Réquiem para o escritor e meu amigo Ursulino Leão

Vou publicar suas memórias. Ele escolheu a capa, a fotografia da capa, a contracapa e até o papel do livro

Iúri Rincon Godinho

Ontem (sexta-feira, 19) pela manhã recebi um telefonema terrível. Paulo Leão, filho do meu confrade da Academia Goiana de Letras, meu amigo, meu confidente, conselheiro Ursulino Tavares Leão, de 95 anos, vivia suas últimas horas. Uma semana atrás havia sido internado com problema nada grave nos pulmões. Na quarta-feira teve duas paradas cardíacas em casa e foi para UTI, entubado, de onde não mais saiu. Chorei, chorei, chorei.

Nos últimos cinco anos fui o editor de Ursulino. Publiquei suas obras derradeiras. Bebi uísque com ele e bebi dele sua inteligência luminosa de respostas rápidas e deliciosas. Conversar com Ursulino foi musculação para o meu cérebro. Ele ligava, eu ia: “Chegue às 4 da tarde porque durmo depois do almoço”.

Ursulino Leão e Iúri Rincon Godinho: escritores

Sempre disse a Ursulino que não conseguia acompanhá-lo na bebida. Ele começava com duas taças de vinhos, passava pro uísque. Ria franco, aberto, os olhinhos acesos. Jamais se embriagava. Eu me divertia com a sua birra em não beber em copo de plástico, coisa com a qual nunca me importei.

Sabia tudo de Goiás. Viúvo, continuava apaixonado por sua Lena. Católico, dele publiquei um livro com sua visão de Jesus Cristo. Foi vice-governador e aos 95 anos falava de tudo como um adolescente. “Vou votar neste bosta do Meireles, mais porque é goiano. Depois é que vai valer e vou dar chicotada com Bolsonaro”, brincava.

O escritor não votará no Bolsonaro. Ursulino, como meu amigo e confidente, esperou que eu lançasse meu livro na noite de sexta-feira, 19, para não me atrapalhar. Como me disse seu filho Paulo, deveria ter ido ontem, mas me esperou acabar de lançar o livro e se foi agora há pouco.

Há um mês ele me chamou em seu apartamento no Setor Oeste. Tinha finalmente colocado um ponto final em suas memórias, que eu insistia para que publicasse até ele me chamar de chato. Ficava me enrolando. Ria quando eu cobrava o livro.

Naquele dia em seu apartamento disse que estava deprimido, que sabia quando ia morrer, que o momento se avizinhava. Falei para parar de bobagem, nunca o havia visto daquele jeito. Tanto repeti que ele, para se ver livre de mim e com um olhar triste — que nunca foi o seu —, pediu que eu não me importasse, que aquilo era coisa de velho. Queria, mais uma vez, se ver livre de mim.

Quando seu filho Paulo me ligou ontem chorando, pediu para que eu publicasse o último livro de seu pai. Como se isso fosse necessário. O que Paulo não sabia era que naquela última conversa o Ursulino me disse tudo: como queria a capa, a contracapa, o papel do livro: “Vai ser meu último livro, capriche”. Queria que eu publicasse a foto de uma árvore velha, encarquilhada, que ficava em sua fazenda. “Ela é como eu.” Eu ria: “larga de ser besta”.

Estou morrendo de saudades do Ursulino. Uma saudade de filho, uma saudade desgraçada. Um misto de agradecido por ter tido a honra de conviver e trabalharmos juntos. Uma raiva porque nunca mais vamos beber uísque e porque eu queria ter nascido uns 50 anos antes para ter aproveitado mais do meu amigo, meu confidente.

Iúri Rincon Godinho é jornalista e escritor.

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