Euler de França Belém
Euler de França Belém

Sociedade e democracia dos Estados Unidos tendem a moderar Bernie Sanders e Donald Trump

Bernie Sanders e Donald Trump: no poder, o primeiro deixaria de ser socialista, para gerir o império capitalista,  e o segundo seria moderado pela sociedade americana. Os impérios são moderadores “naturais” dos radicais

Bernie Sanders e Donald Trump: no poder, o primeiro deixaria de ser socialista, para gerir o império capitalista, e o segundo seria moderado pela sociedade americana. Os impérios são moderadores “naturais” dos radicais

Leitores dos jornais e revistas brasileiros ficam com a impressão de que Karl Marx saiu da tumba e transformou Bernie Sanders numa espécie de Engels americano. Fala-se o “socialista” Sanders com a “boca cheia”, como se, depois de certa decepção com Barack Obama — que revelou ter sintonia fina com o establishment dos Estados Unidos —, o democrata pudesse ser qualificado de um Obama “mais avançado”. Enganam-se aqueles que apostam que Sanders seria, no poder, Obama radicalizado. Na ditadura, o poder radicaliza ainda mais aqueles que têm espírito totalitário — como Stálin, Mao Tsé-tung e Fidel Castro. Na democracia, felizmente, ocorre o oposto: é o poder que modera aquele que, antes “fora” do poder, exibia-se radicalizado. Os Estados Unidos têm um Congresso ativo e poderoso, uma Suprema Corte independente (até onde isto é possível), uma Imprensa crítica (às vezes, em tempos difíceis, é mais suave em relação ao poder, mas no geral é corrosiva e não homogênea) e, sobretudo, uma sociedade atenta. Uma sociedade conservadora que quase sempre é de centro, aproximando-se mais do conservadorismo.

Na pré-campanha, nada (ou pouco) regula (ou pressiona) o discurso de Sanders, daí a confusão de parte da imprensa brasileira, que não percebe que um socialista americano é, na prática, como um liberal brasileiro — uma figura mais de centro do que de esquerda. Na prática, Sanders é tão anticomunista quanto a besta-fera Donald Trump, do Partido Republi­cano. Só tem um discurso mais moderado, próximo da socialdemocracia europeia. O Estado do Bem-Estar que pretende (se pretende) criar nos Estados Unidos, similar ao europeu — e grandemente responsável pelo parasitismo social no continente e por parte da crise na região —, pode até conquistar eleitores pobres, notadamente filhos de imigrantes, mas dificilmente agradará as elites e, também, as classes médias. Por isso, se definido como candidato democrata — até os ossos de Franklin D. Roosevelt e de Harry Hopkins apostam que Hillary Clinton, mais confiável para o establishment, será a indicada —, Sanders tenderá a reconfigurar o discurso. Quer dizer: está fazendo um discurso para a pré-campanha e, em seguida, fará outro discurso, mais moderado, para a campanha. Aos poucos, vai sondando os humores do eleitorado. No meio da campanha, sob pressão da sociedade — a luta de todos é para preservar o Império, o modo de vida americano, que não pode ser mantido com gracinhas socialistas —, Sanders, isto se conseguir ser efetivado como candidato, será outro homem e outro político.

Donald Trump não é nenhuma idiota. Se fosse, não seria bilionário. Não se trata de um ideólogo, mas, por certo, trabalha com pesquisas e está falando para um público receptivo ou está tentando (não criar, e sim) ampliar um público existente mas “anestesiado”. É provável que queira “despertar” aquilo que entende por “o americano” tradicional, que tem uma história de ser relativamente receptivo aos que chegam de outros países. Porque o próprio americano é de origem europeia, sobretudo inglesa, mas também irlandesa, escocesa, alemã, italiana. E há os americanos de origem asiática e africana. Os Estados Unidos é cada vez mais um país mestiço e isto é incontornável.

Do ponto de vista do marketing, Trump é um caso de sucesso. Tornou-se o centro das discussões da sociedade americana. Pode não ser candidato pelo Partido Republicado e, se candidato, pode não ser eleito. Mas “mobiliza” a sociedade, mexe com seus humores, e escapa da modorra dos discursos republicanos e democratas tradicionais. É virulento contra os imigrantes e se apresenta como liberal em tempo integral. Ao contrário de Sanders, o Trump da pré-campanha será o mesmo da campanha? É possível que sim, ma non tropo.

O mais provável é que, em confronto com um candidato democrata mais leve em questões sociais e comportamentais — Sanders ou Hillary Clinton, muito mais aberta do que o próprio Obama em determinadas questões —, Trump modere-se um pouco, mais para não perder eleitores do que para conquistar eleitores típicos dos democratas. A campanha tende a moderá-lo? Como é imprevisível, não se sabe. Mas suas posições certamente serão redefinidas por pesquisas, que podem levá-lo a uma certa moderação ou, quem sabe, a uma certa radicalização.

Digamos que Trump seja eleito — ou então Sanders. O que muda nos Estados Unidos? Muito pouco. Os dois sabem que, se eleitos, governarão um Império, com interesses vastos e racionais em todo o mundo. A retórica pode radicalizar-se, em determinados momentos, mas os interesses do país tenderão a suavizar posições pessoais. De resto, pode-se dizer que, no poder, Sanders não será socialista. No máximo, se aproximará da socialdemocracia — que é o que Obama tentou fazer com a reforma da saúde. Trump, se eleito, se tornará mais moderado, sem deixar de ser liberal. A sociedade e o poder tendem a moderá-lo. Não há como se livrar de mexicanos, latino-americanos, chineses, indianos, entre outros, em quatro ou oito anos de governo. Não há como se livrar nunca. Eles são parte da sociedade americana. São a sociedade americana, quer queiram ou não os republicamos mais direitistas.

O poder, na sociedade democrática, cria políticos mais equilibrados do que eles mesmos querem ser. Sanders e Trump, se eleitos, seriam “puxados” para o centro político.

Quem se interessa pela sociedade americana e seus políticos — quase todos tão dissimulados quanto Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Franklin D. Roosevelt e Obama — deve ler o magnífico livro “Fascismo de Esquerda — A História Secreta do Esquerdismo Americano” (Record, 546 páginas, tradução de Maria Lúcia de Oliveira), de Jonah Goldberg. De cara, o autor anota que o fascismo, embora tratado como de direita, é um fenômeno político de esquerda. Os desavisados podem ficar chocados quando perceberem que, embora não seja fascista, em comparação com Benito Mussolini e Francisco Franco, até liberais como Hillary Clinton defendem ideias caras ao nacional-socialismo.

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