Euler de França Belém
Euler de França Belém

Professor de Stanford diz que redes sociais estão destruindo a sociedade civil

Niall Ferguson afirma que a “polarização se tornou um veneno” e sugere que a civilização está se tornando “uma não-civilização ocidental”

Niall Ferguson, professor de Stanford: “Os Estados Unidos se tornaram uma sociedade não-civilizada”

Umberto Eco (1932-2016) disse que as redes sociais possibilitaram o surgimento — e qui­çá uma hegemonia — de uma “legião de imbecis”. Antes, concentrados em bares, tomando vinho ou cerveja, “falavam sem prejudicar a coletividade. Normalmente, eles [os imbecis] eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel. O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade”. O escritor e filósofo italiano sugere que os jornais filtrem de maneira rigorosa as informações divulgadas nas redes sociais, porque, no geral, não são confiáveis.

Ao participar de um seminário da série Fronteiras do Pensamento, no Brasil, o historiador escocês Niall Ferguson — autor de livros seminais sobre a Primeira Guerra Mundial e a Segunda Guerra Mundial, além de obras sobre a decadência do Oci­dente (é autor de um livro heterodoxo no qual apresenta a tese de que o colonialismo não foi lucrativo para a Inglaterra. Trata-se de “Império — Como os Britânicos Fizeram o Mundo Moderno”, Crítica, 448 páginas, tradução de Marcelo Musa Cavallari) — segue o mesmo caminho de Umberto Eco, acrescentando sua própria interpretação. O professor de Stanford afirma que a polarização excessiva nas redes sociais está levando a sociedade “a um estado de declínio que só pode ser qualificado de “incivilidade”.

Suas interpretações foram colhidas pelos repórteres Ana Paula Ribeiro e Gustavo Schimitt, de “O Globo” (“A po­larização se tornou um veneno, diz historiador escocês”, quinta-feira, 30). “A minha preocupação hoje é que a sociedade civil foi tão erodida pelo advento das redes sociais que não podemos mais falar em sociedade civil. Os Estados Unidos se tornaram uma sociedade não civilizada. A polarização se tornou um veneno. Eu me pergunto se a civilização não está se tornando algo diferente, em uma não-civilização ocidental”, critica Niall Fergu­son. No livro “A Grande Degene­ra­ção — A Decadência do Mundo Ocidental” (Planeta do Brasil, 128 páginas, tradução de Janaina Marcantonio), o autor não arrola as redes sociais como um dos fundamentos da ruína do Ocidente.

Umberto Eco, escritor e filósofo: “Os imbecis agora têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel”

Dirigentes do Facebook e do Twit­ter não estão, sugere Niall Fer­guson, minimamente preocupados com a extensão do dano que está a­con­te­cendo no tecido social. Quanto mais barbárie, produzida ou não pela tensão ideológica, mais pessoas circulam pelas redes, aumentando seus ganhos financeiros. “Uma das consequências das redes sociais gigantes é a polarização. As pessoas se agrupam em grupos de esquerda ou de direita. O que notamos é um maior engajamento em tuítes de linguagem moral, emocional e até obscena. As redes estão polarizando a sociedade, produzindo visões extremistas e fake news”, frisa o historiador.

Há quem compare Donald Trump a Ronald Reagan, a Bush pai e a Bush filho. Apesar das limitações dos três, notadamente dos dois Bush — Reagan revelou-se um estadista muito superior ao que esperava a intelligentsia internacional —, Trump é muito mais despreparado. Sua visão de política global é unicamente americana, não incorpora nem parte das ideias de seus “aliados”. Império que se comporta tão-somente como nação isolada, como Estado fechado, não tem futuro, às vezes nem presente. Por que um político com escassa visão mundial se tornou presidente dos Estados Unidos? É provável que as redes tenham contribuído para a vitória de Trump. Pode-se não gostar de Hillary Clinton, mas não há dúvida de que é mais qualificada do que o presidente republicano. A vitória de Trump resulta da hegemonia do provincianismo dos Estados Unidos — país que é, a um só tempo, cosmopolita e caipira.

