Euler de França Belém
Euler de França Belém

Questionário Proust do escritor Antônio José de Moura

O escritor goiano diz que o poeta Afonso Félix de Sousa é fundamental. E afirma que não tira da cabeceira os livros de José J. Veiga

Antônio José de Moura escritor antonio

O escritor Antônio José de Moura, de 71 anos, goiano de Mambaí, é autor de uma literatura que empolgou críticos e escritores nacionais. “Dias de Fogo”, “Sete Léguas de Paraíso” e “Umbra” são prosa de primeira linha. “Sete Léguas de Paraíso”, se tivesse sido trabalhado por uma agente literária como Carmen Balcells, uma das principais responsáveis pelo boom literário sul-americano, teria feito sucesso na Europa, notadamente. O Questionário Proust de Mourinha, como é conhecido, não é ortodoxo — suas respostas são sempre surpreendentes.

Qual a sua ideia de felicidade perfeita?

Só se chega à felicidade, que dispensa adjetivos, por um caminho: o autoconhecimento.

Qual é o personagem histórico que mais admira?

Nenhum. Não existe personagem histórico.

Qual a sua característica mais marcante?

Digamos: um grande, genuíno esforço para ser íntegro.

Qual a característica que mais deplora nos outros?

Não deploro nada. Em ninguém. Atualmente, faço uma força de leão para não julgar.

Qual sua característica mais deplorável?

Nada a deplorar. Se procuro não julgar os outros, tampouco iria me julgar. Ora, como pecado não passa de invenção dos teólogos — e uma invenção insustentável, reles, ordinária, vagabundíssima —, resta o erro. Todos nós erramos, e muito. Uns mais, outros menos, dependendo da juventude ou longevidade da alma. Mas erros nós mesmos corrigimos, pois corrigi-los é um imperativo de nossa essência divina. Esta, sim, imutável.

Qual a sua ocupação preferida?

Escrever.

Qual a qualidade que mais admira num homem?

Integridade.

E numa mulher?

Integridade também.

Machado de Assis 345 download

Quais os seus escritores favoritos?

Aristófanes. Rabelais. Cervantes. Shakespeare. Machado de Assis (ao lado). Chaucer. E outros. A lista vai daqui a Trindade. Em romaria.

Qual é o seu lema?

“Eu faço tudo o que quero e quero tudo que é justo e belo.” (Entre aspas, pois esqueci se este dístico é filho legítimo meu ou adotivo — no último caso, se for o caso, bem-adotado.)

Com qual figura histórica mais se identifica?

Não me identifico com o inexistente. Esta balela de herói e vítima é uma projeção doentia da mente.

Qual a sua maior extravagância?

Estourar o tendão-de-aquiles no futebol. Entretanto, depois de permanecer durante mais de dois meses de pé pra cima, na cama, estou quase recuperado. Para alegria (talvez delírio) da plateia — arquibancada, geral, tribuna de honra, cadeiras numeradas.

Qual a sua viagem predileta?

Para o interior de mim mesmo.

O que mais valoriza nos amigos?

Lealdade.

Qual o seu herói preferido na ficção?

O Lula. No dia em que ele deixar de ser morubixaba da tribo — espécie de Macunaíma no poder — e virar personagem de ficção. Se é que vai virar.

O que lamenta não ter feito?

Nada a lamentar.

Qual o maior amor de sua vida?

Elle.

Onde e quando foi mais feliz?

Aqui e agora. Dentro do agora, que é a nossa eternidade possível. Por enquanto.

Qual a sua maior realização?

Um romance a sair ano que vem — já está com a editora. Pensando melhor, um que ainda devo escrever.

Mentir, às vezes, é necessário?

Às vezes, o ato de mentir se torna até piedoso. Já imaginou um médico dizendo para um doente: “Cara, não tem mais jeito! Pode mandar a família encomendar o caixão”. Seria desumano, não?

