Steve Bannon — uma pequena história (2)

Partindo de um patamar elevado de técnicas de manipulação do eleitorado, estão levando o método às últimas consequências — e colhendo os resultados

Halley Margon
De Barcelona

Um dos desafios para Steve Bannon é, em sua nova empreitada na Europa, como absorver os grupos e eleitores abertamente fascistas afastando-se ao mesmo tempo do invólucro nazifascista. Ou, pelo menos, tapar as frestas que permitem ver os vínculos da sua atividade de assessoria política com os herdeiros assumidos do nazifascismo. Gente que não se envergonha, senão o contrário, de exibir estandartes com a Cruz de Ferro ou a ainda mais tenebrosa suástica, de estender o braço direito na conhecida saudação romana enquanto berram o Sieg Heil! Sieg Heil! (“Salve a vitória!”)

Parece tratar-se apenas de um pequeno incômodo. E, de fato, o deslocamento ou a rearrumação que o americano está tentando levar aos ultradireitistas europeus, com o objetivo de agrupá-los num único movimento sob sua orientação midiática, é mais relevante que a relação em si com os neonazistas e afins. Para chegar ao poder ou pelo menos se apresentarem como alternativa viável de poder, sua turma tem que a um só tempo aceder aos mais baixos instintos presentes na sociedade, alimentá-los e canalizá-los. Precisa atraí-los para uma mais ou menos ampla área de influência e ao mesmo tempo tornar o projeto todo mais palatável.

Discursando num encontro da eleição presidencial de 2016, nos Estados Unidos, Bannon sintetizou assim a política da campanha de Trump contra Hilary Clinton: “O nacionalismo econômico é o que nos une. Não importa qual é a sua etnia, religião, gênero ou preferência sexual. Você sabe o que importa a ele (Trump)? Que você é um cidadão dos EUA.” Como sabemos, contra o que previam todas as pesquisas, Trump bateu Hilary para se tornar o 45º presidente americano.

Steve Bannon e Marine Le Pen: palmas para o americano que está conquistando e contribuindo para “direitizar” parte da Europa | Foto: Reprodução

No ano seguinte, do outro lado do Atlântico num comício onde apresentava-se como candidata à Presidência da França, Marine Le Pen repetia quase ipsis litteris a frase de Bannon: “Seja você homem ou mulher, cristão, judeu ou muçulmano, heterossexual ou homossexual, você é antes de tudo francês”. Não é coincidência, obviamente, e com esse discurso a filha de Jean-Marie Le Pen ganhou o direito de disputar o segundo turno das eleições contra Emmanoel Macron. Perdeu com uma grande diferença de votos. Macron obteve praticamente o dobro dos votos de Marine (66,1% a 33,9%). Uma derrota que, considerada em perspectiva, deve encher de orgulho a líder do Reagrupamento Nacional (Frente Nacional à época de seu pai).

Nas eleições presidenciais de 2002, no auge da popularidade, da radicalização do discurso xenófobo e seguindo a trajetória de crescimento constante desde as eleições de 1988, Jean-Marie Le Pen colocou para escanteio boa parte dos tradicionais partidos franceses, o poderoso Partido Socialista inclusive, e se encaminhou para o segundo turno com o apoio de 17% dos eleitores (havia obtido 14,4% em 1988, e 15%  em 1995). Foi o suficiente para disparar o alarme da sociedade francesa, que se uniu numa inédita votação de rechaço ao ultradireitista. Jacques Chirac, o adversário, conseguiu atrair contra Jean-Marie nada menos que 82% dos cidadãos franceses. A candidatura simplesmente atolou na lama do próprio discurso. Le Pen não seduziu nem 1% além daqueles que já havia atraído no primeiro turno. A partir dali, seu partido apenas decaiu. Até que, após substituir o pai no comando, em 2011, Marine Le Pen decide amenizar a imagem de partido xenófobo e, pelo menos, condescendente com os bandos neonazistas e a história dos crimes do nazismo. Por isso a derrota para Macron talvez tenha sido comemorada como uma vitória. A vitória de uma estratégia de reconstrução de imagem e reposicionamento relativo dentro do espectro político.

