Uma década curta

Se podemos reduzir a duração de um século, por que uma década não poderia se apresentar mais miúda?

E vendo a face de Julian Assange ladeando a de Barack Obama, ou vice-versa, ambas em close, tão semelhantes, um tão louro, quase albino, o outro preto, ou afro-americano, me veio que a alguém poderia pensar sobre esse tempo espremido | Fotos: Jack Taylor/Getty Images e Official White House Photo by Pete Souza

Halley Margon
Especial para o Jornal Opção
de Barcelona, Espanha

É razoavelmente conhecida a ideia do século curto ou abreviado sugerida pelo historiador inglês Eric Hobsbawn (Era dos Extremos: o breve século XX, 1914-1991). Os critérios que Hobsbawn usa para definir a duração do século passado não são evidentemente os da convenção numérica (1900-2000), mas os da história segundo uma interpretação facilmente identificável por um grande número de pessoas e estudiosos: o início da guerra de 1914 numa das extremidades e o fim da URSS na outra. Sem o mesmo rigor que se exige da ciência histórica foi essa a inspiração para definir aqui a década que se encerra. Se podemos reduzir a duração de um século, por que uma década não poderia se apresentar mais miúda? A questão era eleger as polaridades que a comprimiam.

Havia também a questão do fim verdadeiro para o intervalo. Quando, no final de 1999, se celebrou com enorme ênfase a passagem de milênio houve quem alertasse que o trânsito correto seria só ao término do ano seguinte, no 31 de dezembro 2000 – ao que ninguém deu muito bola. Quanto antes festejar melhor. Afinal, segundo alguns profetas podia que fosse o derradeiro ano novo da história humana. Então, o mais garantido seria  comemorar logo de uma vez. Aqui também, se quiséssemos, ao invés de registrarmos esse encerramento de 2020 como o obituário da década passada, poderíamos inseri-lo como prefácio da que se inicia. Então, o que o vai ser?

Não que tenha particular apreço por epitáfios (o único formato que me parece cabível para o período), efemérides e coisas assim. Muito ao contrário. Mas uma década como essa não é flor que se cheire.

E, de repente, lá estavam àquelas duas fotografias, uma ao lado da outra estampando o meu próprio texto, tão bem escolhidas por quem edita o que escrevo para o blog (graças ao bom deus, com tanta generosidade e quase nenhuma interferência). E vendo a face de Julian Assange ladeando a de Barack Obama, ou vice-versa, ambas em close, tão semelhantes, um tão louro, quase albino, o outro preto, ou afro-americano, me veio que a alguém poderia pensar sobre esse tempo espremido.

Esses dois personagens… bom, poderiam ser tantos outros, ou eventos. O fato é que as fotografias estavam lá, e contavam uma história do que haviam sido esses anos. São ambos praticamente da mesma geração, a diferença de idade é de praticamente uma década. Obama é nove anos e dez meses mais velho que Assange. Um nasceu na Austrália, em junho de 1971, o outro no Havaí, em agosto de 1961 (três meses após a invasão da Baía dos Porcos em Cuba, autorizada secretamente por seu antecessor John Kennedy, recém eleito para o cargo de presidente dos Estados Unidos). Poderiam ser parte do mesmo bando político, ter caminhado juntos em idênticas manifestações contra as correntes mais retrógradas do planeta, frequentado os mesmos shows de rock e assinado os mesmo manifestos. Quando Barack Obama assumiu a presidência, em 20 de janeiro de 2008, gerou uma onda de euforia ao redor do mundo e celebrações nas maiores metrópoles da Europa, em alguma das quais Julian Assange com alguma probabilidade poderá ter tomado parte.

Mas não foi esse o rumo da história. Quatro anos depois, em meados de 2012, o quadro era outro.  Após ajudar a tornar públicos documentos que revelavam crimes praticados pelas FFAA dos Estados Unidos no exterior e, sobretudo, organizar a fuga de Edward Snowden, o mais procurado inimigo dos segredos e das ilegalidades guardados pelo Departamento de Estado, Assange foi declarado agente do mal.  Por ordem direta do Comandante em Chefe daquelas FFAA (naquele momento em plena campanha pela reeleição), o jornalista passou a ser caçado como um terrorista que deveria ser conduzido para condenação sumária pelas cortes americanas.

