Quando o jornalismo passou a ser considerado dispensável… e não começou agora
20 junho 2026 às 21h00

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Donni Araújo
Especial para o Jornal Opção
Nos últimos dias, uma influenciadora digital foi enviada aos Estados Unidos para produzir conteúdo relacionado à Copa do Mundo. Não para analisar esquemas táticos, entrevistar treinadores ou apurar informações sobre as seleções participantes. Sua função é gerar entretenimento, registrar experiências turísticas e transformar um dos maiores eventos esportivos do planeta em mais um produto para consumo nas redes sociais e na televisão.
A reação foi imediata, com jornalistas criticando a decisão e parte do público também. Muitos se perguntaram o que uma influenciadora teria a acrescentar à cobertura de uma Copa do Mundo.
A pergunta, contudo, talvez esteja errada.
A questão não é saber a razão pela qual uma influenciadora foi parar na Copa do Mundo trabalhando para uma rede tradicional de televisão. A pergunta mais adequada é porque isso ainda causa surpresa.
Porque o processo que permitiu essa escolha não começou recentemente. Nem surgiu com as redes sociais. Ele vem sendo construído há décadas, desde o momento em que a comunicação passou a valorizar mais a audiência do que a informação, mais a celebridade do que o repórter e mais o espetáculo do que a notícia.
O fenômeno não nasceu com as redes sociais. Nem com os influenciadores. Muito menos com a inteligência artificial.
Ele teve início decênios antes.

E digo isso não apenas como observador, mas como alguém que acompanhou essa transformação de dentro das redações ao longo de mais de quatro décadas de profissão.
Lógica da audiência
Quando comecei minha carreira, era possível encontrar nas redações uma distinção relativamente clara entre informação e entretenimento. O debate não era se jornalistas precisavam de formação. Era que tipo de formação produziria jornalistas melhores. Não se discutia se a apuração era necessária. Debatia-se como aperfeiçoá-la.
Naqueles dias, informação e entretenimento ocupavam territórios relativamente distintos. Ao longo das décadas seguintes, vi essa fronteira se tornar cada vez mais difusa. Assisti à informação perder espaço para critérios que pouco tinham a ver com jornalismo.
A televisão consolidou-se como principal meio de comunicação de massa no Brasil no decorrer dos anos de 1970 e 1980. Com ela vieram novas exigências comerciais. A audiência passou a influenciar decisões editoriais. O telespectador transformou-se em consumidor. A notícia deixou de competir apenas com outras notícias. Passou a disputar espaço com todas as formas de entretenimento disponíveis.

Não bastava informar. Era preciso prender a atenção.
O teórico canadense Marshall McLuhan, um dos mais influentes estudiosos da comunicação do século XX, observou que os meios de comunicação não apenas transportam mensagens. Eles transformam as próprias mensagens. À medida que a televisão se tornava dominante, a imagem passou a influenciar o conteúdo. O impacto visual começou a disputar espaço com a apuração.
O sociólogo francês Pierre Bourdieu aprofundaria essa crítica ao demonstrar como a busca permanente pela audiência exerce pressão sobre os critérios jornalísticos. Aquilo que deveria ser definido por relevância pública passa a ser influenciado pela capacidade de atrair atenção.
Foi nesse momento que a notícia começou a perder terreno para o espetáculo.
Não se tratava ainda da substituição do jornalista. Tratava-se da modificação dos critérios que justificavam sua existência.
Celebrização da notícia
A lógica da audiência produziu uma consequência quase inevitável. Aos poucos, a notícia deixou de ser apenas um relato dos acontecimentos e passou a depender cada vez mais da capacidade de atrair atenção.
O jornalista continuava exercendo sua função, mas já não bastava informar. Era preciso conquistar público. A comunicação começou a valorizar atributos que até então ocupavam posição secundária. Coisas como aparência, carisma, desenvoltura diante das câmeras e capacidade de estabelecer conexão emocional com a audiência.
A informação passou a precisar de personagens.
O repórter, antes visto principalmente como mediador entre o fato e o público, começou a ocupar espaço cada vez maior na própria construção da narrativa. A notícia passou a ser valorizada não apenas pelo que revelava, mas também pela personalidade de quem a comunicava.
Foi nesse período que a popularidade começou a se transformar em ativo relevante dentro dos meios de comunicação. A credibilidade continuava importante, mas já não caminhava sozinha. Gradualmente, passou a dividir espaço com a capacidade de atrair espectadores.
O educador e crítico da mídia norte-americano Neil Postman observou esse fenômeno ao analisar a influência da televisão sobre a vida pública. Em sua visão, a lógica do entretenimento não permanecia confinada aos programas de diversão. Ela acabava contaminando também a política, a educação e o jornalismo. Sem que muitos percebessem, o formato passava a influenciar o conteúdo.
Quando isso acontece, a notícia deixa de ser julgada pela sua importância e passa a ser julgada pela sua capacidade de reter atenção.