Tratava-se, como ainda agora se trata para os políticos sob a inspiração do influencer e seu The Movement, de conquistar eleitores que, embora ainda extremamente direitizados, não têm tanta disposição para aceitar os discursos raivosos e as práticas de bandas xenófobas e/ou neonazistas que compuseram o combustível da Frente Nacional ao final dos anos 1990. Ainda que sem rejeitar os cães raivosos, que abundam e às vezes podem lembrar  as tropas SA do hitlerismo (os camisas pardas que a cúpula nazista tratou de liquidar, em 1934, pouco depois de chegar ao poder), esforçam-se para encontrar maneiras de mantê-los em segundo plano o mais discretamente possível — exatamente como fez Marine Le Pen com seu pai a partir de 2011.

Joseph Goebbels e o Fusca 1938

Do ponto de vista dos operadores políticos dessa nova extrema direita, esses que estão por detrás das cortinas traçando estratégias, oferecendo “acesso a dados de pesquisa, análises, conselhos sobre campanhas de mídia social e ajuda na seleção de candidatos” e que aparecem apenas na medida das próprias conveniências, Joseph Goebbels era o que se consideraria agora um “amateur”. Gestores do ódio e do ressentimento, reviram o subsolo da alma humana para extrair da miséria psíquica ou da estreiteza de horizontes o combustível dos seus projetos de poder — mas o fazem com ferramentas e técnicas inimagináveis no entre guerras.

Hitler e o Fusca: o carro popular do nazismo alemão | Foto: Reprodução

Colocados frente a frente, seria mais ou menos como comparar o famoso primeiro Fusca (de 1938) da foto onde aparece ladeado pelo Führer, com o Porsche Carrera recém-lançado pela montadora alemã.

Como anota o jornalista Paul Lewis do “The Guardian” (leia artigo anterior¹), para Bannon (e sua gente) política é propaganda. Até aí, de forma geral nada de muito novo. O que, sim, é novo é que partindo de um patamar já elevado de técnicas de manipulação do eleitorado estão levando o método às últimas consequências, aperfeiçoando instrumentos e processos – e colhendo os resultados. Assim, a frase de Paul Lewis deve ser lida literalmente.

Não é que o americano seja a “mater originalis” desse processo de rejuvenescimento da extrema direita que se está observando no velho continente. Os Le Pens já ocupavam a cena política francesa ao final da década de 1980; o Fidesz Victor Orbán o fundou em 1988, e dez anos depois já exercia seu primeiro mandato como primeiro-ministro; na Itália a Liga Norte se formou em 1991 (Salvini assumiu o comando em 2013, imprimindo ao partido sua face marcada de extrema direita). O caçula e atual estrela orgulhosa da constelação é o Vox da Espanha, talvez porque a memória do franquismo fosse ainda recente demais para que projetos políticos dessa natureza não tivessem vergonha de se apresentar ao eleitorado.

Embora não tenha sido o único, nem tampouco o primeiro, o fato é que Bannon identificou o fenômeno e com a experiência recém adquirida na eleição presidencial de Donald Trump, que soube creditar à sua atuação, apresentou-se às ansiosas e em alguns casos muito jovens agremiações europeias como o guru capaz de fazê-las encurtar o caminho ao Olimpo.

Muito diferente é o efeito que poderá produzir, ele e a comunidade de partidos que pretender manter sob sua inspiração, numa sociedade muito mais sofisticada, do ponto de vista das instituições políticas, que a americana. A torção à direita que se viu e se vê nos Estados unidos certamente encontraria mais resistência pelos lados de cá. Há muito mais contrapeso dentro do sistema de poder consolidado pelas democracias parlamentares, para não falar do dinâmico equilíbrio de forças que o pluripartidarismo europeu permite e a dinâmica entre Republicanos e Democratas reduz a quase nada – além de uma quase infinidade de outras diferenças, entre elas a memória histórica.

Definitivamente, a Europa não está imunizada contra o vírus do trumpismo e suas variações (veja-se os recentes exemplos dos Berlusconi, dos Victor Orbán, dos Boris Johnson e que tais…), mas as torções profundas na sociedade, essas, sem dúvida, pelo menos por hora parecem mais difíceis de ocorrer por aqui.

¹ Leia a primeira parte da análise sobre Steve Bannon

Steve Bannon e a tecnificação da política — uma pequena história (I)

 

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