Euler de França Belém
Euler de França Belém

Sucesso de Domingos Montagner advinha do fato de que convencia como homem viril

O ator não era bonitão, ao menos não no sentido tradicional, tinha cara de boxeador, mas era charmoso

domingos-montagner-foto-facebook

Domingos Montagner | Foto: Facebook

Leitores perguntam: “Por que o ator Domingos Montagner, que morreu afogado na semana passada, aos 54 anos, no Rio São Francisco, fazia sucesso?” Não tenho “a” explicação, sobretudo porque não acompanhei suas múltiplas atuações. O que posso é arriscar uma ou duas explicações, pendendo, por vezes, até para o preconceito. Ao se convocar um ator para compor um personagem costuma-se observar certos preconceitos, estereótipos e idiossincrasias dos brasileiros; não dá para trabalhar com purezas exigidas por certos movimentos organizados. A vida real (mesmo nas histórias ficcionais) exige nuances, a exibição das contradições da sociedade. Não se busca a “sociedade ajustada” que movimentos sociais exigem, mas não existe na realidade.

Domingos Montagner era um homem alto (1,86m), forte e não tinha o perfil do bonitão clássico das novelas e do cinema. Mas parecia, e era, um homem, quer dizer, não era um garotinho afetado (e não se está falando de homossexual, não). Convencia como personagem viril, másculo, até, por assim dizer, às antigas. Era também charmoso e, ao mesmo tempo, simples. É provável que, se não tivesse falecido, acabaria por se tornar uma espécie de novo Antônio Fagundes. Este possivelmente substituiu Cláudio Marzo e, quem sabe, Tarcísio Meira.

Há um imaginário do homem durão, que pode, digamos, fazer o Paulo Honório, do romance “S. Bernardo”, de Graciliano Ramos, e convencer. Domingos Montagner era assim: convencia, do mesmo modo que Clint Eastwood, Al Pacino e Robert De Niro convencem no papel de homens durões e, por vezes, malditos. Assisti capítulos de uma série sobre detetive e ele está convincente como Espinosa — durão, com emoções sob controle, reticente e reservado. Convence também como o homem forte, trágico e idealista da novela “Velho Chico”, da TV Globo.

Com sua cara de boxeador, espécie de cara de borracha, era um ator que se moldava aos papeis. Um ator precisa convencer, os personagens precisam ser críveis. A Globo terá de procurar outro ator com o seu perfil.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.