Se pudesse voltar à vida como outra pessoa, quem seria?

Eu mesmo. Sem dúvida. Tal e qual.

Como gostaria de morrer?

A rigor, não existe morte. Na jigajoga deste mundo, morte é o outro polo. Acontece que a vida é infinita. Falamos então de morte biológica, que não tem grande importância. Se for sem dor, tanto melhor.

Qual pergunta falta fazer?

O que acha do Centro Cultural Oscar Niemeyer, que o governador Marconi Perillo está construindo e vai inaugurar?

E qual seria a resposta?

É bom saber que o governador Marconi reconhece, agradece e enaltece, inclusive por e-mail, o fato de termos lhe dado a ideia deste centro, via projeto (um projeto nosso publicado na íntegra, anos antes, pelo Jornal Opção), sobre o qual muito conversamos — eu e o governador. Tal projeto foi o embrião do centro cultural criado, a pedido do governador, pelo grande arquiteto-poeta Oscar Niemeyer.

Afonso felix de Sousa afonso1

Qual poeta goiano é fundamental?

Afonso Félix de Sousa (ao lado).

Que romancista de Goiás você teria coragem de dizer que não tira da cabeceira?

José J. Veiga (foto abaixo)

Graciliano Ramos ou Guimarães Rosa?

Ambos.

Qual o livro de Machado de Assis que não chega aos pés de “Sete Léguas de Paraíso”, de Antônio José de Moura?

Machado não se compara a ninguém. Ninguém pode se comparar a Machado.

José J Veiga escritor goiano 26JJI

Qual o personagem de ficção que não se parece com personagem de ficção?

O Lula-lá-lá, uai!

Capitu era mesmo infiel a Bentinho?

Creio que é melhor deixar o enigma como tal. Encoberto pelos famosos olhos de ressaca.

Afinal, Bentinho gosta de Capitu ou de Escobar?

De Capitu, imagino, embora seja tão ingênuo que qualquer guri de hoje lhe daria nota zero, como conquistador, exclamando: “Mas que babaca!”

Gabriel Nascente gnascente

Quem é maior poeta goiano: Gabriel Nascente ou Brasigóis Felício?

Empate técnico, nos moldes dos institutos de pesquisa — Ibope, Serpes etc. Ou, conforme diriam os locutores esportivos, experts em loteca: “Pode cravar coluna do meio, torcida brasileira!” Agora, sem detrimento do outro poeta, cabe observar: Gabriel Nascente (foto ao lado), como vocação poética, é um vulcão, uma força da natureza. Alguns acham que ele talvez seja o maior talento poético do Brasil, só que irrealizado, porque sempre gastou — e como! — apenas o fundamental (talento), esquecendo-se dos acessórios indispensáveis ao talento: técnica, contenção etc. Enfim, teria negligenciado algo imprescindível até mesmo aos gênios. Será?

Bernardo Élis ou José J. Veiga?

Os dois.

Qual o personagem de cinema que, se saltar para a vida, todos vão acreditar que é real?

Chaplin. Carlitos. Porque a vida é uma comédia. Só comédia.

Qual diretor de cinema brasileiro que vale 50 por cento de Luchino Visconti?

Não creio que tal questão deva se apresentar em termos percentuais, apesar de Visconti ter produzido coisas como “O Leopardo”, baseado na obra-prima de Lampedusa. Além do mais, o cinema brasileiro ultimamente evoluiu bastante. Para além — muito além — de estereótipos como cangaço, caatinga e carnaval tipo exportação.

[Nota da redação do Jornal Opção: conseguimos localizar a data precisa do Questionário Proust de Antônio José de Moura. É certo que foi publicado há mais de 10 anos.]

Leia mais sobre Antônio José de Moura no link:

http://www.jornalopcao.com.br/colunas/imprensa/antonio-jose-de-moura-teme-que-a-literatura-o-tenha-abandonado

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.