Euler de França Belém
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Público pressiona e Rádio Jovem Pan demite Rodrigo Constantino, que teria feito apologia do estupro

Redes sociais cobram que a TV Record também demita o comentarista. Mas a condenação nas redes sociais talvez já seja suficiente

O economista Rodrigo Constantino é autor de artigos de qualidade para a imprensa e faz comentários às vezes precisos sobre variados assuntos. Mas parece ter aderido ao excesso típico do nosso tempo e, por isso, acabou sendo demitido da Rádio Jovem Pan na quarta-feira, 4.

Rodrigo Constantino: economista | Foto: Reprodução

Ao tratar do caso de Mariana Ferrer — que, de estuprada, praticamente se tornou “estupradora”, a se aceitar a decisão da Justiça e os “ataques” de um advogado —, Rodrigo Constantino fez comentários grosseiros. Frisou que, se o estupro tivesse acontecido com sua filha, tomaria uma “decisão”: não faria nenhuma denúncia à polícia, mas a colocaria de castigo. Suas palavras: “Ela vai ficar de castigo feio, eu não vou denunciar um cara desses para a polícia, eu vou dar esporro na minha filha, que alguma coisa ali ela errou feio e eu devo ter errado… Para ela agir assim”. E acrescenta: “É um comportamento absolutamente condenável, só que a gente não pode falar mais essas coisas hoje em dia. Existe mulher decente também ou piranha. Não existe a ideia de mulher decente? As feministas querem que não [exista a ideia]”.

Ao ser demitido e começar a ser execrado nas redes sociais, Rodrigo Constantino contrapôs que não fez apologia do estupro. A rigor, é possível admitir que não fez. Mas quase fez. Ou, indiretamente, talvez tenha feito. Sua grosseria é inominável. O ex-comentarista afirma que não estava falando do caso de Mariana Ferrer. Talvez não. Mas, como o que estava se comentando era o caso dela, fica a impressão de que, sim, estava falando da jovem que foi estuprada.

A defesa de Rodrigo Constantino: “Vcs venceram uma batalha, parabéns! A pressão foi tão grande sobre a Jovem Pan, DISTORCENDO CLARAMENTE MINHA FALA, que não resistiram. Não os culpo. É do jogo. Quem me conhece e quem viu de fato sabe que eu jamais faria apologia ao estupro! Mas desde já estou fora da Jovem Pan”.

Mariana Ferrer: a vítima que transformaram em “culpada” | Foto: Reprodução

Rodrigo Constantino tem o direito de ter suas opiniões — Assis Chateaubriand disse a David Nasser, um de seus melhores repórteres: quer ter opinião, então funde o seu jornal — e as empresas e o público têm o direito de ter as suas. A Rádio Jovem Pan decidiu ficar ao lado do público — que está condenando, com razão, tanto o estupro quanto como fizeram o julgamento do homem acusado de ter estuprado a jovem. O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, criticou duramente o julgamento-aberração  — o advogado parecia se comportar como juiz, como se estivesse regendo o julgamento, tendo como auxiliar o promotor) — que mais pareceu um ato de Inquisição contra a jovem Mariana Ferrer, que, de vítima, acabou sendo julgada como “culpada” por ter sido estuprada.

A jornalista Vera Magalhães, do “Estadão” e âncora do “Roda Viva”, da TV Cultura, disse no Twitter: “Colegas e amigos da Jovem Pan: há um limite ético e civilizatório até o qual se pode chegar. Apologia ao estupro ultrapassa em muito esses limites. Ou vocês reagem a isso de maneira clara ou serão sempre confundidos com essa escória moral, esse lixo humano. Não há escolha”.

A avaliação de Vera Magalhães é dura e pertinente. Há, de fato, uma escória, sobretudo nas redes sociais, militante. Rodrigo Constantino, por sua história, faz parte dessa escória? Talvez não. Deu uma escorregada feia, talvez por aderir ao discurso excessivo de determinados programas de rádio e pelo clamor por violência, ainda que verbal, nas redes sociais. Mas deve ser demitido, agora da TV Record, pelo que disse? Não. A condenação pública já é suficiente. Caça às bruxas, sobretudo em relação a uma pessoa que não foi condenada pela Justiça — aliás, não foi nem denunciada —, não faz bem a uma sociedade democrática. Vera Magalhães sabe que José Roberto Guzzo, jornalista conservador de primeira linha, saiu da revista “Veja”, há algum tempo, porque teve um artigo censurado.

Por fim, fazer a apologia do estupro é, direta ou indiretamente, um ato criminoso. É mais do que machismo — é desumano.

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