao menos parte deles, Rachel Polonsky escolhe uma obra “da escritora dissidente Lídia Chukóvskaia, que versava sobre a autobiografia filosófica de Aleksandr Herzen, ‘Passado e Pensamentos’”. Além de otras cositas más, como “a transcrição de uma palestra sobre Anton Tchékhov”.

De repente, ao lidar com os papéis, Rachel Polonsky descobre uma fotografia de E. Sands, ainda jovem, na Rússia. Deu-se quase um estalo de Vieira: “Foi a fotografia do jovem Sands que acendeu em mim o desejo de sacudir das minhas mãos a poeira das supérfluas anotações de palestras sobre Tchékhov e Dostoiévski, e embarcar em um navio, sem mais delongas, rumo aos portos do Ártico”.

Decidida e conquistada, Rachel Polonsky iria passar dezoito meses na Rússia. Acabou ficando dez anos. “Em vez das obras-primas acadêmicas sobre orientalismo que tinha em mente, escrevi este livro, que relata minhas divagações na barafunda do passado causada pelos livros e lugares.”

Em Moscou, Rachel Polonsky esteve na Biblioteca Lênin (a Biblioteca Estatal Russa). Ela conta, brevemente, a história de seu curador mais célebre, Nikolai Fiódorov (1829-1903), o “Sócrates russo”. Ele “era reputado por saber o conteúdo de todos os livros de suas coleções. (…) Fiódorov acreditava, quase literalmente, que livros são seres animados, por expressarem os pensamentos e a alma de seus autores”. A pesquisadora afirma que, para o pensador russo, “um livro é a mais elevada das reminiscências do passado, pois representa o passado em seu aspecto mais humano, o passado enquanto pensamento”. Para Fiódorov, “estudar” significava “não censurar nem louvar, mas restaurar a vida”.

Tolstói, Dostoiévski e o filósofo Vladímir Soloviov iam à biblioteca para “trocar ideias” com Fiódorov. Os três “o consideravam um filósofo genial”. O pai de Boris Pasternak, Leonid Pasternak, chegou a desenhá-lo, contra sua vontade.

Na “Nova Bizâncio” de Vladimir Putin, o astuto czar de origem vermelha, um filho do KGB, Dostoiévski se tornou uma espécie de santo ou, como diz Rachel Polonsky, um “profeta”.

A professora britânica frisa que, “como Dostoiévski sabia, são os pensamentos e desejos de pessoas reais que dão às cidades sua forma e contorno. ‘A forma de uma cidade muda, infelizmente, mais rápido que o coração dos homens’, escreveu Baudelaire. (…) Todas as minhas expedições foram sombras da busca por outras”.

O livro de Rachel Polonsky é uma delícia, puxa-nos, com palavras de sereia, para sua leitura. Como não sou Ulisses, o de Homero, escutei o canto e me tornei seu servo voluntário, diria Étienne de La Boétie.

Ievguêni Ievtuchenko, poeta russo: Stálin vive em seus herdeiros | Foto: Tass

O cantor e compositor Caetano Veloso, talvez o maior poeta vivo da música brasileira, ao lado de Chico Buarque e Paulinho da Viola, estaria empolgado com Stálin? Talvez não seja bem assim. É provável que esteja mais desconfiado das ideias liberais quanto às questões sociais. De qualquer forma, como uma homenagem ao criador baiano, transcrevemos a parte final do poema “Os herdeiros de Stálin”, do poeta russo Ievguêni Ievtuchenko: “O Partido/me ordena/que eu não cale mas fale./E mesmo que alguns repitam:/”Deixe disso!”,/eu insisto./Enquanto neste mundo houver herdeiros de Stálin,/para mim,/no Mausoléu,/Stálin ainda resiste.” A tradução é de Haroldo de Campos (irmão do poeta, crítico e tradutor Augusto de Campos, amigo de Caetano Veloso) e figura no livro “Poesia Russa Moderna” (minha edição é da Editora Brasiliense, mas há uma nova, da Editora Perspectiva, com 432 páginas). As traduções são de Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman.

À noite, sonhei com uma lanterna mágica, que não era a de Mólotov. Eu dizia para alguém, talvez meu pai, Raul, ou minha mãe, Zinha: “Eu quero uma lanterna mágica”. Ao lado, Candice pareceu ter perguntado: “Está falando comigo?”. Acordei. Um passeio por uma livraria, ainda mais com o nome de Palavrear, desperta tanto coisa no nosso ser. Cria e recria sonhos — e devolve a nossa alma, à qual os homens do poder, melífluos ou não, querem se assenhorar.

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