Euler de França Belém
Euler de França Belém

Shere Hite ajudou a “libertar” a sexualidade feminina da sexualidade masculina

Na década de 1980, parte da esquerda lia Stálin, Mao Tsé-tung e Gramsci. Mas milhares leram o Relatório Hite, sobre a sexualidade feminina

Quando entrei para curso de História da Universidade Católica de Goiás (UCG), em 1980, aos 19 anos, a militância de esquerda era ativíssima (aos 20 anos, em 1981, comecei a estudar Filosofia na Universidade Federal de Goiás; depois, em 1983, aos 22 anos, passei a estudar Jornalismo, na mesma UFG). PC do B, PT e PCB davam as cartas. Integrantes do Partido Comunista do Brasil vendiam o jornal “Tribuna da Luta Operária” e tachavam os membros do PT de “socialdemocratas” e os do Partido Comunista Brasileiro, o Partidão, de “reformistas”. Os apodos eram quase crimes sem remissão. No curso de Arquitetura, trotskistas davam o tom. Eram adversários figadais dos stalinistas do PC do B. Lia-se muito, quase sempre obras para firmar e conquistar mais engajamentos.

O PC do B orientava que se lesse dois “guias geniais do povo” — o soviético Stálin (“Materialismo Histórico e Dialético”) e o albanês Enver Hohxa (salvo engano, seu livro tinha capa vermelha, e era de uma chatice impagável). Certa feita, sentado na calçada do edifício onde funcionava o curso de História, fui intimado por uma militante para uma conversa. Disse-me a jovem: “Leia o livro do Enver Hohxa e um mundo novo se abrirá pra você”. Pedi detalhes. A garota sintetizou: “Você se tornará um revolucionário — terá uma causa”. Surpreendeu-me seus olhos convictos — tão belos quanto sua proprietária. Como eu não tinha convicção revolucionária alguma — já estava lendo George Orwell, Arthur Koestler, Aleksandr Soljenítsin, Robert Conquest, José Guilherme Merquior (não perdia nenhum de seus artigos) e Paulo Francis (era uma delícia ler seus petardos críticos, tinham uma graça única, mesmo quando excedia)  —, a conversa não me levou a ser um ardoroso leitor do político albanês, um stalinista ferrenho.

Li vários exemplares da “Tribuna da Luta Operária”, acatando recomendação de um amigo, Marcão da Banca — o menos stalinista dos stalinistas. Li Mao Tsé-tung, que era visto como “menor” do que Enver Hoxha — como “filósofos”, eram e continuam menores. A rigor, nem filósofos são. Na verdade, são vulgarizadores de ideias alheias, com algum vezo local, quer dizer, derivado da realidade de seus países. O homem que nasceu Mao é e será lembrado tanto por ter implantado o comunismo em seu país, a grande China, quanto por ter mandado matar cerca de 70 milhões de chineses. Não por suas escassas ideias — que Deng Xiaoping (1904-1997) teve de descartar para modernizar o país, criando um eficiente híbrido de capitalismo de Estado e comunismo político.

Uma vez, na área da lanchonete do Básico da Católica, perto de uma mesa de sinuca, um colega me disse: “Lênin é excelente, pois mostrou o caminho da Revolução, ao adaptar as ideias de Marx para o contexto da Rússia. Mas ‘fodão’ mesmo é Stálin, que organizou o comunismo na União Soviética”. Lia mais Stálin do que Lênin. Meu olhar devia ser cético, pois o militante, que era instruído, acrescentou: “Você parece não acreditar. Mas a roda da história, se você não aceitar as evidências, vai atropelá-lo”. Felizmente, para minha saúde, a roda da história não me pegou, mas atropelou os comunistas. Quando o muro de Berlim ruiu, em 1989, vi comunistas jovens e velhos chorando. As pessoas pareciam realmente acreditar que o paraíso já existia na Terra— vicejava na União Soviética e nos países do Leste Europeu. Mas não era o que pensavam os povos de tais nações — que queriam se livrar do comunismo.

