Euler de França Belém
Euler de França Belém

“Times” sugere que Ronan Farrow, filho de Mia e Woody Allen, não apura os fatos com o devido rigor

O repórter Ben Smith admite que o jornalista não inventa os fatos, mas reforça só os detalhes que lhes interessa e “esquece” das nuances

Ronan Farrow: repórter da revista “New Yorker” | Foto: Reprodução

Filho da atriz Mia Farrow e do diretor de cinema Woody Allen, Ronan Farrow é um dos repórteres da moda nos Estados Unidos. É tido como o garoto-prodígio da mídia americana. Recentemente, publicou o livro “Operação Abafa — Predadores Sexuais e a Indústria do Silêncio” (Todavia, 464 páginas, tradução de Ana Ban, Fernanda Abreu e Juliana Cunha), um best seller. Mas seu trabalho começa a ser questionado, agora pelo principal jornal dos Estados Unidos, o “New York Times”.

O título do texto do “Times”: “Ronan Farrow é demasiado bom para ser verdade?” Como nota Javier Ansorena, do jornal “ABC”, da Espanha, o repórter era, até agora, intocável. Aos 32 anos, o único filho biológico de Mia Farrow e Woody Allen é apontado como o jornalista investigativo “mais famoso dos Estados Unidos”. “Suas revelações têm contribuído para derrubar pesos-pesados envolvidos em abusos contra mulheres, como o superprodutor Harvey Weinstein e o procurador-geral de Nova York, Eric Schneiderman. Seus artigos na revista ‘New Yorker’ o converteram em herói midiático e uma figura reverenciada na era ‘Me Too’”.

Mesmo antes de se tornar uma celebridade como repórter, Ronan Farrow já estava no “palco”. Primeiro, por ser filho de Mia Farrow e Woody Allen. Segundo, pelo escândalo que envolveu seu pai, que teria abusado da filha Dylan Farrow. Ronan Farrow se posiciona ao lado da irmã. Woody Allen nega o abuso.

Terceiro, há a suspeita de que Ronan Farrow seja filho do cantor Frank Sinatra, e não do diretor de cinema. A própria Mia Farrow observou que o filho é parecido com o “sócio” de mafiosos em cassinos, como Sam Giancana. Entrevistado pelo “The Guardian”, em 2013, o jornalista ironizou: “Olha, todos somos, possivelmente, filhos de Frank Sinatra”. A atriz manteve um affair com A Voz.

Harvey Weinstein: atrizes o denunciaram por assédio e violência sexual | Foto: Reprodução

Apontado como prodígio, Ronan Farrow, com 20 e poucos anos, trabalhou no governo do presidente Barack Obama e com a secretária de Estado, Hillary Clinton. Ele começou como jornalista investigativo na NBC, em 2015. Na “New Yorker”, mais prestigiosa revista americana, o repórter estreou em 2017, com uma reportagem tida como “demolidora” sobre Harvey Weinstein. Era o primeiro texto em que o produtor de cinema era apontado como um “predador sexual”, um “violador”, o que sugeriu a abertura de uma investigação criminal. Seguiu com outras reportagens, arrolando magnatas envolvidos em assédio sexual, como Les Moonves, presidente da CBS, e publicou o livro citado acima, que é um aprofundamento sobre os grandes predadores sexuais americanos.

Depois de Carl Bernstein e Bob Woodward, que contribuíram para forçar a renúncia do presidente Richard Nixon, com a revelação do Caso Watergate, Ronan Farrow é o mais comentado repórter de sua geração. Ele está na boca de todo mundo. É um modelo. É mesmo?

Não é o que afirma Ben Smith —, igualmente repórter investigativo —, o autor do texto do “Times” que procura descontruir o trabalho de Ronan Farrow. Ele era diretor do “BuzzFeed News”.

Ben Smith, repórter do “The New York Times”: caçando problemas e imprecisões nas reportagens do repórter investigativo Ronan Farrow | Foto: Reprodução

Depois de uma checagem atenta dos textos de Ronan Farrow, Ben Smith conclui que falta “solidez” nas suas informações. “‘Amiúde omite fatos e detalhes que complicam ou são inconvenientes para suas histórias’.” O repórter da “New Yorker” não procura apresentar o contraditório com o devido rigor. Noutras palavras, antes mesmo de começar a reportagem, já tem uma tese e só procura encontrar os “fatos” que possam corroborá-la. Em busca de “sol” para si, por assim dizer, o jornalista “apaga” a “lua” dos outros.

Segundo Javier Ansorena, “suas revelações sobre Weinstein, que contribuíram para seu naufrágio e posterior julgamento e condenação à prisão, são problemáticas, explica Smith. Farrow contou com o testemunho de Lucia Evans, uma estudante que acusou o produtor de forçá-la a fazer sexo oral. Não buscou a confirmação do episódio com uma amiga de Evans, que estava com ela” no dia do encontro “e, em seu artigo, se limitou a dizer que ‘Evans contou a alguns amigos, mas lhe custava muito falar’” da história. Ben Smith pondera que, dada a gravidade do caso, quando se trata “desse tipo de revelações, o habitual é rastrear familiares, amigos ou vizinhos que constatem o que a vítima lhes contou sobre o que ocorreu”. Ronan Farrow teria se contentado com “uma” narrativa, a de Lucia Evans.

Ronan Farrow anunciou que o advogado pessoal de Donald Trump, Michael Cohen, teria “destruído documentos relacionados com o presidente”. A informação era falsa, mas Ronan Farrow não se preocupou em comprová-la.

No livro campeão de vendas, Ronan Farrow denuncia Matt Lauer, apresentador da NBC. Mas, segundo Ben Smith, “omitiu a colaboração de testemunhas-chaves”.

Mas, afinal, se não apura com o devido rigor — no sentido de que prefere firmar mais a peça acusatória e menos apontar possíveis nuances —, Ronan Farrow inventa fatos? Ben Smith conclui que “não” — o repórter não inventa suas histórias. Mas, segundo o repórter do “Times”, “se deixa levar por ‘narrativas cinematográficas’ e por um crescente problema nos Estados Unidos: um caldo midiático de ataques aos ‘maus’ em que ‘as velhas regras da imparcialidade e a mente aberta’ já não valem”. Em tese é assim: o sujeito já está “sujo”, então deve-se empurrá-lo para o fundo do poço, para destruí-lo de vez. Talvez a visão seja mais ou menos esta: se nenhuma “nuance” — ou atenuante — vai retirá-lo de lá, por que registrá-la?

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