Tomar ômega 3 faz bem ao coração?

É preciso focar no que tem impacto — controle de pressão, colesterol, diabetes, tabagismo — e deixar de lado receitas mágicas,  como parece ser o caso da suplementação com ômega 3

Rafael Macedo Mustafé

Especial para o Jornal Opção

Os ácidos graxos de cadeia longa conhecidos como ômega-3 há muito tempo são citados como potenciais protetores para a saúde cardiovascular humana. Entretanto, essa crença era baseada até então em estudos realizados em animais e estudos epidemiológicos observacionais que infelizmente não são conclusivos.

Pintura de Amadeo de Souza Cardoso

Com o objetivo de tentar dirimir a dúvida sobre o assunto foi realizado nos EUA um estudo de grande porte — o maior já feito sobre o tema —, um ensaio clínico randomizado (o melhor método que a ciência tem para examinar temas como este), com mais de 25 mil pacientes. Também foi avaliado se a suplementação com ômega 3 poderia reduzir a incidência de câncer.

O estudo foi apresentado no dia 10 de novembro no primeiro dia do congresso americano de cardiologia da American Heart Association (AHA), realizado em Chicago, e publicado no mais importante periódico médico do mundo, o “The New England Journal of Medicine” (NEJM). Entre os mais de 25 mil participantes havia homens com idade maior ou igual a 50 anos e mulheres com idade maior ou igual a 55 anos, a maioria saudável, mas também alguns hipertensos, diabéticos, obesos e fumantes.

Pintura de Rembrandt

Metade dos pacientes fez uso de suplementação com ômega 3 e metade fez uso de placebo. O estudo foi “duplo-cego” (nem os pacientes e nem os pesquisadores sabiam o que cada um estava tomando).

Ao final de uma média de cinco anos de seguimento não houve diferença entre o número de problemas cardíacos ou câncer entre os dois grupos — o ômega 3 não foi protetor, não sendo superior ao placebo. O resultado, portanto, foi negativo — a suplementação rotineira com ômega 3 parece não prevenir câncer e/ou problemas cardíacos em uma população saudável. Entretanto, permanece uma dúvida: foi verificado que entre as pessoas que ingeriam pouco peixe ou frutos do mar houve uma pequena redução de eventos cardíacos. Mas o estudo não nos permite chegar a esta conclusão visto que não foi desenhado para avaliar esta questão específica — que deverá ser melhor estudada posteriormente.

Sempre digo aos pacientes que devemos focar nossos esforços naquilo que comprovadamente tem impacto — controle de pressão, colesterol, diabetes, tabagismo etc — e deixar de lado as “receitas mágicas” como parece ser o caso da suplementação com ômega 3.

Ômega 3 por enquanto só o contido em peixes e frutos do mar que, além de serem saborosos, podem ter um pequeno benefício para o coração.

Rafael Macedo Mustafé é médico cardiologista.

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