Euler de França Belém
Euler de França Belém

Stálin mandou matar Raoul Wallenberg. Schindler sueco salvou 100 mil judeus dos massacres nazistas

Diplomata sueco, que negociou a sobrevivência de judeus húngaros com os nazistas, como Eichmann, foi fuzilado pelos soviéticos. Ele tinha apenas 35 anos

Raoul Wallenberg, diplomata sueco e herói sem túmulo, salvou aproximadamente 100 mil judeus húngaros dos nazistas de Hitler, Himmmler e Eichmann | Foto: Reprodução

O alemão Oskar Schindler é corretamente reverenciado porque salvou cerca de 3.500 judeus das garras do nazismo da Alemanha de Adolf Hitler. O diplomata sueco Raoul Wallenberg salvou quase 100 mil judeus húngaros, em 1944, das garras dos homens de Adolf Eichmann e Heinrich Himmler, mas acabou assassinado pela polícia de Ióssif Stálin, em 1947, aos 35 anos. A história de sua prisão e morte ainda é um mistério. Sabe-se apenas que os comunistas o mataram, mas não se sabe exatamente como. Livros como “Raoul Wallenberg in Budapest”, do historiador Paul Levine, e “To Save a People”, de Alex Kershaw, reabriram a questão, baseados em novos documentos, mas o assunto permanece nebuloso (ressalte-se que parte dos arquivos soviéticos ainda não está liberada para pesquisa). “Dentro dos Arquivos de Stálin — Descobrindo Uma Nova Rússia” (Record, 351 páginas, tradução de J. R. Souza), do pesquisador Jonathan Brent, reabre a questão a partir de um depoimento colhido em Moscou.

No capítulo 14, “Raoul Wallenberg”, Jonathan Brent conta a história do desaparecimento e morte do diplomata sueco praticamente em tom de romance policial. O estudioso da história da União Soviética conta que, numa resenha publicada no “New York Times”, leu sobre Boris Yujin, “um antigo oficial do KGB e agente duplo americano”. “Wallenberg foi um grande herói que simplesmente desapareceu no vazio da burocracia soviética”, anota o pesquisador.

Livro de pesquisador norte-americano reabre os arquivos de Stálin | Foto: Jornal Opção

Terminada a leitura do artigo, Jonathan Brent ligou para Yujin, que mora nos Estados Unidos. O ex-espião deu-lhe um nome, um telefone e uma dica: “Pergunte pelo arquivo de Kutuzov”.

Em Moscou, certamente acreditando na mudança dos tempos — esquecendo-se que o KGB, com novo nome, FSB, permanece no poder —, ligou para a fonte e citou o “arquivo de Kutuzov” e levou uma reprimenda: “Nunca repita este nome em Moscou; certamente, não ao telefone”.

Mesmo desconfiado, o oficial do KGB aceitou conversar com o americano. Encontraram-se num restaurante meio escondido e escuro. Jonathan Brent pergunta se o “arquivo de Kutuzov existe”. O russo diz: “O arquivo de Kutuzov é real”.

Logo depois da Revolução Russa de 1917, um parente do general-príncipe Kutuzov, o herói da Guerra de 1812 e do romance “Guerra e Paz”, de Liev Tolstói, foi preso pelos comunistas. O jovem estava tentando fugir da União Soviética. Para não ser fuzilado, Kutuzov aceitou colaborar com a Cheka, a precursora do NKVD e do KGB.

Kutukov, transformado em espião, foi enviado a Paris, de onde enviava relatórios circunstanciados sobre a vida dos russos no exílio. Em 1944, deslocado para Budapeste, onde, “homem afável, culto e espirituoso, logo fez amizade com Wallenberg”. O diplomata e homem de negócios sueco gostava dele. “No que ficou conhecido como ‘O Arquivo de Kutuzov’, ele relatou a Moscou tudo o que Wallenberg disse ou fez”.

O arquivo, explicou o espião, “ficava no repositório do KGB. Um dia, desapareceu”. O arquivo é um relatório sobre as ações de Wallenberg em Budapeste. “Mostra porque tinham de executar Wallenberg.” Jonathan Brent estranha: “Tinham?” O oficial reafirma: “Não tinham outra opção”.

