Euler de França Belém
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Repórter atacada pelo bolsonarismo ganha Prêmio Maria Moors Cabot

Jornalista investigativa da “Folha de S. Paulo”, Patrícia Campos Mello vai receber um dos prêmios mais prestigiosos para o mundo do jornalismo

O jornalismo brasileiro está cada vez mais crítico. O que prova a vitalidade tanto do jornalismo quanto da democracia balzaquiana (35 anos). Os arroubos autoritários do presidente Jair Bolsonaro, atacando repórteres que apontam problemas de sua campanha em 2018, de seu governo e de familiares, não intimidam a ação dos profissionais. Poucas vezes, as redações e o patronato estiveram em tão poderosa comunhão no trabalho de descontruir um governo que, a rigor, precisa começar e sair do campo das intenções.

Patricia Campos Mello: repórter que, dada a seriedade de seu trabalho, incomoda Jair Bolsonaro e o fundamentalismo do bolsonarismo | Foto: Reprodução

O Brasil, neste momento, é o Céu para jornalistas que queiram fazer jornalismo (a TV Globo, por exemplo, parece ter “liberado” seus profissionais — todos, ou quase todos, foram autorizados a criticar Bolsonaro e seus auxiliares). O importante é que, apesar de alguns excessos, aqui e ali, o jornalismo que se está fazendo é responsável, sério. Daí sua credibilidade globalizada no mundo em que a pós-verdade — a “mentira” articulada e potencializada — é quase dominante e irrefreável.

O Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) relata, no texto “Jornalista brasileira recebe Prêmio Maria Moors Cabot” (li no Portal Comunique-se), as agruras do jornalismo no país. Patrícia Campos Mello, a profissional premiada, é uma repórter do primeiro time. Sabe que o fato antecipa a opinião, pois é ele que a substancia — é seu osso (substantivo) e musculatura (verbo). Noutras palavras, é, acima de tudo, repórter. Ao investigar as contas de campanha de Jair Bolsonaro, o uso de caixa 2 (que municiou as milícias digitais) — a praga que não desapareceu nem vai desaparecer —, passou a ser atacada pelos Bolsonaros e seus fundamentalistas. “Atacada” não é o mesmo que “criticada”. As baixarias estão no campo do, diria Samuel Beckett, inominável.

Rciardo Calderón, jornalista colombiano, e o repórter-fotográfico americano Stephen Ferry: premiados com o Maria Moors Cabot | Foto: Reprodução

Repórter da “Folha de S. Paulo”, Patrícia Campos Mello vai receber uma medalha de ouro e 5 mil dólares. “Não há democracias sem Patrícias, sem uma imprensa livre”, registram os curadores da Universidade Columbia. Também foram premiados Ricardo Calderón Villegas, da Colômbia, e, dos Estados Unidos, Stephen Ferry e Carrie Kahn.

Ante o processo de intimidação, não se deve ceder. “Temos de fazer o que já fazemos: focar na notícia, na matéria, na investigação. Não somos oposição, nem apoio a nenhum político de nenhuma corrente ideológica. O ideal é isolar esse ruído, essa intimidação toda e focar nas investigações”, diz, certeira, Patrícia Campos Mello.

Carrie Kahn: premiada com o Maria Moors Cabot | Foto: Reprodução

“O jornalismo estava passando por uma época difícil, tanto no modelo de negócios, quanto na credibilidade. De repente, no meio da pandemia da Covid-19 e de uma crise política, muitas pessoas se deram conta da importância do jornalismo profissional. Gente que está apurando fatos, ouvindo o contraditório, checando informação”, anota Patrícia Campos Mello.

O prêmio para Patrícia Campos Mello é justo. Justíssimo.

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