Euler de França Belém
Euler de França Belém

Tentar “desmoralizar” o general Augusto Heleno serve a quê?

Rodrigo Maia deu-lhe uma resposta moderada. Convocar o chefe da GSI para depor na Câmara não leva a nada — seria apenas um ato de força e uma provocação

O chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República, Augusto Heleno Ribeiro Pereira, um dos generais brasileiros mais qualificados, era visto como “moderado” e agora é apontado como “radical” por parte da imprensa e dos políticos. Mas quem mudou: o general ou a imprensa e os políticos?

O mais provável é que, ao contrário do que sugerem alguns jornais e redes de televisão, o general Heleno não tenha mudado na essência. É quase certo que, internamente, permaneça moderado, tentando segurar os excessos do presidente Jair Bolsonaro — ao lado de outros poucos bombeiros. Publicamente, até para atender a política agressiva do gestor máximo — que está em campanha eleitoral, assim como Lula da Silva, do PT (o bolsonarismo torce para que o PT permaneça hegemônico no campo da esquerda para evitar a consolidação de um fato novo, como Luciano Huck, sobretudo no espectro do centro político)  —, está se tornando mais contundente nas críticas aos (possíveis) adversários.

Jair Bolsonaro, presidente da República, e Augusto Heleno, chefe do GSI | Foto: Reprodução

Noutros tempos, em que parte da imprensa vivia certa lua de mel com o poder — não há dúvida de que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso era “idolatrado” por vários jornalistas e proprietários de jornais, revistas e redes de televisão —, uma declaração como a do general Heleno seria percebida não como um ataque ao Parlamento, e sim com uma radiografia do fisiologismo de alguns de seus integrantes.

Lula da Silva, que um dia foi darling da “mídia” — Bolsonaro adora a palavra, que, na sua boca, é palavrão —, chegou a dizer, em 1993, que, no Congresso, havia “uma minoria de parlamentares que se preocupa e trabalha pelo país, mas há uma maioria de uns 300 picaretas que defende apenas seus próprios interesses”. De fato, na época, Lula da Silva não era presidente da República nem tinha cargo no governo federal, mas sua crítica é semelhante à do general Heleno. Até mais corrosiva. No entanto, foi louvado, e não execrado.

O general Heleno exagerou, é certo — até pelo cargo que ocupa precisa de compostura, inclusive porque está prejudicando as relações do governo como a Câmara dos Deputados e com o Senado. Ao mesmo tempo, deve ter cuidado para não confundir o Parlamento — um dos pilares da democracia — com deputados que supostamente enfiam a faca no pescoço dos governantes. Como é integrante do governo, e num cargo de proa, sua fala, sugerindo que deputados fazem chantagem, quando se trata de emendas-orçamento impositivo, é excessiva. O que disse é o que se fala nos bastidores? Sim, é. Mas pegou mal para o governo que representa. Ao menos em reportagens e artigos de jornais, cristaliza-se a ideia de que o governo é autoritário e antidemocrático.

Mas a fala do general teve o objetivo de combater o Parlamento como instituição? Não parece. Tanto que não disse, em nenhum momento, que, por causa dos supostos chantagistas, o Congresso deveria ser fechado. Se tivesse dito, aí seria muito grave. A fala de um retorno do AI-5, propalada pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro, é muito mais grave do que o comentário do chefe do GSI. Heleno, veterano de 72 anos, não é favorável a um golpe de Estado — que é o que significa o AI-5 (que foi um golpe dentro do golpe — para endurecer o regime civil-militar, em 1968).

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia — o queridinho da imprensa, que já se esqueceu da Lava Jato, porque o alvo agora é Bolsonaro e seus arroubos tão autoritários quanto grosseiros —, deu a resposta adequada e moderada ao general Heleno. Portanto, convocá-lo para depor na Câmara não leva a nada — seria apenas um ato de força e uma provocação.

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