O filósofo francês Guy Debord, autor do conceito de “sociedade do espetáculo”, foi ainda mais longe ao afirmar que o espetáculo não é apenas um conjunto de imagens. É uma forma de organização da vida social. A representação passa a ocupar o lugar da realidade.
Foi nesse ambiente que a popularidade começou a competir com a credibilidade.
Notoriedade como credencial
A transformação iniciada nas décadas anteriores ganhou novo impulso nos anos 1990 e 2000. Se a audiência se tornara um fator decisivo e a figura do comunicador passara a ter importância crescente, era natural que os veículos de comunicação começassem a buscar profissionais capazes de atrair público para além do conteúdo que produziam.
Foi nesse contexto que ex-atletas, artistas e outras personalidades passaram a ocupar espaços tradicionalmente ligados ao jornalismo. Em muitos casos, não havia nada de errado nisso. Um ex-jogador pode compreender aspectos técnicos do futebol que escapam até mesmo a jornalistas experientes. Um artista pode oferecer percepções valiosas sobre o universo cultural. O conhecimento adquirido pela experiência prática tem valor inegável.
A mudança mais significativa, contudo, não estava na presença dessas figuras, mas nos critérios que passaram a orientar sua escolha.
Quando comecei minha carreira, figuras oriundas de outras áreas que migravam para a comunicação eram exceções. Em geral, eram escolhidas pela capacidade de reflexão, pela qualidade da análise ou pela experiência acumulada.
O que mudou ao longo do tempo não foi a presença dessas pessoas.
Foi o critério de seleção.
A fama começou a valer tanto quanto a competência. Em alguns casos, mais.
Durante décadas, a notoriedade funcionou como complemento. A partir de determinado momento, começou a se transformar em credencial. O reconhecimento público passou a ter peso semelhante ao conhecimento especializado, à capacidade analítica e até mesmo à experiência profissional acumulada na área da comunicação.
A cobertura esportiva oferece talvez o exemplo mais visível desse fenômeno. Ex-atletas passaram a ocupar espaço crescente nas transmissões, nos programas de debate e nos comentários especializados. Alguns se revelaram excelentes comunicadores. Outros nem tanto. O ponto central, porém, não é avaliar indivíduos, mas observar uma mudança estrutural, isto é, a fama passou a ser considerada um atributo tão relevante quanto a capacidade de interpretar fatos e contextualizar acontecimentos.
A comunicação entrava em uma nova etapa. A audiência já não procurava apenas informação. Procurava também identificação. O público queria ouvir quem havia vivido o espetáculo. E os veículos perceberam rapidamente o valor comercial dessa demanda.
Sem perceber, o jornalismo começava a dividir seu espaço não apenas com outras formas de comunicação, mas também com a lógica da celebridade.
A notoriedade transformou-se em ativo.
O conhecimento passou a dividir espaço com ela.
O diploma em questão
Em 2009, o Supremo Tribunal Federal derrubou a exigência do diploma específico para o exercício da profissão de jornalista.
A decisão não criou o processo de desvalorização do jornalismo. Quando ela foi tomada, a lógica da audiência já havia alterado critérios editoriais, a celebrização da notícia já era uma realidade e a notoriedade já começava a funcionar como credencial.
Mas seria um erro subestimar seu significado. O julgamento representou um marco simbólico poderoso.
O episódio tornou-se ainda mais emblemático pelas declarações do então relator, ministro Gilmar Mendes. Ao justificar seu voto, afirmou que a atividade jornalística não exigiria conhecimentos técnicos específicos comparáveis aos da medicina, da engenharia ou da advocacia.
Em outro momento, argumentou que a formação acadêmica não seria determinante para o exercício da profissão, observando que um excelente cozinheiro pode não possuir diploma de culinária e um grande costureiro pode jamais ter frequentado uma escola de estilismo.
A discussão nunca foi se pessoas sem diploma podem se comunicar. É evidente que podem. A verdadeira questão sempre foi outra.
Ao aproximar o jornalismo de atividades cuja prática depende predominantemente da experiência individual, aquela argumentação transmitia uma mensagem poderosa, isto é, a de que o método jornalístico, a apuração, a verificação dos fatos e a formação específica não constituíam elementos essenciais da atividade.
Mais do que uma decisão jurídica, tratava-se de uma afirmação sobre o próprio valor do jornalismo enquanto instituição social.
Mais do que uma analogia infeliz, aquela comparação expressava uma visão segundo a qual o método jornalístico não possuía valor próprio.
Existe diferença entre comunicar e fazer jornalismo?
Existe diferença entre emitir opiniões e apurar fatos?
Existe diferença entre popularidade e credibilidade?
Mais de quinze anos depois, talvez os resultados dessa escolha mereçam reflexão.
Era dos influenciadores
Quando os influenciadores digitais surgiram e começaram a ocupar espaços cada vez maiores na comunicação, muitos enxergaram naquele fenômeno uma ruptura. Parecia que uma nova lógica havia surgido para desafiar os modelos tradicionais de jornalismo e mídia.
Na realidade, talvez tenha ocorrido exatamente o contrário.
Os influenciadores não criaram uma nova lógica. Encontraram uma que já existia.

