Quase nada me escapa das publicações do meio cultural? Descubro, com o tempo, que muito me escapa. Li, nalgum lugar, que Toninho Vaz publicou uma biografia do antropólogo, escritor e político Darcy Ribeiro. Eu não sabia disso. Fui ao Google, o amigo dos cérebros esquecidos, e está lá: “Darcy Ribeiro — Nomes Que Honram o Senado”, livro publicado pela Editora Senado, em 2005.

Como me interesso pelo gigante da contradição que é o ministro do governo de Jango Goulart, a partir de agora começo a caçar a obra de Toninho Vaz como Hemingway caçava “mentiras” na Espanha republicana e na África destemida e na Cuba de Lezama Lima (o poeta e prosador, anote, foi e é a grande Revolução Cubana; é eterna).

Torquato Neto capa de livro

Quem aprecia música, poesia, cinema — cultura em geral — não tem como contornar os vários livros do jornalista, escritor e pesquisador. Toninho Vaz era uma foz que construiu a história do Brasil por meio da cultura, dos criadores artísticos.

Tu quer saber tudo, ou quase tudo, sobre o poeta, jornalista, letrista e cineasta Torquato Neto (1944-1972), que, gênio, morreu quase menino, aos 28 anos? Pois fique sabendo: há uma biografia excepcional: “Pra Mim Chega — A Biografia de Torquato Neto”. É uma bíblia sobre este autor múltiplo — um guerreiro de saberes culturais.

Paulo Leminski capa de livro 1

De Torquato Neto, o leitor pode saltar, numa nuvem de cultura, para a excelente biografia “Paulo Leminski — O Bandido Que Sabia Latim”. Sim, da lavra de Toninho Vaz.

Como Torquato Neto, Leminski não era só “um”. Era vários. Quiçá trezentos e cincoenta, como Mário de Andrade (o bardo de Curitiba preferia o outro Andrade, o Oswald).

Leminski escreveu poesia, das boas, e um romance joyciano-rabelaisiano: “Catatau”. Fez crítica de literatura, sempre atenta, e traduções (até do latim, “Satíricon”, de Petrônio, e do japonês, “Sol e Aço”, de Yukio Mishima).

O bardo Leminski parece mas não é um personagem fácil. É tão complexo quanto mítico (e desfazer os mitos não é nada fácil, porque se tornaram parte do ser do poeta e prosador sulista).

solar da Fossa capa de livro

Pois Toninho Vaz conseguiu colocá-lo em pé, ao nosso lado e na nossa frente, com todas as suas contradições, que, longe de melhorá-lo ou piorá-lo, deu-lhe grandeza — um lugar privilegiado na cultura do país de Machado de Assis, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Carolina de Jesus e Lygia Fagundes Teles.

Li o livro “Solar da Fossa — Um Território de Liberdade, Impertinências, Ideias e Ousadias” num único dia. É uma biografia da contracultura, por assim dizer, escrita, de maneira solar, por Toninho Vaz. Nunca me diverti tanto lendo um livro.

O lendário casarão, em Botafogo, no Rio de Janeiro, abrigou, entre outros, Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil, Paulinho da Viola, Tim Maia, Glauber Rocha, José Wilker, Paulo Coelho (parça de Raul Seixas), Paulo Leminski e Ruy Castro (autor do prefácio do livro).

Luiz Melodia capa de livro 1

O Solar da Fossa foi, dizem, o berço da Tropicália. O cenógrafo Fernando Pamplona decidiu mudar o nome para Solar da Fossa e pegou para todo o sempre. Lá moravam artistas durérrimos, que, às vezes deprimidos e separados, curtiam uma fossinha ligeira, logo alegrada ou curada pela boa música e pelo bom papo. Recomendo o livro vivamente.

Sabe Luiz Melodia, o notável cantor, músico e compositor? Pois Toninho Vaz o biografou muitíssimo bem e com graça. Vale a pena ler “Meu Nome é Ébano — A Vida e a Obra de Luiz Melodia”. No começo da leitura, você ficará com a impressão de que a Melodia de Luiz é grande. Ao término, dirá: é gigante.

Zé Rodrix capa de livro

Houve um tempo, quando eu era jovem — por incrível que pareça, aos 65 anos, ainda não me considero idoso —, que ouvi muito a música de Zé Rodrix, cujo nome sempre me intrigou (descobri, mais tarde, que, por trás do nome de guerra, havia outro — José Rodrigues Trindade). A música “Casa de Campo” tocava em todas as rádios e, até, nas emissoras de televisão. O cantor, compositor e multi-instrumentista morreu em 2009, aos 61 anos.

Dos livros de Toninho Vaz escapou-me mais um: “Grupo Severiano Ribeiro — 90 Anos de Cinema”. Por que não o li? Não sei. Talvez por considerar que, embora importantíssimo, cinema é uma subarte. Quer dizer, uma arte derivativa. Deriva, por exemplo, da literatura. Não é autônoma, ainda que, aqui e ali — na filmografia de Bergman, Buñuel e mais dois ou três diretores —, pareça. Cinema “de autor” é a melhor ficção criada por franceses da estirpe do ótimo François Truffaut.

o rei do cinema capa

Por que estou falando da obra de Toninho Vaz? Porque o jornalista, roteirista e escritor paranaense morreu na terça-feira, 21, aos 78 anos. Comecei pela vida, quer dizer, pela obra. Porque é o que ficará. Quem quiser escrever sobre a cultura brasileira — sobre Torquato Neto, Paulo Leminski, Luiz Melodia — não poderá contorná-lo. Toninho Vaz é essencial.

No Facebook, Toninho Vaz avisara aos amigos virtuais que estava doente. Depois, informou que havia se recuperado e que estava escrevendo, talvez um livro, não me lembro sobre quem.

Toninho Vaz trabalhou como jornalista no “Jornal do Brasil”, na “IstoÉ”, na Band, no SBT e na Globo. Foi editor de texto da Globo — no “Jornal Nacional”, no “Globo Esporte” e no “Fantástico” — por 14 anos.

O Brasil perde muito com a morte de Toninho Vaz. Mas ganha por ficar com seu legado. Sua herança não é apenas da família — é pública, de todos os brasileiros que apreciam cultura.

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