Euler de França Belém
Euler de França Belém

Redes sociais deram estrutura para Bolsonaro ganhar de Haddad no 1º turno

Candidato do PT tem forte apoio nas melhores universidades do país. Candidato do PSL venceu o 1º round da batalha eleitoral ao usar com mais eficiência as armas digitais

Jair Bolsonaro, candidato a presidente pelo PSL: rei das redes sociais | Foto: Reprodução

Reportagem “Bolsonaro ganhou a disputa das redes sociais”, de Monica Gugliano, do jornal “Valor Econômico” (sexta-feira, 12), mostra que os eleitores, por meio das redes sociais, mudaram o modo de se fazer eleição e se votar no Brasil.

O candidato a presidente da República pelo PSL, Jair Bolsonaro, tinha escasso tempo na televisão e, depois de ser esfaqueado em Minas Gerais, sumiu do mapa, quer dizer, não tinha condições de ser entrevistado nem de participar de debates ou viajar pelo país. Sumiu do mapa, vírgula. Mesmo internado, sua campanha continuava a toda, numa espécie de piloto automático, nas redes sociais. Na história do país, nenhum outro candidato a presidente teve tantos cabos eleitorais voluntários — organizados e visceralmente politizados — quando o deputado federal. Talvez tenha superado o PT dos tempos áureos de Lula da Silva, em 2002 e 2006. A militância bolsonarista venceu, no primeiro turno, a militância petista (que, a rigor, nem é haddadista).

Candidato praticamente virtual

O “Valor” frisa que Bolsonaro se tornou um candidato “praticamente virtual”. Fabio Malic, um dos coordenadores do Laboratório de Estudos Sobre imagem e Cibercultura (Labic), disse à repórter: “O envolvimento emocional e a fidelidade a Bolsonaro se dá nas redes sociais. Para os apoiadores não importa onde ele está ou o que é dito fora delas. A verdade é o que está ali no mundo virtual”. As redes sociais, mesmo com o candidato internado, aceleraram a campanha e potencializaram o atentado, quer dizer, transformaram-no em algo positivo para o líder do PSL. Por isso pode-se sugerir que a ação criminosa de um suposto maluco contribuiu para encorpar a candidatura do líder do PSL. A militância virtual ficou mais agressiva na busca de novos seguidores e eleitores.

Manuela Dávila, a vice, é comunista, mas o candidato a presidente Fernando Haddad, do PT, é tipicamente socialdemocrata  | Foto Ricardo Stuckert

Comenta-se que a maioria do material vulgarizado nas redes sociais era e é produzido pelo pessoal de Bolsonaro. Talvez as críticas mais elaboradas — sobretudo lembranças de fatos históricos que o PT quer esquecer (por exemplo: o presidente Lula da Silva, candidato à reeleição em 2006, fugiu de um debate na TV Globo) — sejam produzidas por experts de sua campanha. Mas no Facebook o que se viu e o que se vê são materiais, alguns canhestros e outros até bem-feitos, produzidos por usuários da própria rede. Os usuários das redes sociais divulgam muito do que recebem, mas também produzem.

Especialistas sublinham que Bolsonaro sabe como “usar e explorar as redes”. O jornal frisa que as redes “mantiveram, fidelizaram e ampliaram seu eleitorado”. Gaudêncio Torquato, professor da USP, afirma que “não há racionalidade nesta eleição. Só amor e ódio. E foi nas redes sociais que esses sentimentos moveram os votos”.

Terminado o primeiro turno, Haddad saiu a campo e concedeu entrevistas para quisessem. Concentrou-se nos meios tradicionais. Bolsonaro fez uma transmissão pelo Facebook, tendo seu Sancho Pança, Paulo Guedes, ao lado. Moderno (na prática) e inclusivo, sua comunicação teve uma jovem interpretando o que dizia para a língua brasileira de sinais (libras).

Geraldo Alckmin: programa de governo era de qualidade, mas não foi observado

O tucano Geraldo Alckmin não soube comunicar e sua campanha fortemente propositiva caiu no vazio. Em parte dada a radicalização do eleitorado, que só tinha olhos para Bolsonaro e Haddad — o “filho” de Lula da Silva — e em parte porque, político da velha guarda, parece não compreender que a vida real também ocorre no mundo virtual. Talvez até mais. “Foi um erro nosso muito grande. Nossa campanha não percebeu a importância das redes sociais e investiu em soluções analógicas. Ignorou que essa é a comunicação”, assinala José Aníbal, presidente do Instituto Teotônio Vilela. O “Valor” não comentou a declaração de José Aníbal. Mas ela é, acima de tudo, o retrato do PSDB — um partido que ficou para trás. Fica-se com a impressão de que Geraldo Alckmin e José Aníbal não são contemporâneos dos brasileiros atuais. A cúpula tucana parece que está vivendo num tempo pré-internet. Ou seja, num tempo no qual não vive a maioria. Mas, curiosa ou sintomaticamente, Alckmin, Ciro Gomes e Marina Silva (Rede) produziram programas de governo qualitativos. Os brasileiros desaprovaram-nos, com seus votos, sem conhecê-los.