Décadas antes das redes sociais, a comunicação já havia começado a valorizar audiência, visibilidade e capacidade de atrair atenção. A notícia já disputava espaço com o entretenimento. A celebridade já possuía valor comercial. A notoriedade já funcionava como credencial. As redes sociais apenas potencializaram tendências que estavam em curso havia muito tempo.
Nesse ambiente, quem acumulava seguidores, curtidas e engajamento passou a representar um ativo extremamente valioso. Não porque dominasse técnicas de apuração ou possuísse formação específica na área da comunicação, mas porque entregava aquilo que o mercado passou a considerar essencial: atenção.
A lógica é simples. Se milhões de pessoas já acompanham determinado criador de conteúdo, por que não aproveitar essa audiência também nos veículos tradicionais?
O resultado foi a aproximação crescente entre o universo da comunicação profissional e o ambiente dos influenciadores. Em muitos casos, a fronteira entre informação, entretenimento, publicidade e opinião tornou-se cada vez menos nítida.
Portanto, talvez seja necessário admitir que os influenciadores não tenham invadido um território pertencente ao jornalismo. É possível que eles apenas tenham herdado um espaço que vinha sendo progressivamente esvaziado.
Se a atenção se tornou a principal moeda da comunicação, quem acumula milhões de seguidores passou a representar um ativo extremamente valioso.
A popularidade começou a ser tratada como sinônimo de credibilidade.
Mas popularidade nunca foi critério confiável para medir conhecimento.
Alcance nunca foi garantia de competência.
Engajamento nunca foi sinônimo de verdade.
Ainda assim, passamos a agir como se fossem.
Conteúdo sem jornalistas
Como se tudo isso não bastasse no que estava sendo traçado como futuro para o jornalismo como instituição social, a chegada da inteligência artificial levou essa transformação ao estágio mais radical.
Durante anos, o debate girou em torno da substituição de jornalistas por celebridades, comentaristas, influenciadores e criadores de conteúdo.
Agora surge uma pergunta ainda mais desconfortável.
Se o objetivo é apenas produzir conteúdo, por que limitar essa substituição a seres humanos?
Algoritmos já escrevem textos, resumem acontecimentos, organizam informações e produzem material em escala industrial.
São rápidos.
São baratos.
São eficientes.
Mas a ascensão da inteligência artificial expõe uma contradição que vinha sendo ignorada há décadas. Produzir conteúdo e fazer jornalismo nunca foram a mesma coisa.
Jornalismo pressupõe investigação, verificação, confronto de versões, contextualização e responsabilidade pública.
Conteúdo pode ser qualquer coisa.
Não se trata de tecnologia.
O problema é termos passado décadas relativizando a importância do método jornalístico.
A conta da escolha
De fato, o debate não se resume a uma influenciadora trabalhando para uma rede de televisão tradicional na Copa do Mundo. Muito menos um ex-atleta numa cabine de transmissão.
Tampouco, o ponto é a inteligência artificial escrevendo textos.
O problema começou quando passamos a acreditar que todas essas coisas eram equivalentes ao jornalismo.
Durante décadas, fomos convencidos de que formação, método, apuração e responsabilidade pública eram detalhes secundários. Em seu lugar vieram a audiência, a celebridade, o engajamento e a capacidade de atrair atenção.
Não estou falando da defesa de uma categoria profissional.
Estou falando da defesa de uma instituição essencial à vida democrática.
Porque o problema não é o que aconteceu com os jornalistas.
O problema é o que aconteceu com a sociedade.
O que acontece com uma democracia quando ela passa a considerar dispensável a atividade encarregada de verificar fatos, confrontar versões e produzir informação confiável?
Talvez a resposta esteja diante de nós.
Nunca houve tanta informação circulando.
E, paradoxalmente, nunca foi tão difícil distinguir informação de espetáculo, conhecimento de popularidade e fato de opinião.
Essa é a verdadeira conta que estamos começando a pagar.



