Euler de França Belém
Euler de França Belém

Se Julian Assange é culpado, os jornais que lhe deram crédito são inocentes?

WikiLeaks expôs a nudez dos reis, mostrando que, em nome da lei, cometem ilegalidades e não respeitam privacidade

Nas redes sociais, e mesmo nas conversas pessoais, costuma-se debater o poder das “grandes mídias” — jornais e redes de televisão, em geral. A teoria da conspiração é frágil, sem evidências, porque jornais, revistas e redes de televisão são cada vez mais precisos e abertos às divergências. Mas direita e esquerda, cada uma ao seu modo, demonizam a “mídia”. Ao se preocupar com um poder fictício, além de falso — porque as distorções são episódicas —, redófilos dão pouca atenção aos tentáculos de sucuri do Google e do Facebook. O livro “O Mundo Que Não Pensa — A Humanidade Diante do Perigo Real da Extinção do Homo Sapiens” (Leya, 236 páginas, tradução de Debora Fleck), de Franklin Foer, relata: “Marius Milner, engenheiro do Google, abusou do acesso que tinha aos veículos da empresa que mapeavam as ruas. Esses carros cruzavam as ruas dos Estados Unidos tirando fotos, que depois o Google agrupava para formar um todo coerente. Milner programou os carros para captarem o sinal de wi-fi das casas por onde passavam, levantando dados pessoais, inclusive de trocas de e-mails. Em vez de cooperar com uma investigação do governo, o Google ‘deliberadamente obstruiu e protelou o processo’, recebendo então uma multa da Comissão Federal de Comunicações. Mesmo assim, a empresa não demitiu Milner. O caso não ajuda em nada a construir a confiança de que o Google tem compromisso com a transparência ou com salvaguardas contra possíveis abusos”.

Julian Assange, do WikiLeaks: se é culpado, jornais, revistas e redes de televisão são inocentes? Foto: Reprodução

O Facebook eventualmente admite que os dados dos usuários vazaram e foram divulgados por grupos de experts. É uma questão que a segurança da rede não vai conseguir resolver. Até porque a rede em si é um problema. Com tecnologia avançada, à qual os governos não têm controle — e, a rigor, nem sabem como funciona —, o Facebook seleciona e processa informações de seus usuários, com detalhes impressionantes, e depois ganha comercialmente com elas. Portanto, enquanto perdem tempo criticando a “grande mídia”, que não monitora seus usuários com a sofisticação comercial do Google e do Facebook, os usuários das redes deveriam olhar para si e para seu entorno. Porque tornou-se, sem pedir e sem autorizar, um “escravo comercial” daqueles que, a rigor, fornecem um serviço gratuito.

Na primeira metade da década de 1970, dois jornalistas novatos vasculharam informações sobre um arrombamento no edifício Watergate, onde localizava-se o escritório do Partido Democrata. Aos poucos, reunindo informações de várias fontes e sob a orientação segura de Mark Felt, o Garganta Profunda, vice-diretor do FBI, Bob Woodward e Carl Bernstein destruíram a reputação do presidente Richard Nixon, que acabou tendo de renunciar, em 1974. Mark Felt agiu certo, como homem público, ao contribuir para a queda do presidente? Sabendo-se que apoiou Bob Woodward porque, com a morte de Edgar Hoover, não havia sido nomeado para diretor do FBI, ou seja, por vingança e interesse pessoal, pode-se avaliar a ação do Garganta Profunda como justa? Talvez não inteiramente. Mas o que era pior: as ações de Richard Nixon e seu séquito ou a ação de Mark Felt? A deste, certamente, merece mais respeito e, mesmo, aprovação. Se o “melhor” não existe, fica-se com o “menos pior”.

Reis não gostam de expor sua nudez

O “Estadão” publicou na sexta-feira, 12, o artigo “Se Assange foi hacker, deixou de ser jornalista”, de Timothy L. O’Brien, com tradução de Claudia Bozzo.

O’Brien afirma que Julian Assange, preso no Equador e levado para a a Inglaterra, deve ser julgado a respeito da possibilidade de, ao divulgar documentos secretos dos Estados Unidos e do Reino Unido, ter cometido um crime. Isto deve demorar, então O’Brien propõe que se discuta se Assange é jornalista ou é apenas um criminoso que pôs a vida de muitos em risco.  O articulista frisa que os Estados Unidos sustentam que Assange ajudou o ex-analista do Exército  Chelsea Manning “a piratear ilegalmente ‘uma senha armazenada nos computadores do Departamento de Defesa” americano. Os documentos foram publicados pelo WikiLeaks “a partir de 2010”.

