Euler de França Belém
Euler de França Belém

Professor de Yale diz que jornalismo é indispensável e que “o futuro foi morto”

“Todos falam sobre um passado mítico que nunca aconteceu ou sobre algum tipo de crise real, imaginária ou fictícia, que está no presente. Mas perdemos a prática de falar sobre o futuro”

Escritor Timothy Snyder | Foto: Divulgação

O professor da Universidade Yale Timothy Snyder, autor do livro “The Road to Unfreedom” (“O Caminho Para a Falta de Liberdade”), inédito em português, concedeu uma entrevista ao “Estadão”, feita por Daniel Haidar.

O historiador dedica a obra aos repórteres: “Porque qualquer oportunidade que tenhamos de reverter tendências, como desigualdade, corrupção ou aquecimento global, depende do trabalho de seres humanos reais para descobrir coisas e escrever sobre o que eles investigam. Não há substituto para o jornalismo. A internet não substitui isso. Na internet, as pessoas podem repercutir coisas que outros investigaram. Mas somente humanos fazem investigações e sabem quais são as coisas que realmente importam. No caso dos Estados Unidos, se não fosse pelos jornalistas simplesmente não saberíamos o que sabemos sobre Donald Trump. Assim como os médicos nos ajudam a ser saudáveis, os repórteres nos ajudam a descobrir a verdade. Assim como a saúde, a verdade é importante, sem a qual não podemos funcionar na esfera pública em uma sociedade democrática”.

[No Brasil, no momento, o presidente Jair Bolsonaro ataca a imprensa, não por seus defeitos, mas por sua virtude básica: investigar criteriosamente, publicar tudo e não ter receio das pressões de quem está no poder.  Curiosamente, os moderadores dos excessos do presidente são generais — o vice-presidente Hamilton Mourão e Augusto Heleno Ribeiro Pereira — que não querem saber de golpe e ditadura. Acrescento que, mesmo falando pouco, o ministro da Justiça, Sergio Fernando Moro é outro fator de contenção. Democratas sabem que a democracia não precisa de tutores — seus tutores são as instituições, que estão em perfeito funcionamento —, muito menos de tutores-militares. O presidente Ernesto Geisel, quando inquirido sobre o motivo de sua decisão de “matar” a ditadura, com o apoio de Golbery do Couto e Silva, respondeu de maneira sintética: “Porque era uma bagunça”. A ditadura é feita em nome da ordem, mas acaba, como sugeriu Geisel, se transformando numa bagunça. De qualquer maneira, é mais saudável para todos uma democracia com certo grau de caos — não há mundo perfeito — do que uma ditadura organizada. Mourão e Heleno, mais preparados do que Bolsonaro, conhecem história e sabem que Geisel e Golbery estavam certos. (Frise-se que o Ph.D de Yale não discute o Brasil na entrevista; as opiniões expostas, quando o assunto é o país abençoado por Deus, são minhas, e não dele.)]

No livro, Snyder expõe “as ideias por trás das ações da Rússia contra EUA e Europa”. O pesquisador, ao examinar a história recente, elaborou algumas perguntas: “Por que o mundo” está “se tornando menos democrático”? “Por que houve alternativas reais à democracia eleitoral e por que elas pareciam estar ganhando?” O mestre sugere que está em ação um “fenômeno único”, que se estende “pelo Ocidente, vindo da Rússia, passando pela União Europeia até os EUA”. Para explicar o “problema”, o historiador começou a analisar a Rússia. (No Brasil, a vaga conservadora, que mistura conservadorismo, de Bolsonaro e Damares, e liberalismo, de Paulo Guedes, não ameaça a democracia. Apesar dos arroubos do presidente, de suas palavras iradas contra adversários políticos, não há, até agora, nenhum atentado público contra a democracia. Pelo contrário, há um dique assegurado pelas instituições e, também, pelos militares — que, insistamos, não querem golpe e ditadura. Note-se que o conservadorismo retardatário do ministro da Educação tem sido contido pela realidade. Ricardo Vélez Rodríguez está cada dia menos parecido com Olavo de Carvalho. Porque este, fora do governo e do esquadro da realidade, não precisa se adaptar aos jogos dos contrários da sociedade democrática. O ministro recua porque, inserido num quadro real, tem de aceitar as regras do jogo democrático. Vale insistir noutro ponto: apesar da grita da esquerda, Bolsonaro não é fascista, é, isto sim, um democrata com discurso conservador excessivo e primário, mas limitado pelas instituições. Não há, a rigor, um bolsonarismo, um fascismo patropi. O conservadorismo não é, frise-se, necessariamente fascista. E mais: Bolsonaro pode até desejar excluir a esquerda, mas a realidade não permite — daí a excelência da democracia.)

A morte do futuro

O “Estadão” indaga: “O Ocidente está a caminho da falta de liberdade ou não temos de nos preocupar tanto assim?” Snyder responde: “Se você não está preocupado um pouco o tempo todo provavelmente não merece viver em uma democracia. A democracia não basta por si só. Democracia significa um conjunto de regras que permite que as pessoas limitem outras pessoas. Então, devemos estar sempre um pouco preocupados. A democracia está em recuo há mais de uma década. É difícil saber onde essa tendência vai parar. A coisa mais importante que está acontecendo na política é que o futuro foi morto. Ninguém fala sobre ele. Todos falam sobre um passado mítico que nunca aconteceu ou sobre algum tipo de crise real, imaginária ou fictícia, que está no presente. Mas perdemos a prática de falar sobre o futuro”.

Ao falar sobre a Ucrânia, que precisa aprender com a história, Snyder sublinha: “Gostemos ou não, estamos na história. As coisas que já aconteceram nos oferecem lições. Também revelam barreiras e oportunidades. Mas se não temos nenhuma ideia do que aconteceu no passado ficamos desamparados. Se não pensarmos em nós mesmos, como se estivéssemos numa espécie de fluxo de tempo, que flui do passado pelo presente até o futuro, não podemos planejar nossas ações. Assim, seremos sempre surpreendidos e derrotados”.

Colhi trechos da entrevista e incluí comentários esparsos sobre o Brasil. A entrevista completa pode ser lida no “Estadão”.

Snyder é autor de livros excelentes: “Terra Negra — O Holocausto Como História e Advertência” (Companhia das Letras, 486 páginas, tradução de Donaldson M. Garschagen e Renata Guerra), “Terras de Sangue — A Europa Entre Hitler e Stálin” (Record, 616 páginas, tradução de Mauro Pinheiro) e “Sobre a Tirania — Vinte Lições do Século XX Para o Presente” (Companhia das Letras, 168 páginas, tradução de Donaldson M. Garschagen).

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