Euler de França Belém
Euler de França Belém

Reinaldo Azevedo vai pagar indenização de 100 mil reais para a cartunista Laerte

A revista “Veja” e a Rádio Jovem Pan também foram condenadas pela Justiça. O jornalista chamou Laerte de “baranga moral”

Costumo dizer que “só o humor salva… se salva”. O humor é jornalismo? Talvez seja um pouco mais do que isto: o limite do humor, sua fúria iconoclasta, tende a ser mais amplo. Porque, se autônomo e corrosivo, transcende, na maioria das vezes, à circunstância. Em regra, a charge está a serviço da graça e, sim, da inteligência. O humor, quando militante, perde energia. O humor de o “Pasquim” era militante? Sem dúvida, mas sua graça estupenda atenuava o engajamento e fazia-nos rir de tudo, até de seus excessos. A cartunista Laerte é extraordinária. Seu traço e suas ideias criam um humor de primeira linha. Atrevo-me a dizer que, por vezes, o editorial da “Folha de S. Paulo” é expresso, sem que ninguém o diga, pela liberdade do cartum da Laerte. “É isso”, pego-me falando sozinho quando vejo e leio os trabalhos da criadora.

Laerte, cartunista da “Folha de S. Paulo”, vai doar os 100 mil reais da indenização

Mas uma grande cartunista, como Larte, às vezes pisa na bola? Sim. Em fevereiro de 2017, demonstrando parcialidade, num charge publicada na “Folha”, Laerte mostra três indivíduos encapuçados e armados, criminosos por certo, abraçados, em aparente congraçamento, com duas pessoas, não-mascaradas, que comemoram o “Fora Dilma” (expresso nas camisetas). Os criminosos supostamente “mataram” alguém — quiçá a democracia, ou o governo do PT —, pois há sangue escorrendo no chão. Laerte poderá dizer que se trata apenas de humor. Acredito que se trata mesmo de humor, mas é humor engajado, ideologizado, de crítica àqueles que contribuíram para o afastamento da presidente da República. Noutras palavras, fica-se com a impressão de que Laerte “criminaliza” aqueles que derrubaram a petista. Laerte, como chargista, pode ter uma posição sobre os fatos e expressá-lo na sua arte? Claro que sim. E, se criticada, pode se defender, mas dificilmente terá condições de contrapor que sua charge é uma crítica autônoma, livre de peias ideológicas.

Se a charge não tem a qualidade de outros trabalhos de Laerte, por ter perdido sua veia libertária, isto não sugere que a cartunista deva ser achincalhada. Tão-logo publicou o trabalho, o jornalista Reinaldo Azevedo publicou uma crítica contundente no seu blog, então instalado na revista “Veja”, e reforçou o comentário na Rádio Jovem Pan. Um dos polemistas mais ferinos e capacitados da imprensa patropi, Reinaldo Azevedo usou termos fortes contra o trabalho e, sobretudo, contra Larte, que seria “baranga na vida”, “baranga moral”, “falsa senhora”, “homem-mulher”, “fraude de gênero”, “fraude moral” e “farsante”. Este tipo de crítica, agressivo e sem limites, agrada centenas de militantes das redes sociais — notadamente os de direita (política e religiosa). Mas deixa de ser o que deveria ser: uma crítica da charge de Laerte. Fez-se uma crítica da pessoa que produziu a charge e uma crítica, evidentemente, excessiva, extrapolando os limites do bom senso, da civilidade e do respeito.

Reinaldo Azevedo: um dos maiores polemistas da imprensa brasileira

Sentindo-se agredida, Laerte processou a “Veja”, Reinaldo Azevedo e a Jovem Pan. Por mais boa vontade que os juízes tenham com os textos publicados por jornalistas, como não avaliar negativamente as críticas acerbas de Reinaldo Azevedo? O desembargador Carlos Alberto Garbi, do Tribunal de Justiça de São Paulo, condenou o jornalista, a “Veja” e a Jovem Pan a pagar 100 mil reais a título de indenização à cartunista. O magistrado concluiu que as críticas foram realmente ofensivas e não tinham a intenção de interpretar pura e simplesmente a charge de Laerte Coutinho. “A crítica feita pelos réus se dirigiu à pessoa da autora, suscitando questionamentos, inclusive, ao seu gênero. Deixou, portanto, de ser objetiva. Criticar não é ofender”, postula a sentença. Como discordar? Ou um indivíduo, por ter feito uma charge da qual discordamos — e, de fato, a charte não é das melhores —, merece ser chamada de “baranga moral”?

Na sua defesa, Reinaldo Azevedo sugeriu que, devido ao seu posicionamento político, o que o leva a fazer charges engajadas — não independentes, como se espera de humoristas e cartunistas —, Laerte merece críticas “mais incisivas”. O desembargador Carlos Alberto Garci discorda: “A conduta da autora, o seu comportamento, as suas ideias não autorizam a ninguém fazer usar da crítica, que é legítima, para ofender. Foi o que ocorreu no caso, visto que a matéria publicada se dirigiu mais à pessoa da autora do que propriamente à charge referida”. A interpretação do magistrado certamente se aproxima da posição de qualquer ombudsman de jornal.

Reinaldo Azeredo é uma das figuras mais curiosas do jornalismo patropi. Preparado intelectualmente, é capaz de debates sérios e qualificados sobre política, música e literatura. Porém, quiçá para agradar as massas — que, na internet, são em geral das classes médias —, eventualmente excede. Logo ele, que, tão preparado, não precisa abaixar o nível.

Laerte vai doar os 100 mil reais ao Movimento Mães pela Diversidade.

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Nilson Jaime

Fez-se justiça! Bola fora de Reinaldo Azevedo. A emenda (crítica), ficou pior que o soneto (charge ruim).