Quando Obama tomou posse como o presidente que mais gerou expectativas positivas na história recente do Império, não havia completado ainda 47 anos de idade. Tinha, portanto, quase dois anos a menos que Assange tem agora, no final de dezembro de 2020. O australiano está enclausurado desde junho de 2012, quando foi forçado a se refugiar na embaixada do Equador em Londres para escapar da extradição e a uma condenação  de 175 anos de prisão no outro lado do Atlântico. Fosse outro o presidente dos Estados Unidos e seria a mesma coisa? Muito provavelmente. Mas não era outro, era Barack Obama. A culpa é de Obama? Não, evidentemente. É dos que em 2008 acreditaram que o enredo poderia tomar outro rumo. Nunca toma. A previsibilidade da política externa americana é como a dos filmes hollywoodianos. E no final o bandido sempre vence.

O processo

O processo todo contra o fundador do Wikileaks é indecente. Quando se olha em perspectiva, com a lente de uma narrativa cinematográfica que deixa correr o tempo para revelar as transformações dos personagens no turbilhão da trama, a imagem que resta é aterradora. Lembra a das implacáveis perseguições policiais do bom cinema da década de 1960, como o Bonny & Clyde de Arthur Penn (e não a horrorosa versão dos anos Trump , com Kevin Kostner e Woody Harrelson). O imenso poder de pressão do Império mobilizado para dar fim a um indivíduo isolado e acuado na embaixada de um minúsculo país da América latina. Países supostamente tão independentes quanto a Suécia se submeteram aos ditames imperiais como uma reles república bananeira. O escárnio repetiu-se ao longo desses oito anos que marcaram a década, enquanto o cerco apenas se aprofundou, transcendendo em muito a persona Assange. E o ataque é à possibilidade de seguir bisbilhotando as maldades tramadas pelos que ocupam o poder do Estado (talvez o mais precioso dos bens públicos) no escuro das suas cavernas diabólicas.

Como era de se esperar, tão logo um serviçal de Washington assumiu o governo do Equador e retirou o asilo que o protegia, em 11 de abril de 2019, Assange foi imediatamente capturado pelo governo britânico e levado para a penitenciária de segurança máxima de Belmarsh no Sul de Londres, “condenado a 50 semanas de prisão por violação dos termos da liberdade condicional”.

O que há aqui é muito mais que uma sentença penal. O que há é uma mensagem. Um alerta. Uma ameaça. Uma política. É disso que se trata. É esta a fotografia da década tomada em perspectiva. Ou pelo menos uma delas. Não é uma fotografia agradável. Porque o que se vê nela não é apenas o horror, é também, para muitos e em todo o planeta, um desencanto agudo. O trumpismo é apenas o lado mais perverso de uma sociedade que parece não se dar conta da trama de restrições e controles, visíveis e invisíveis, a que estamos sendo submetidos em troca de um suposto bem estar que na realidade alcança apenas umas tantas ilhas ou arquipélagos exibidos à exaustão.

Outros epitáfios

Naturalmente, muitos de nós estaremos nos lembrando da morte e fazendo epitáfios quando o ano terminar. Eles estarão se referindo àqueles que morreram atingidos pela pandemia. E por mais que  tenha havido um enorme esforço de adaptação, o sofrimento da perda e a angústia da incerteza, algumas vezes tratados com escárnio por figuras tão desprezíveis quanto o futuro ex-presidente americano (copiado aqui e ali por subalternos de segunda linha), foram a marca do ano que encerrou a década.

Daqui a pouco a locomotiva volta a acelerar. Faremos todos nós o luto que nos couber e seguiremos adiante. A verdade é que não é a primeira vez que a humanidade se depara com tragédias dessa dimensão, tantas mortes e tanto sofrimento. O século passado, ainda tão próximo, foi abundante em morticínios. A dose extra de horror deixada como marca na esteira da pandemia, no entanto, é a demonstração de poder do mercado sobre o Estado e a aplicação de suas políticas, ainda quando o que se apresenta é uma crise de saúde pública de escala planetária capaz de matar 1.700.000 pessoas em apenas doze meses – 141 mil pessoas por mês.

PS

Pode ser que no Brasil também a década tenha sido mais curta e se iniciado, como na acima descrita, por volta de 2012 – terá sido, talvez, menos triste?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.