Mais moderados, militantes do PCB recomendavam leituras mais variadas, como Leandro Konder e Carlos Nelson Coutinho (autor de um livrinho muito bom em que postula que a democracia deve ser vista como “valor universal”, e não como etapa para qualquer outro sistema). Certa feita, ao visitar o decentíssimo José Sobrinho Fernandes de Carvalho, um dos pioneiros do PCB em Goiás, percebi que sua irmã, Otília, lia um livro (de capa branca) do comunista francês Georges Marchais (1920-1997). Peguei emprestado, li e não achei grande coisa. Mas acabei lendo muito coisa sobre o eurocomunismo. Stálin era mal visto pelos adeptos do Partidão, na universidade representados pela tendência Unidade, à qual pertenciam Elias Rassi, José Salame Neto, Marina Freitas, Romilton Moraes…

Os trotskistas não estavam somente na Arquitetura da Católica, mas lá se destacavam mais. Notei, de cara, que eram leitores mais atentos e que liam de maneira diversificada, inclusive literatura, como o contista e dramaturgo russo Tchekhov. Mas a bíblia deles, claro, era o ucraniano Liev Trotski — o bolchevique assassinado a mando de Stálin, no México, em 1940. Falavam em “revolução permanente”, uma ideia cara ao soviético. A revolução comunista, para sobreviver, deveria “explodir” também noutras nações — notadamente na Alemanha e, quiçá, na Inglaterra (pátria da Revolução Industrial). Acabou se tornando hegemônica a ideia de Stálin de que levar a luta para outros países poderia jogar tais nações contra a União Soviética. Mais tarde, Stálin exportou a revolução para fora da URSS. Sua posição nem era anti-Trotski. Era, isto sim, uma maneira de salvaguardar a União Soviética.

A “libertadora” Shere Hite

Se na universidade, às vezes um mundo à parte, as pessoas conversavam sobre Marx, Lênin, Stálin, Trotski, Mao Tsé-tung, Enver Hohxa, Antonio Gramsci, Louis Althusser (o italiano e o francês eram fortes na área de educação; eu mesmo andei “repetindo” a tal história dos “aparelhos ideológicos de Estado”), Agnes Heller (filósofa húngara que eu apreciava), Marcuse, Marta Harnecker, Luiz Carlos Prestes, Giocondo Dias, João Amazonas, Leandro Konder e Carlos Nelson Coutinho (autor de um livro muito bom sobre literatura, derivado das ideias do húngaro György Lukacs), na sociedade outros temas chamavam a atenção. Parte da classe média empolgou-se, por exemplo, com o guru indiano Rajneesh (1931-1990), que gestou o movimento Rajneesh. As pessoas, que usavam roupas de cor laranja, cultivavam suas ideias e tentavam convencer outras a seguirem o mesmo caminho. Participei de uns dois encontros, mas sem nenhuma empolgação, numa pracinha do Setor Sul, nos fundos do Restaurante Macrobiótico, na Rua 93, que era administrado por dona Olga e seus filhos Selma e Julinho (que mora na Holanda). Um dos próceres do movimento Rajneesh em Goiás era o arquiteto Vilmar Cardoso, um amigo, que, mais tarde, reencontrei na casa da jornalista Consuelo Nasser.

Wilhelm Reich: muito lido em Goiânia na década de 1980 | Foto: Reprodução

Outro grupo, que também frequentava o local, me convidou para uma reunião de “imersão sexual”. Mesmo sem saber do que realmente se tratava, fui, sempre curioso. Todo mundo ficava pelado e falava abertamente sobre sexo. Notei que ninguém olhava para os órgãos genitais dos outros e era forte a concentração na fala do outro. Um amigo me avisara: “Vai participar de uma suruba, de uma orgia”. Nada disso. Falava-se muito sobre sexo, sobre liberação sexual, mas sexo mesmo, a prática, não havia. Saí de uma reunião levando dois livros de Wilhelm Reich — “Psicopatologia e Sociologia da Vida Sexual” e “Escuta, Zé-Ninguém!”. Tais obras me empolgaram e desempolgaram rapidamente. Uma jovem emprestou-me também livros do psiquiatra e terapeuta Roberto Freire (1927-2008), que, admito, li com prazer (na década de 1960, com 8 anos de idade, eu era leitor de Adelaide Carraro. Lia as obras com imenso prazer, ainda que sem entender grande coisa. Eu pegava os livros do meu pai, e lia-os escondido; quando pego, apanhava de cinto).

