Relato de um estudante de 19 anos expõe drama de uma família com Covid-19

Não se trata de uma gripezinha e tanto para idosos quanto para jovens. E nem sempre se consegue atendimento rápido

Yuri Baiocchi

Especial para o Jornal Opção

Acordamos agora, às três da manhã, para preencher a tabela recomendada. São muitos registros a serem feitos. Já é a sexta noite perdida. Não que eu tenha alguma avareza em relação ao sono, mas bem que costumava aplicar minha insônia em telefonemas interessantes, internet, séries de TV e, às vezes, quando a preguiça não era muita, escrevendo alguma coisa.

Tenho recebido mais ligações do que ligado, o que é difícil acontecer.

Com isso, não consigo atender a todos. É que estou de saco cheio e de pulmão enchendo.

A bisavó se submeteu a uma cirurgia de fêmur na segunda-feira (29 de junho) e teve alta hospitalar na quinta-feira (2 de julho). O procedimento foi um sucesso. A cicatrização da anciã é excelente: o corte, em poucos dias, se fechou e a bisavó não teve inchaços nem inflamações na região.

Domingo, uma semana após o contato com o primeiro hospital antes da cirurgia da bisavó, a cuidadora sentiu dor nos olhos e um enjoo muito forte. Pensamos que era saudades de Jaraguá, vez que melhorou rápido e a febre foi baixa.

Nesse dia, ao comerem uma receita bem gordurosa de empadão, tanto ela como a mãe de minha tia-avó apresentaram tais sintomas de enjoo.

Culpamos o inocente prato goiano, que até hoje nunca matou nenhum vilaboense.

Os sintomas iam e vinham, tanto na cuidadora como na mãe de minha tia-avó. A bisavó nada teve. O único estranhamento causado foi que, muito lúcida, passou dois dias tendo alucinações, que o médico da família atribuiu a infecção de urina, um mal crônico da paciente. Em dois dias houve melhora e demos por vencida a luta.

A filha de minha tia-avó indicou a compra de um oxímetro. Não fosse isso, meu texto seria lúgubre. O aparelho apontou uma saturação de 64 na bisavó, quando o comum seria de 95 para cima. Caso de entubação. No entanto, não se entuba com o mesmo convencimento alguém de 98 anos. Parentes médicos recomendaram tentar reverter a situação em casa.

Yuri Baiocchi | Foto: Facebook

Trouxemos o compressor de oxigênio — uma bala caso faltasse luz e o gerador não funcionasse. Recebemos recomendação para também comprar uma máscara especial, a última disponível em Goiânia. Com um litro de oxigênio, a saturação aumentou mais de 15%. Com dois litros, mais melhora e, com três, a bisavó saturava em 98. Uma prima indicou pneumologista referência, que pediu para baixar a vazão até o mínimo que ela conseguisse saturar acima de 90, para não se viciar no oxigênio e forçar o pulmão a trabalhar.

Assim foi feito. A bisavó saturava em 93 com um litro e meio de oxigênio. A urgência era tanta que busquei os utensílios e montei — sozinho — a máquina, a máscara e conectei as mangueiras e o balão. De quinta para sexta, dormi aos pés do compressor de oxigênio e, de meia em meia-hora, medi a saturação da bisavó, até me certificar de que havia estabilizado. Sexta à noite, um primo fez visita de médico e se assustou com a piora do quadro: a bisavó estava com os membros superiores inchados. Afirmou que ela estava anasarca e — embora com todos os cuidados necessários, e ao lado da família — se o quadro piorasse, não teria volta, sendo traumatizante para todos. Além, claro, de não descartar uma contaminação por coronavírus, afinal, estamos no epicentro de uma pandemia.

O primo ligou para o cirurgião do fêmur da bisavó, que prontamente conseguiu agendar a tomografia. A UTI móvel, com gente que eu não sei nem que cara tinha, de tanta roupa que vestia, veio buscá-la. Já era novamente madrugada quando a tomografia ficou pronta e nem me dei conta que tinha amanhecido da madrugada anterior.

O resultado foi o não descartado pelo primo: vidro fosco bilateral, um forte indício do novo coronavírus. Com uma evidência dessa em tempo de pandemia e com mais alguns sintomas leves, a bisavó não poderia — de jeito algum — ser internada com outras pessoas numa UTI comum.

Não havia mais vaga em Goiânia. Gente esperando há horas. Há um número de vagas destinado ao Ipasgo, que é burocrático, e às vezes chega sem poder mudar a situação. Um amigo havia dito para ligar, caso tudo desse errado. Liguei, mas não atendeu. Bati no seu prédio, não subi e esperei que me retornasse. Imediatamente, ele mandou algumas mensagens e foi adiantando algumas coisas para saber sobre a vaga do Ipasgo e o que poderia ser feito.

Depois, novos telefonemas. Um, para uma prima que já havia falado com algumas pessoas da família Rassi sobre a situação e a possibilidade de vaga no hospital deles, e em outro de conhecidos nossos. Não houve muito a ser feito. Dias antes, por amizade, uma tia nonagenária infectada pela doença teve a sorte de conseguir. A situação da saúde, mesmo privada, em Goiânia, está cada vez pior. O outro telefonema foi para uma segunda prima, pedindo que ela acordasse algumas pessoas.

Amanheceu sábado e dormi tempo suficiente para acordar sem frio por causa do sol forte. O amigo ligou. Logo depois, algumas pessoas aptas a fazer algo também ligaram e, por último, a segunda prima me enviou algumas notícias: a primeira-dama do Estado de Goiás tinha tomado conhecimento e não faria uma idosa de 98 anos, com suspeita de coronavírus e portadora de outras comorbidades (além de convalescente de uma cirurgia de fêmur), esperar por muito tempo.

