Réquiem para Antônio Almeida, o maior editor de livros da história de Goiás

Foi uma das melhores pessoas que conheci. Jamais o vi levantar a voz. Várias vezes abria o cofre e tirava dinheiro para dar a quem o procurava na Kelps

Iúri Rincon Godinho

Especial para o Jornal Opção

Morreu na sexta-feira, 21, às 14 horas, de Covid associado a um câncer de coluna, o maior editor de livros da história de Goiás em todos os tempos. Antônio Almeida, da Editora Kelps, vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg) e presidente do Sindicato das Indústrias Gráficas. Ele tinha 69 anos.

Na empresa, Antônio era o político da família, o cara que fazia os negócios, que juntava os pontinhos entre governo, empresariado e escritores para a publicação de livros. Apenas com instrução básica, ele fez mais pela literatura goiana que todas as instituições da área somadas ao longo do tempo.

Antônio Almeida: publicou mais livros que a maioria dos editores de Goiás, talvez mais do que todos juntos | Foto: Reprodução

Com seus irmãos Valdecy (que agora vai tocar sozinho a Kelps), José e Ademar, vieram de Palmeiras de Goiás nos anos 80 e compraram uma pequena e arrebentada impressora para montar uma gráfica na Fama, que inicialmente se chamava Pirâmide. Como tinham um preço barato em comparação à concorrência, o procurei por volta de 1987 para que ele imprimisse os primeiros jornaizinhos que começava a editar.

Dois anos depois o levei para a literatura. Em 1990, o presidente da União Brasileira de Escritores-Seção Goiás (UBE-GO), escritor Geraldo Coelho Vaz, teve a ideia de dar um nó na eterna falta de dinheiro dos autores e criou um consórcio para publicar 10 livros, com cada escritor pagando uma parcela por mês. As Edições Consorciadas foram um sucesso por anos e aproximaram Antônio e a Kelps da classe artística. Foi um empurrão inicial mas ele já imprimia livros desde 1983, quando publicou “Travessia de Gente Grande”, estreia na poesia do dermatologista Ademir Hamú.

Depois ele criou asas. Eu editava, Geraldo Coelho Vaz pagava e Antônio imprimia o “Voz do Escritor”, depois o “Mutirão Cultural”, jornais que marcaram a história na literatura goiana. Levou o nome do Estado dezenas de vezes para a Bienal do Livro de São Paulo, todo mundo viajando, autografando, se divertindo, dormindo e comendo de graça com dinheiro do Estado viabilizado pelo Antônio. Ele ajudou a tornar realidade os mutirões de lançamentos da Prefeitura de Goiânia e se tornou uma das principais vozes dos industriais à frente da Fieg.

Antônio tinha uma paciência irritante com os escritores, muitos deles um bando de folgados (mas escritor é assim mesmo: uma “espécie” diferente). Já assisti desesperado um estreante ler caguejante 10 páginas na sua frente. Senti sua aflição com a perda de tempo — sempre foi muito ocupado —, passando a mão de quatro dedos (perdeu um num acidente) na sobrancelha, mas sem se alterar. Ele respeitava a literatura. Fazia parcelado, ficava sem receber, mas não se conhece um autor com quem ele tenha brigado por falta de pagamento. Os autores entravam pela gráfica adentro e enchiam as mãos de livros, como se ali fosse um supermercado literário gratuito. Não pediam, só levavam os exemplares. Antônio não se importava. Há inclusive escritores que aprenderam a economizar na noite de autógrafos, passando na tarde dos lançamentos na Kelps e levando o livro que seria lançado à noite. A maior injustiça que sofreu na vida foi a sua não eleição quando tentou uma cadeira na Academia Goiana de Letras, em 2016. E continuou amigo e ajudando todos que lhe negaram o voto, sem reclamar.

Antônio Almeida, da Editora Kelps: ele gostava realmente das pessoas| Foto: reprodução

Antônio criou uma OS na educação, criou uma distribuidora de livros, coitado, dirigida pelo filho Leandro. Era amigo de políticos, conterrâneo de Marconi Perillo. Estes também mais o deviam do que pagavam.

Qualquer ideia maluca que eu tivesse na literatura podia levar pra ele. Assim foi com os concursos de poesia falada que fizemos nos anos 90, a Kelps pagando tudo e eu organizando. Uma vez o PX Silveira encontrou na Itália uma via sacra do frei Nazareno Confaloni. Eu e ele convencemos o Antônio não só a comprar os quadros caríssimos, mas também a doá-los para uma igreja no Jardim América, que era tocada pelo padre César Garcia.

Todos os meus mais de 20 livros fiz na Kelps. Quando a qualidade não ficava boa, eu brigava com ele. Uma vez desliguei o telefone na sua cara. Ele me ligou de volta: “Não se desliga o telefone na cara de homem” (com sua cara ligeiramente crispada, que às parecia uma carranca, era, no fundo, um homem doce). Continuamos amigos, parceiros. Dessas amizades eternas.

Foi uma das melhores pessoas que conheci. Jamais o vi levantar a voz contra alguém. Nem uma palavra ríspida. Pelo contrário, várias vezes ele abria o cofre que fica atrás de sua mesa e tirava dinheiro para dar a quem o procurava na Kelps. Trocado para um lanche, para um táxi, ou uma simples ajuda a alguém ali na porta. Não era um humanista teórico. Era um humanista prático. Fazia e não cobrava agradecimento.

De uma semana pra cá Antônio parou de responder minhas mensagens no WhatsApp e não retornou as chamadas. Na nossa última conversa ele estava bem. Tinha descoberto um câncer na coluna, igual ao que seu irmão Ademar teve e conseguiu curar. Estava tranquilo, pegara também Covid mas pareceu bem. Ele tinha aquele jeito de não ligar pra muita coisa. Era, diria Euclides da Cunha, um forte.

Na quinta-feira pela manhã, seu irmão Valdecy me diz ele tinha morrido. Depois ressalvou que havia sido uma precipitação. Estava vivo mas em estado gravíssimo, nada mais a medicina podia fazer. Disse ao Valdecy que aquilo foi uma maneira de a gente se acostumar com a partida do Antônio. Ele morreu e desmorreu pra gente não ficar triste.

Até na morte Antônio ficou cuidando da gente. Ele era assim: gostava de gente. Era gente.

Iúri Rincon Godinho, publisher da Contato Comunicação, é escritor e membro da Academia Goiana de Letras.

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