Euler de França Belém
Euler de França Belém

Professor de Jornalismo foi vítima de racismo sistêmico ou isolado? A distinção importa?

A agressão a um professor negro, chamado de “macaco” e “esfaqueado”, indica presença forte de racismo no país

O estudo Desigualdades Sociais por Cor ou Raça (do IBGE), com dados de 2018, mostra uma realidade alentadora: os estudantes negros (pretos ou pardos) são maioria nas instituições de ensino superior da rede pública do Brasil — 50,3%. Por mais que tenham apontado que há fraudes — pessoas que se dizem negras para serem beneficiadas pelas cotas —, o dado demonstra que o país finalmente, graças a interferência do Estado e das pressões sociais, está “incluindo” os negros (que são declaradamente 55,9% da população patropi). Luanda Botelho, analista da Coordenação pela População e Indicadores Sociais do IBGE, frisa que “aumentou a autodeclaração de pretos ou pardos entre jovens”. Antes das cotas, e também das lutas de afirmação dos negros, alguns desses jovens possivelmente se apresentavam como “brancos” (veja meu caso: sou bisneto de uma mulher negra, Frutuoza, a Tuosa, mas não sou considerado negro; dizem que sou “branco” e, por vezes, “pardo”. Não sou vítima de racismo. Aliás, só na Europa é que se assustaram comigo, insistindo com a pergunta se eu era árabe. Meu pai, Raul de França Belém, descende de sírio-libaneses). O fato é que brasileiros (não escrevi “os”) começam a se definir, a assumir suas origens (tenho imenso orgulho de minha avó Tuosa, a quem eu amava, sem, menino, dizê-lo. Tenho plena consciência de que não sou branco).

Juarez Xavier, professor de Jornalismo da Unesp, quase foi assassinado por um racista (no detalhe, o canivete do agressor) | Foto: Reprodução

Se os negros estão sendo “incluídos”, ainda que lentamente — frise-se que a escravidão foi abolida em 1888, há 131 anos —, há racismo na sociedade brasileira. Talvez se possa objetar que não se trata de um racismo sistêmico — organizado e com o objetivo de “destruir” os negros. Mas o racismo é evidente e está se mostrando violento — com palavras e atos físicos. No caso, para o professor, não importa se é sistêmico ou isolado. Ele quase foi assassinado.

Na quarta-feira, 20, Juarez Xavier, de 60 anos, professor de Jornalismo na Universidade Estadual Paulista (Unesp), depois de ofendido — foi chamado de “macaco” —, reagiu, sem violência, tão-somente inquirindo o motivo da ofensa. Vitor dos Santos Munhoz, de 30 anos, irritou-se, derrubou o mestre e o feriu com canivete.

O agressor, um jovem, furou o ombro e o tórax de Juarez Xavier e poderia tê-lo matado (o canivete não é dos pequenos, é praticamente uma faca). Fato importante é que indivíduos que viram o ato de violência conseguiram deter o jovem. Depois, ele foi preso pela Polícia Militar.

O homem racista deve ser indiciado por injúria racial e lesão corporal. E é provável que, embora tenha usado apenas um canivete, planejava matar o professor. A família alega que Victor dos Santos Munhoz tem problemas mentais. Mas isto não lhe dá o direito de agredir com palavras e canivete outro homem. E mais: a agressão, precedida da expressão da palavra “macaco”, prova que se trata de um evidente ato racista.

Não é a primeira vez que Juarez Xavier é vítima de racismo. Em 2015, na Unesp, alunos, provavelmente, picharam um banheiro e o chamaram de “macaco”. Alunas negras também foram ofendidas.

As relações raciais — entre brancos, negros e pardos — no Brasil são menos violentas do que, por exemplo, nos Estados Unidos. Há quem considere o Brasil um exemplo de “democracia racial”. É? Talvez não seja, tanto que os negros persistem sendo ofendidos por indivíduos que, se considerando brancos — às vezes, talvez nem sejam mesmo brancos —, acreditam ter o direito de chamá-los de “macacos” e de esfaqueá-los.

Vale frisar que, apesar do racismo — absurdo —, as leis estão funcionando e o agressor Victor dos Santos Munhoz certamente será penalizado, o que tende a desestimular outros agressores. Porque o racismo não acaba, às vezes torna-se oculto — note-se que a chanceler alemã está preocupada com o avanço do neonazismo na Alemanha, de novo, de matiz antissemita —, mas deve ser penalizado. A legislação atual é um avanço contra o racismo.

Quais foram as pessoas que ajudaram o professor Juarez Xavier e seguraram o agressor? Eram brancas, eram negras, eram pardas? O que fazem na vida? Um deles, Felipe Azevedo, é empresário. E é branco. O outro é gerente de um supermercado. Eles ouviram o homem chamar o professor de “macaco”. Felipe, um jovem, segurou Victor dos Santos Munhoz (a família deste pagou a fiança de mil reais).

O fato se deu em Bauru, no interior de São Paulo — o Estado mais rico e “moderno” do país.

Juarez Xavier explica por que sobreviveu

“Jamais imaginei que passaria por isso aqui [em Bauru], ser atacado por alguém que me xinga de ‘macaco’ e anda armado na rua. Isso é inaceitável. Sou capoeirista e acho que por isso estou agora falando sobre isso” — professor Juarez Xavier.

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