Certa vez, sentado numa pracinha do Setor Sul — eu morava na Rua 91-A, uma viela —, conversando com uma turma de jovens, homens e mulheres, uma garota me passou “O Relatório Hite”, da americana Shere Hite (Shirley Diana Gregory). “Leve, leia e me diga o que achou. Se gostar, passe para frente.” Olhei a capa branca do livro, com título em letras grandes, e pensei: “Por que será que minha amiga está me dando este livro?” Peguei-o, com relativa empolgação (na época, aconselhado pelo padre Luis Palacín, meu professor de história na Católica, estava lendo a obra de Liev Tolstói, notadamente “Guerra e Paz”). Comecei a ler e fiquei a noite inteira lendo, às custas de Reativan. Empolgadíssimo. O livro era uma, digamos, revelação. Como todo homem, eu pensava saber muito sobre as mulheres, mas o livro de “Shér” (a pronúncia) me dizia que sabia pouco, quase nada.

Shere Hite: seus livros provocaram impacto mundial | Foto: Reprodução

Li, deslumbrado, duas vezes. Passado algum tempo, li mais uma vez (mais tarde, li “Conversando Sobre Sexo”, da sexóloga Marta Suplicy). No colégio em que dava aulas, a diretora me viu com o livro e advertiu: “Cuidado com literatura indecente”. A sra. acha que o Relatório Hite é “indecente”? “Sim, acho. Gente séria não deveria lê-lo.” Calei-me, ao perceber que minha chefe na escola não me considerava “sério”. Guardei o livro na minha pasta.

“O Relatório Hite” mostra, com dados fartos, que os homens entendiam (certamente entendem) pouco a sexualidade feminina. Talvez pensem que é derivada da deles. Fica-se com a impressão que, por vezes, os homens pensam na mulher como tendo uma sexualidade “passiva”, e a deles seria “ativa”. O que é um equívoco, aliás contestado muito antes do livro de Shere Hite. As duas sexualidades são ativas, obviamente. A violência contra as mulheres talvez derive, em parte, de sua sexualidade livre, ativa. Os homens querem ser livres, mas as mulheres, na visão de muitos deles, não podem. Torná-las “mal faladas” é uma tentativa de brecar sua liberdade existencial e sexual. Os homens, se têm várias parceiras, são chamados de garanhões e são admirados e elogiados pelos pares. Parece coisa velha, mas não é.

Shere Hite não tem a importância de Sigmund Freud, é claro. Mas trouxe um esclarecimento sobre sexo crucial para o ser humano contemporâneo. Assim como Alfred Kinsey (1894-1956), William Masters e Virginia Johnson, a americana contribuiu para uma, digamos, libertação. Ajudou a retirar as algemas da sexualidade feminina e, também, da masculina. Porque, ao descobrir a mulher, que se torna uma nova mulher, o homem também redescobre sua sexualidade, tornando-se um novo homem. O homem que não quiser entender os prazeres femininos, lutando para limitá-los, ficará para trás.

Shere Hite morreu na quarta-feira, 9, em Londres, aos 77 anos. Padecia de duas doenças associadas mais à velhice — Alzheimer (doença que acomete minha mãe) e Parkinson.

A repórter Katharine Q. Seelye, do “New York Times” publicou um obituário, “Morre Shere Hite, que vasculhou os segredos do orgasmo feminino”, traduzido e publicado por jornais patropis.

“Seu trabalho mais famoso, ‘O Relatório Hite — Um Profundo Estudo Sobre a Sexualidade Feminina’ (1976), desafiou as teorias da sociedade e de Freud sobre como as mulheres atingiam o orgasmo: não era necessariamente por meio da relação sexual, escreveu Hite; as mulheres, segundo ela descobriu, eram perfeitamente capazes de encontrar prazer sexual por conta própria”, regista Katharine Seelye.

