Euler de França Belém
Euler de França Belém

Quando visitou Jataí, Juscelino Kubitschek já havia decidido que Brasília seria construída em Goiás

Livro de Costa Couto transforma em “lenda” o pedido de Toniquinho para que o presidente JK construísse a nova capital do país em território goiano

O presidente Juscelino Kubitschek, que governou o Brasil entre 1956 e 1961, pretendia mudar a capital federal do Rio de Janeiro para outro lugar — inicialmente, planejava a construção no Triângulo Mineiro — desde 1946. A história é contada no livro “Brasília Kubitschek de Oliveira” (Record, 399 páginas, de 2001), do historiador Ronaldo Costa Couto, doutor em História pela Sorbonne.

O túmulo que virou Céu para Juscelino

Na época, Juscelino Kubitschek e Israel Pinheiro eram deputados federais e a defesa da transferência foi feita nos debates da Constituinte. O engenheiro Lucas Lopes fez os estudos mostrando que a mudança era viável. A bancada de Goiás, sobretudo Pedro Ludovico, João d’Abreu e Diógenes Magalhães, “admite Goiânia como opção temporária, mas luta tenazmente pela alternativa Cruls, a que prevalece na votação final. Cinco votos a mais que o Triângulo Mineiro”. “O artigo quarto das Disposições Transitórias da Constituição de 18 de setembro de 1946 determina expressamente a transferência, mas não define data para a conclusão dos trabalhos técnicos e início das obras.” Ao assumir a Presidência, Juscelino acrescentou a construção de Brasília, a meta-síntese, “de última hora”, assustando os planejadores Lucas Lopes e Roberto Campos. Este disse que JK “incluiu um coelho tirado da própria cartola: Brasília”. Costa Couto assinala que, “para o presidente, a oposição só não barrou o projeto em 1956 por considerá-lo seu túmulo político. Ninguém acreditava que pudesse construir Brasília em menos de quatro anos. Ainda mais em pleno sertão”.

Em livro lançado em 2013, “O Essencial de JK — Visão e Grandeza, Paixão e Tristeza” (Planeta, 301 páginas), Costa Couto revisa a história de que a ideia de construir Brasília no território goiano foi decidida num comício de sua candidatura a presidente da República realizado em Jataí, no Sudoeste de Goiás, em 4 de abril de 1955, às 10h da manhã. Antes de publicar a nova versão, citemos no parágrafo abaixo um depoimento de Antônio Soares Neto, o Toniquinho da Farmácia.

Costa Couto recolhe depoimento de Toniquinho, na época (do encontro com JK) com 28 anos: “Veio uma palpitação no meu coração e eu fiz a pergunta. Já que ele estava falando tanto em cumprir a Constituição, perguntei se caso eleito fosse mudaria a capital, conforme estava previsto no artigo 4º das Disposições Transitórias [Constituição de 1946]. Ah, ele tomou um baita susto! Sofreu um impacto grande, muito grande. Ficou quase um minuto olhando de um lado pra outro. Então respondeu que a pergunta era muito oportuna e feliz, que aquilo realmente estava consignado na Constituição e que a partir daquele momento faria daquela ideia o objetivo principal de sua campanha e de sua administração, se eleito fosse. Quer dizer: Brasília passou a ser a meta-síntese de seu futuro governo. Aí o povo ficou encantado, gostou demais! Aplaudiu, foi um delírio total. Mas um delírio mesmo! Todo mundo feliz, gritando, aplaudindo, pulando. Parece que aquilo entusiasmou muito o candidato. Eu não tinha nenhuma experiência política. Aquilo foi uma predestinação política. A gente chega a pensar que foi uma iluminação vinda lá do Alto. Porque eu nem estava pensando naquilo. Quando ele aterrissou, não tinha prenúncio de chuva não. Mas quando o cortejo chegou lá na praça e foi anunciada a presença do candidato, começou a chover. Tudo repentino! Quando fui lá pra oficina, não sabia que ia ter discurso nem nada. Depois do comício, teve um almoço e ele mandou me chamar. Fomos apresentados, tiramos retrato. Daqui ele voou para Anápolis e lá já falou no novo compromisso. Ele voltou a Jataí dois anos depois, como presidente. Tornei a tirar retratos com ele, fui chamado para o palanque. Ficamos amigos”.