Quando o diretor do Ipasgo ligou para pegar os dados, a primeira-dama já fizera o encaminhamento e garantira a vaga. Uma eficiência digna de todos os encômios.

Em menos de dez minutos, a ambulância já chegara e quase tudo estava resolvido. A bisavó, muito lúcida, perguntou se poderia ter alta naquele dia. Eu lhe disse que não, que era preciso brigar um pouco mais. E ela já mostrou que não foge.

Em seguida, a tia-avó e sua mãe fizeram um teste completo e de resultado rápido no estacionamento do Goiânia Shopping. Os resultados saíram no mesmo dia: positivo. A cuidadora e eu fizemos mais tarde e os resultados saíram ontem: positivo, também. Os primeiros testes PCR nasais colhidos no apartamento, até hoje não ficaram prontos. Algo precisava ser feito, mesmo na dúvida e com o teste rápido erroneamente dando negativo.

A bisavó e a cuidadora trouxeram o vírus do hospital, coisa não muito difícil de acontecer. Na quarta-feira, fui o último a apresentar sintomas, que julguei ser de alguma alergia a produto para assoalho. A bisavó não teve tantos sintomas, talvez febre (o que explicaria os delírios), mas é complicado afirmar, pois idoso quase nunca apresenta febre. Ela já deve estar no final da infecção e conseguiu enfrentar praticamente sem nada. A baixa saturação pode se explicar também pela alta taxa de anemia, que ela sempre teve e aumentou com a perda de sangue da cirurgia, mesmo tendo recebido sangue.

Em três dias de internação, aliás, num tempo hábil de se poder fazer algo, não houve piora no quadro, o que por si só é esperançoso. Houve melhora na infecção de urina e na anemia. O nível de oxigênio usado diminuiu e, agora, é somente para suporte. A diurese está normal. Não perdeu a consciência, mantém-se acordada e com força para repetir alto que quer ir embora e, de vez em quando, tirar algum aparelho. A bisavó, segundo a enfermeira, tem enfrentado tudo com muita dignidade. E a enfermeira nem a conhece muito para saber do que ela é capaz.

Deixando de lado a bisavó, que está estável e também testou positivo, a cuidadora teve certo comprometimento no pulmão e precisou ser medicada no hospital. A mãe da tia-avó sofreu um desmaio, teve queda na saturação e precisou fazer uso do oxigênio que, felizmente, já tínhamos providenciado.

A tia-avó, embora não tenha apresentado sintoma, mostra-se com menor disposição e resistência.

Já eu, que não apresentei nada em duas auscultas e não estava precisando fazer uso de antibióticos, mesmo tomando Ivermectina (que, segundo todos os médicos que consultei, não passa de perfume nem altera a situação para melhor ou para pior) pelos dias recomendados, comecei a apresentar um comprometimento no pulmão esquerdo, que cresceu em apenas um ou dois dias.

Não há remédios indicados para curar ou evitar essa doença e, pelos exemplos daqui, vemos que cada um — independentemente até da idade — apresenta sintomas e prognósticos incrivelmente diferentes entre si.

A Ivermectina é um bom antiparasitário e tem sua eficácia comprovada nessa área. Como auxiliar na minha melhora não apresentou resultado e a infecção progrediu, claro, não pelo uso do medicamento.

Agora é esperar os antibióticos prescritos começarem a surtir efeito, bem como aguardar os resultados dos parentes que tivemos contato no dia da internação da bisavó e que tudo possa se resolver, não só com os medicamentos, mas com o carinho que temos recebido dos parentes e amigos e da atenção da mais de meia dúzia de médicos que têm mantido contato conosco.

Se você pode, siga o isolamento. Na nossa família já tivemos duas perdas (de um cinquentão e de outro de 37 anos) e mais de 40 contaminações. Não mantivemos contato uns com os outros, as contaminações foram em épocas e lugares diferentes e em pequenos grupos familiares.

Com medo de piorar, mesmo com o pneumologista apostando no meu tratamento, liguei no Einstein, que funciona no Edifício Órion, para saber sobre o tratamento e como seria a entrada no hospital em caso de emergência. Lá é onde ainda há vagas. Os preços são os mais salgados. Eu, que tenho  plano da Unimed por causa de meu pai, há alguns meses passei a ter também o plano completo do Bradesco e, à época, disse para minha mãe que era uma besteira — para decepção da atendente e para pagar língua, uma vez que é o único convênio atendido no Einstein daqui. Nunca passei por algo assim. Para mim não está sendo uma “gripezinha”.

Meus agradecimentos a todos os nossos amigos da família Caiado e ao Grupo de Mulheres em Ação Por Goiás que, com amizade e agilidade, atenderam minha bisavó, bem como aos médicos que têm nos acompanhado: Dra. Bianca Ganzarolli, Dr. João Paulo Alarcão Morais Gomes, Dr. Paulo Silva, Dr. Aldo Baiocchi Clemente, Dr. Ubirajara Ferreira Rios, Dr. Jurandyr Vasconcellos Neto, Dra. Lorena Barbosa de Moraes Fonseca, Dr. Luso Guedes D’Amorim Júnior, Dr. José Reinaldo Breseghello e a minha querida psicanalista, Ana Christina da Rocha Lima, que me acolheu sem hora marcada, via videochamada, no sábado e no domingo.

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