A rigor, Niall Ferguson não discute isto, mas sublinha que a ex­posição de Trump era muito maior do que a de Hillary Clinton — inclusive em Estados considerados democratas. Tudo indica, portanto, que as redes sociais funcionaram, sobretudo para o candidato republicano.

Niall Ferguson afirma que os analistas de campanhas eleitorais devem ficar atentos às redes sociais. Porque o comportamento dos candidatos, atraindo (ou não) seguidores e engajamento, pode ser decisivo no resultado do pleito. O professor de Stanford sugere que Jeremy Corbyn, do Partido Trabalhista, pode derrotar a primeira-ministra da Inglaterra, Theresa May, do Partido Conservador. Ele tem 1,6 milhão de seguidores no Twitter e ela, 416 mil. O líder trabalhista saiu na frente e já está em franca campanha.

Insensatez

Eugênio Bucci: contrariando Ferguson, o professor da USP aposta mais em insensatez do que em incivilidade

Eugênio Bucci, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, apresenta uma tese ligeiramente diversa da de Niall Ferguson. O professor diz que, mais do que incivilidade, a polarização está gerando insensatez nas redes sociais. “A tendência é que discursos exacerbados sejam favorecidos nas redes. E isso vai produzindo o efeito bolha: as pessoas que fazem parte delas dentro das redes são governadas por algoritmos e não pelo discernimento racional. O que é um paradoxo, porque tudo o que o Brasil precisa neste momento é de sensatez. Mas parece que os ventos favorecem a insensatez”, afirma o mestre. Não é uma visão apocalíptica, mas também não é integrada. É moderada.

Ao contrário do que diz Niall Ferguson, mais apocalíptico, Eugênio Bucci sugere cautela, pois não aposta que as redes sociais vão corromper a democracia no Ocidente. “As redes não podem ser definidas como mal absoluto. É bom lembrar que também representam um arejamento das democracias. E foram responsáveis por imprimir nova dinâmica nas relações entre a sociedade e o Estado”, pontua.

O professor Fabio Malini, coordenador do Laboratório de estudos sobre Internet e Cultura (Labic) da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), corrobora a tese de Niall Fergunson. A incivilidade já predomina no Brasil, sobretudo no comportamento político (o que vai além do comportamento dos políticos). “A polarização é corriqueira na política. Mas, nas redes sociais, tem um modelo específico de atenção das pessoas que influi nisso. A proximidade tem sido a tônica de como algoritmos são construídos fortalecendo bolhas ideológicas, onde há atitudes impulsivas, que redundam em decisões emocionais.”

As redes sociais são incontornáveis, quer dizer, vão continuar (goste-se ou não, são positivas). O mais provável é que, após uma primeira fase como terreno da barbárie, retome o caminho civilizatório, abrindo oportunidade ao debate entre indivíduos que pensam de maneiras diferentes a respeito de política, economia, cultura e comportamento. Isto, claro, numa perspectiva otimista. No momento, tornaram-se frigoríficos de ideias, de comportamentos e de pessoas. Talvez não seja possível piorar.

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Belo texto. ótimo para fazermos uma reflexão a respeito do papel da imprensa escrita, mais precisamente de semanários que rotineiramente, seja para quem for, desde que os pague bem, fazem um jornalismo explicitamente governista. Portanto, sem querer desfocar o assunto da matéria, penso que, em especial no nosso Goiás, como temos uma imprensa comprometida até o pescoço com o Governo do Estado e seus projetos eleitorais, somos obrigados a ler uma enorme quantidade de inverdades plantadas contra tudo e todos que se opõe ao mandatário mantenedor desses ” jornalecos descarados”. devido à esse estado de coisa é que assistimos o… Leia mais

Excelente texto. Leva à reflexão.