Toniquinho pediu a Juscelino Kubitschek para construir Brasília em território goiano

Em nenhum momento Costa Couto diz que Toniquinho está mentindo, porque o que ele conta é um fato. O historiador apenas nuança a história, acrescentando informações. Começa sua revisão histórica com uma pergunta: “Por que o primeiro comício no quase vazio goiano, de complicado acesso e escassos eleitores?” Poderia ter sido em Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Recife, Salvador e Porto Alegre. Disseram que “que foi por ser Jataí o município proporcionalmente mais pessedista do país”. Há quem acredite “que Juscelino quis prestigiar o amigo Serafim de Carvalho, chefe pessedista local, seu colega no curso de medicina em Minas”.

Ronaldo Costa Couto, doutor em história pela Sorbonne, é um dos principais estudiosos da vida de Juscelino Kubitschek

Interiorização do progresso e integração nacional

Feita a apresentação dos mitos, o historiador faz a ressalva crucial: “Com boa vontade e ingenuidade, até poderia ser”. Acrescentando o que avalia como mais pertinente: “Juscelino quis começar no coração do Brasil porque era o ambiente e o palco adequados para anunciar a construção da nova capital e a interiorização do progresso, com ênfase em energia e transportes. A futura Brasília, centro irradiador de civilização, de desenvolvimento e da integração nacional, seria a meta-síntese de seu sonhado governo”.

Portanto, ao contrário do que pregam os que acreditam na fábula de Jataí — o seriíssimo Toniquinho fez parte da trama, mas sem o saber —, “a decisão já estava tomada. O que houve em Jataí foi o anúncio do histórico compromisso do candidato. Mais: político hábil e pragmático, consciente da forte resistência à mudança da capital, principalmente no Rio, preferiu não tomar a iniciativa de revelá-la. Melhor fazê-lo perto do local previsto, ‘surpreendido’ por justa e espontânea cobrança popular. Coisa fácil de combinar ou induzir. Solução brilhante, engenhosa, politicamente mais palatável. In­clusive junto ao poder militar, guardião da Carta Magna e tão influente durante a Guerra Fria. Como um democrata, poderia se negar a cumprir o que a Constitui­ção mandava e o que povo cobrava?”

Mauro Borges, Juscelino Kubitschek (que foi senador por Goiás) e Pedro Ludovico Teixeira

Costa Couto garante que Juscelino “chegou a Jataí sabendo de tudo. Desde o sonho mudancista dos Inconfidentes Mineiros, que queriam a capital em São João del-Rei, aos trabalhos finais da Comissão de Localização criada por decreto de [Getúlio] Vargas de junho de 1953. Que estava acabara de receber o relatório técnico contratado com a empresa norte-americana Donald J. Belcher, que mapeara, analisara e avaliara cinco sítios mutuamente excludentes para sediar a nova capital, desenhados em cores diferentes. Que os membros da comissão estavam prestes a indicar qual deles seria escolhido. Que o governo de Goiás iria ao seu limite pela causa. Cinco meses antes, em visita de pré-campanha, havia tratado do assunto com o governador goiano Juca Ludovico, como revela, em outubro de 2010, o lúcido, lépido e irrequieto coronel Affonso Heliodoro dos Santos, 93 anos, presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal, subchefe da Casa Civil do presidente”.

O relato de Affonso Heliodoro: “Juscelino escolheu começar a campanha presidencial em Jataí e lá assumir o compromisso da construção e inauguração de Brasília de caso pensado. Ia fazê-la de qualquer jeito”.

[Publicado na edição 1998 do Jornal Opção, de 20 a 26 de outubro de 2013]

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jose carlos salles

Esse maldito Juscelino como uma ideia do tempo do império, do maçom José Bonifácio, pois em plano a construção de Brasilia, endividando o estado, com desperdício de dinheiro público que poderia ter sido aplicado ao povo brasileiro. Há quase 60 anos atras, com certeza, o dinheiro gasto, inclusive, com corrupção daria para ter investido em educação, tecnologia e ciência e saúde, e o povo estaria em melhores condições do hoje. Foi um desperdício dinheiro jogado fora, sem motivo relevante. Foi o mesmo caso do dinheiro gasto com as copa do mundo e Olimpíadas. O país em situação calamitosa, vem um… Leia mais