Um dos problemas é que o oficial admite não ter lido o arquivo. “Segundo o general Pavel Sudoplatov, do KGB, Wallenberg foi executado por injeção letal em 1947, ainda quando estava detido em Moscou”, registra o pesquisador.

Um morador de Budapeste confirmou a história do oficial para Jonathan Brent. Ele disse “que, quando garoto”, havia trabalhado para Wallenberg “e se lembrava de um fascinante russo que vinha com frequência à residência de Wallenberg. Mas seu nome não era Kutuzov, o sr. Forgascne me disse. Seu nome era Tolstói. Aparentemente, esse era o nome que Kutuzov usava em Budapeste. Na verdade, na família de Kutuzov havia casamentos com descendentes [do escritor Liev] Tolstói. Nele, o general e o escritor se fundiram; sua grande obra, o Arquivo de Kutuzov, se dissolveu no mesmo silêncio que encobriu os manuscritos confiscados de [Isaac] Bábel” (autor do livro “O Exército de Cavalaria”).

O historiador britânico Antony Beevor sustenta que Raoul

Wallenberg foi morto porque sabia sobre o massacre de Katyn

O sueco Raoul Wallenberg, com 32 anos em 1944, era um homem obstinado. Não era diplomata de carreira, e sim um homem de negócios que, com o apoio do governo da Suécia, se tornou diplomata, sobretudo com o objetivo de salvar judeus da perseguição dos nazistas. Para salvar judeus, negociava diretamente com os nazistas — enfrentando Adolf Eichmann e outros —, com o governo fascista da Hungria e chegava a pagar subornos. De sua ação abnegada, correndo sérios riscos, resultou que quase 100 mil judeus da Hungria escaparam do extermínio.

Livro de historiador britânico Antony Beevor apresenta evidências de que diplomata sueco tinha informações sobre assassinatos de poloneses em Katyn

“Dificilmente haveria melhor exemplo de como um indivíduo corajoso, colocado em posição estratégica, pôde valer-se da posição de um poder neutro para levar a cabo uma operação de resgate em larga escala”, escreve Michael R. Marrus, no livro “A Assustadora História do Holocausto” (Prestígio Editorial, 432 páginas, tradução de Alexandre Martins).

No esplêndido e doloroso “Gulag — Uma História dos Campos de Prisioneiros Soviéticos” (Ediouro, 749 páginas, tradução de Mário Vilela e Ibraíma Dafonte), Anne Applebaum registra a história de Wallenberg: “… os oficiais do NKVD (…) prenderam Raoul Wallenberg, um diplomata sueco que, sozinho, salvara milhares de judeus húngaros da deportação aos campos de concentração nazistas. No curso das negociações, Wallenberg teve de lidar com as autoridades fascistas e os líderes ocidentais. Além disso, ele vinha de uma família sueca proeminente e rica. Para o NKVD, essas eram razões suficientes para considerá-lo suspeito. Ele foi preso em Budapeste em janeiro de 1945, junto com o motorista [Vilmos Langfelder]. Os dois desapareceram nas prisões soviéticas (Wallenberg foi registrado como “prisioneiro de guerra”) e nunca mais se ouviu falar deles. Nos anos 1990, o governo sueco procurou pistas do paradeiro de Wallenberg, mas nada descobriu. Hoje se acredita que ele tenha morrido sob interrogatório ou que tenha sido executado logo após a prisão”.

O historiador Norman Davies, no livro “Europa na Guerra — 1939-1945” (Record, 599 páginas, tradução de Vitor Paolozzi), apresenta versão semelhante à de Applebaum. “Ele [Wallenberg] foi visto pela última vez em janeiro de 1945, durante o cerco de Budapeste, acompanhado por um oficial soviético que, aparentemente, o estava levando sob custódia. (…) Raoul Wallenberg simplesmente desapareceu. Fontes soviéticas alegaram de forma pouco convincente que ele morreu de ataque cardíaco na Lubyanka [uma prisão], em 1947. Mas vários testemunhos posteriores dando conta de que ele tenha sido visto no Gulag sugerem que Wallenberg pode ter sobrevivido. Uma comissão internacional, reunida em 2001 para discutir seu destino, não chegou a nenhuma conclusão”. A tese de que Wallenberg sobreviveu não é aceita pela maioria dos historiadores especializados.