Julian Assange não é santo? Mas quem é? Sua nova imagem parece ter chocado a imprensa | Foto: Reprodução

“A invasão de Manning trouxe vídeo de militares americanos em um helicóptero atingindo fatalmente a tiros 18 pessoas no solo, no Iraque, além de cerca de 250 mil telegramas indiscretos e sensíveis enviados para o Departamento de Estado, registros militares confidenciais enviados do Iraque e Afeganistão e documentos secretos relativos ao famigerado campo de detenção de Guantánamo. Todo este material enriqueceu a compreensão do público sobre os dois complexos e guerras trágicas. E abriu uma janela para a batalha do governo federal contra o terrorismo após o 11 de Setembro”, sintetiza O’Brien.

Se “Assange e o WikiLeaks apenas receberam e distribuíram as informações que Manning roubou dos computadores do governo, acho que está tudo bem. Na medida em que Assange e o WikiLeaks treinaram ou ajudaram Manning no roubo, acredito que seja ruim. Eles participaram de um crime e deixaram de ser jornalistas. Jornalistas deixam de ser jornalistas quando ajudam alguém a armar um ato criminoso”, pontua O’Brien. O autor do artigo nada tem de ingênuo, lógico. Mas as relações de repórteres e fontes jamais são atividades santas. Pelo contrário, são conturbadas e à beira do ilegal ou ao menos do ilegítimo. Mas observando os fatos a partir de uma gradação, o que é pior: os atos das potências, que espionam sem o mínimo pudor e matam pelo mundo, em nome da paz, ou a divulgação de informações sobre isto? Em nome da segurança nacional e internacional, os cidadãos devem se submeter a uma espionagem intergaláctica? Em nome da luta contra o terrorismo, que seria uma busca do equilíbrio transnacional, pode-se sair matando inocentes (que se tornam culpados por estarem perto dos possíveis culpados?) em vários lugares do mundo e esconder informações a respeito? O’Brien, não se sabe por quê, não discute isto.

George Orwell possivelmente apoiaria a ação de Assange contra os controles dos governos | Foto: Reprodução

O’Brien percebe a ação de Assange — estranhíssimo, como indivíduo, o que foi ressaltado, mais uma vez, na sua prisão — como criminosa. Eis a síntese de seu artigo. Mas não tem uma palavra sobre os jornais — os principais meios de comunicação de todo o mundo esbaldaram-se com os documentos e vídeos divulgados ao longo dos últimos anos. Ora, se publicaram as informações, endossaram Assange e o WikiLeaks. Portanto, se Assange é “culpado”, os jornais são inocentes? Não há inocentes nesta história. Sendo assim, se Assange atuou como hacker, deixando de ser jornalista, ao publicarem seus documentos, os jornais deixarem de fazer jornalismo?

O romance “1984” é instrutivo para os dias atuais | Foto: Jornal Opção

É provável que George Orwell se entusiasmasse com o banquete de informações divulgadas por Assange e o WikiLeaks. Porque, na prática, os dois fizeram aquilo que os jornais às vezes deixam de fazer (optando por divulgar informações oficiais, porque é mais cômodo e menos problemático): cavaram fundo no poço sujo dos governos e, sem hesitação, divulgaram o que lá encontraram. Os reis estavam — e continuam — nus. Há uma certa irritação a respeito de Assange porque, antes dos jornalistas tradicionais, divulgou o que os agentes dos governos, com autorização das leis, fazem por uma suposta “segurança” dos cidadãos do mundo.

Os “reis” precisam condenar Assange, massacrando-o publicamente — inclusive expondo-o como doidivana —, para tentar conter o surgimento de outros “jornalistas” de sua espécie. Os “reis” não querem mais ficar nus à frente do respeitável público. Mas, enquanto discutimos sobre Assange, o Facebook e o Google vasculham nossas vidas, com inteira liberdade, e nos transformam em mercadorias no grande mercado transnacional. O que Assange faz talvez seja “frango de granja” perto do que os governos e as redes fazem com os cidadãos. E, afinal, culpado é quem denuncia ou quem comete erros graves?

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