Discurso firme e catalisador 

Uma coisa o jornal e os entrevistados pelo “Valor” não disseram: não basta estar nas redes sociais — a rigor, todos estão. É preciso ter um discurso firme e catalisador — o que Alckmin não teve e Bolsonaro tem. Este dialoga com seus eleitores, radicalizando-os e seguindo a radicalização deles. O tucano paulista parecia, nos programas eleitorais, nos debates e entrevistas, quase um fantasma — uma presença-ausência. Falou para um eleitor que existe, mas é minoria. Talvez seja possível dizer que, mesmo que estivesse de maneira ostensiva nas redes sociais, continuaria não sendo acompanhando e, até, visto.

Ciro Gomes teve boa presença nas redes sociais, mas os eleitores o trocaram por Fernando Haddad | Foto: Bruna Aidar / Jornal Opção

O cientista político e consultor Antônio Lavareda sustenta que as redes sociais foram seminais “para que Bolsonaro mantivesse a fidelidade dos seus eleitores e a imagem anti-PT” (o texto entre aspas é do valor, interpretando a fala do entrevistado). “E é essa imensa bolha que se retroalimenta que lhe dá grandes chances de vencer a eleição”, postula Antônio Lavareda. O que fez a diferença: as redes sociais ou o discurso e o comportamento de Bolsonaro e seus seguidores? É uma questão deixada de lado pelo “Valor” e seus entrevistados.

Pesquisa do instituto Datafolha indica, anota o “Valor”, que “a maioria dos eleitores brasileiros (68%) tem conta em alguma rede social — 66% especificamente no WhatsApp. Neste ano de campanha mais curta, o dinheiro foi pouco e o tempo de televisão, breve. O aplicativo de conversa substituiu os demais meios e se tornou uma das plataformas mais importantes do pleito”.

A repórter Monica Gugliano informa que o eleitorado de Bolsonaro usa mais o WhatsApp do que o eleitorado dos demais candidatos. “Segundo o Datafolha, 81% afirmaram usar o aplicativo, contra 59% de Fernando Haddad (PT), 72% de Ciro Gomes (PDT) e 53% de Geraldo Alckmin (PSDB)”. Fabio Malic pontua que “a rede social, ainda que em alguns momentos não aumente o número de eleitores dispostos a votar em X ou Y, ela, sem dúvida, se encarrega de manter fiéis os que já decidiram o voto”.

Marina Silva: campanhas radicalizadas, com nomes fortes, tendem a devastar candidatos mais moderados e politicamente amenos | Foto: Divulgação / Facebook

Especialistas em internet disseram ao “Valor” que, dois dias antes das eleições — 48 horas —, os eleitores correram em busca de informações sobre os candidatos. Aí, frisam, deu-se o vale-tudo. “Notícias verdadeiras, invenções e um absoluto descontrole. No Brasil, entre todas as mídias sociais, o WhatsApp é a mais complicada de lidar, diz Malic. Muitos o chamam de ‘buraco negro’ porque é praticamente impossível controlar a disseminação de informação e desinformação que passam pelo sistema.”

Fabio Malic diz que no Brasil, no WhatsApp, podem ser usados 20 grupos — na “Índia uma informação pode ser compartilhada por cinco grupos, no máximo”. “Há muito tempo que alertamos para a necessidade de uma regulamentação mínima que seja. Mas sem sucesso”, lamenta o pesquisador.

O cientista Murilo Aragão, presidente da Arko Advice, destaca que, “no primeiro turno, debates, entrevistas, nada disso teve peso. As estruturas tradicionais dos partidos não funcionaram”. Até que funcionaram, mas menos do que em outras eleições.

Poder pode moderar radicais 

Bolsonaro, poderia ter concluído a reportagem, aproveitou uma desvantagem, a falta de estrutura política nos Estados — controlada por caciques avessos a outsiders —, e usou a estrutura de que dispunha, as redes sociais. Não só as usou — afinal, todos as usaram. Usou-as com extrema eficiência.

Se eleito, o poder poderá moderar Bolsonaro? É possível. Radicais, se não saem do campo democrático, costumam ser moderados pelas adversidades da complexa realidade. No governo, ante problemas reais, discursos, moderados ou radicais, não funcionam. O que funciona mesmo é aquilo que deu certo em todos os países: democracia ampla, planejamento econômico realista e ajustes fiscais eficazes (mas não excessivos).

O poder radicalizaria ou moderaria Haddad? Poderia se tornar radical, numa tentativa suicida de salvar companheiros do PT da cadeia e de venezuelizar o Brasil? Não se sabe, pois, como diz o escritor V. S. Naipaul, no romance “Os Mímicos”, “só o poder revela o político”. Vale assinalar que Haddad é um dos políticos mais moderados do PT e certamente não é comunista. É socialdemocrata; no máximo, socialista. Ao contrário de muitos que não são de esquerda, percebi de maneira positiva sua mudança de posição em relação a uma nova Constituição. O poder também pode “equilibrá-lo”? É possível. A revigorada força política da direita certamente puxaria Haddad para um governo de centro, no caso de vitória do petista. Pode ser impressão, até fantasia, mas é provável que o segundo turno tenha “puxado” os dois candidatos ainda mais para o campo democrático.

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