No seu livro mais recente, “A Segunda Guerra Mundial” (Bertrand, 1095 páginas, tradução de Fernanda Oliveira), o historiador Antony Beevor conta uma história bem diferente sobre a prisão, acrescentando uma informação plausível: “Raoul Wallenberg foi preso a 19 de janeiro, juntamente com o patologista forense Ferenc Osrós, que tinha sido um dos observadores internacionais junto dos alemães quando estes desenterraram os cadáveres polacos da floresta de Katyn [os comunistas soviéticas mataram e enterraram milhares de oficiais poloneses]. Presume-se que Wallenberg também tivesse visto o relatório de Katyn e que suspeitassem que ele tivesse contatos próximos com os serviços secretos britânicos, americanos e outros. Foi detido pela Smersh e executado em julho de 1947”.

Um historiador criterioso como o general russo Dmitri Volkogonov, no livro “Stálin — Triunfo e Tragédia, 1939-1953” (Nova Fronteira, 633 páginas, tradução de Joubert de Oliveira Brízida), faz uma única referência ao sueco: “Mesmo buscando com muito interesse nos arquivos, nada achei sobre o destino de Raoul Wallenberg”. Por ser militar de alta patente, Volkogonov teve acesso a vários arquivos.

Livro de Martin Gilbert apresenta uma sucinta biografia de Raoul Wallenberg | Foto: Jornal Opção

No livro “Holocausto — História dos Judeus da Europa na Segunda Guerra Mundial” (Hucitec, 1022 páginas, tradução de Samuel Feldberg e Nancy Rozenchan), o historiador Martin Gilbert faz uma biografia curta do Schindler sueco, o herói sem túmulo: “Raoul Wallenberg era tetraneto de Michael Benedics, um dos primeiros judeus a se estabelecerem na Suécia, no final do século 18, e convertido ao luteranismo. O pai de Wallenberg tinha morrido de câncer três meses antes do nascimento do filho em agosto de 1912. Na juventude, Wallenberg tinha estudado nos Estados Unidos. Em 1936 ele passou seis meses estudando administração na Midland Banck em Haifa: foi lá que ele se encontrou com refugiados de Hitler. Em 1944, quatro instituições norte-americanas, o Congresso Mundial Judaico com base nos Estados Unidos, o Comitê de Distribuição Conjunta Judaico-Americano, o Departamento de Estado e o Conselho de Refugiados de Guerra estabelecido pouco antes pelo presidente [Franklin Delano] Roosevelt, tinham persuadido o Ministério do Exterior sueco a enviar Wallenberg para Budapeste, com instruções de fazer tudo que pudesse para ajudar a salvar os judeus sobreviventes da Hungria”.

Outros diplomatas que salvaram judeus: Carl (ou Charles) Lutz e Friedrich Born, suíços, Giorgio Perlasca, italiano, e Carlos Branquinho, português. Três brasileiros, todos da área da diplomacia, salvaram judeus, correndo riscos: Souza Dantas, na França, Guimarães Rosa e sua mulher, Aracy Moebius de Carvalho, na Alemanha.

Texto publicado no Jornal Opção em 2012

Mais livros sobre o sueco Raul Wallenberg

Livros sobre Raoul Wallenberg que não foram citados no texto acima: “The Hero Of Budapest — The Triumph And Tragedy Of Raoul Wallenberg”, de Bengt Jangfeldt; “Raoul Wallenberg — The Biography”, de Ingrid Carlberg; e “Wallenberg — The Incredible True Story of the Man Who Saved Thousands of Jews of Budapest”, de Kati Marton.

Há vários outros livros a respeito do grande sueco.

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