Hoje, as ideias de Shere Hite são vistas como “comuns” (e talvez não sejam, dado o grau de conservadorismo que ainda prevalece nas relações entre homens e mulheres. Há homens que ainda querem se casar com mulheres virgens ou pudicas, talvez motivados por sua própria insegurança sexual). Entretanto, na década de 1970, provocaram um terremoto. Levaram, nota Katharine Seelye, a “uma revolução no quarto”. “Para todas as mulheres que fingiam ter orgasmo durante a relação sexual, o Relatório Hite ajudou a despertar seu poder sexual e foi considerado um fator da liberação feminina, que já acontecia rapidamente”, afirma a redatora do “Times”.

Shere Hite foi atacadíssima pelo conservantismo americano | Foto: Reprodução

Quanto mais Shere Hite era atacada, quiçá por uma azeitada “máquina” masculina, mais o livro se tornava best-seller. O livro vendeu quase 50 milhões de exemplares em dezenas de países. “O que diferencia o Relatório Hite de outros estudos são os questionários que formam seu núcleo. Mais de 3 mil mulheres responderam às perguntas de forma anônima, o que lhes permitiu escrever com franqueza e abertura sobre suas experiências — e não respondendo a perguntas de múltipla escolha.”

“Os pesquisadores deveriam parar de dizer às mulheres o que elas devem sentir sexualmente e começar a perguntar o que elas sentem sexualmente”, disse Shere Hite. “Em depoimentos reveladores em primeira pessoa, mais de 70% das entrevistadas demoliram a ideia de que as mulheres recebiam estímulo suficiente durante a relação sexual básica para o clímax. Em vez disso, elas disseram que precisavam de estimulação do clitóris, mas muitas se sentiam culpadas e inadequadas quanto a isso e ficavam com vergonha de dizer a seus parceiros sexuais”, escreve Katharine Seelye.

Em 1981, Shere Hite lançou “O Relatório Hite Sobre Homens e Sexualidade Masculina”, com sucesso, mas sem o impacto do livro anterior. A imprensa brasileira deu um destaque imenso aos dois lançamentos. Questionários de 7 mil homens levaram a autora a concluir “que raiva reprimida e infidelidade eram características comuns nos casamentos americanos”. Depois, em 1987, publicou “Mulheres e Amor — Uma Revolução Cultural em Progresso”, no qual concluiu, sintetiza o “Times”, “que as mulheres consideravam seus relacionamentos com os homens ‘frustração emocional crescente e desilusão gradual’”. O livro levou a autora a sofrer ameaças de morte. E críticos disseram que as amostras não eram representativas. As feministas Gloria Steinem e Barbara Erhrenreich, entre outras, tiveram de defendê-la. Fica-se com a pressão de que as pessoas apreciam mais a libertação do que os libertadores. No caso de uma libertadora, a crise ainda é mais extensa.

Shere Hite era mestre em História pela Universidade da Flórida e estudou também na prestigiosa Universidade Columbia. Para pagar os estudos, trabalhava como modelo. Uma vez posou para uma publicidade das máquinas Olivetti. Ficou horrorizada quando viu sua foto e a publicidade: “A máquina de escrever é tão inteligente que ela não precisa ser”. Juntou-se a um grupo de mulheres e protestou em praça pública contra o anúncio.

Sob pressão do conservantismo e do puritanismo americano, Shere Hite desistiu do doutorado (não quiseram permitir, em Columbia!, que escrevesse sua tese sobre a sexualidade feminina), mudou-se para a Europa, renunciou à cidadania americana e se tornou cidadã alemã.

Casou-se com o pianista Friedrich Horicke, em Colônia. Mais tarde, casou-se com Paul Sullivan.

Há quem queira sugerir que as interpretações de Shere Hite não são profundas. Podem até não ser. Mas contribuiu para liberar — ainda que a liberação talvez nunca seja total — a sexualidade feminina, o que colaborou para liberar a masculina (que talvez já fosse liberada). A pesquisadora colocou na ordem do dia a verdade da mulher. Por isso chocou tanto, e talvez ainda choque…

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