Euler de França Belém
Euler de França Belém

Principal adversário do presidente, a instituição, é Bolsonaro, o indivíduo. Não é a imprensa

A repórter Constança Rezende é vítima do embate ideológico e não agente de qualquer conspiração contra o presidente brasileiro

Pintura O Grito, de Munch

Certa feita, vaiado por estudantes, o presidente Juscelino Kubitschek disse mais ou menos assim: “Feliz do povo que pode vaiar seu próprio presidente”. Noutras palavras, o líder do PSD estava sugerindo que, na democracia, se pode apupar as autoridades e não há retaliação. Um dos pais da democracia americana, Thomas Jefferson, escreveu: “Se pudesse decidir se devemos ter um governo sem jornais ou jornais sem governo, eu não vacilaria um instante em preferir o último”.

O papel da imprensa é ser crítica, não importa se o político “x” é da esquerda, se o político “y” é da direita ou se o político “t” é de centro-direita ou de centro-esquerda. Se o fato é verdadeiro, se tem a ver com o interesse público, deve ser divulgado — doa a quem doer. Se o presidente está no poder há apenas dois meses e 11 dias, como Jair Bolsonaro, não resulta que o jornalismo deve “suspender” a crítica. Porque a verdade tem de valer pelos 365 dias do ano.

Não há dúvida de que a esquerda torce pelo insucesso de Bolsonaro, o que, se acontecer, vai prejudicar muito mais o país do que ao presidente. Não há dúvida de que a esquerda usa o que há de ruim contra o número um do Palácio do Planalto e seus filhos para piorar a imagem do governo.

Mas, neste momento, a esquerda não está fazendo nada de grave contra Bolsonaro. Porque não precisa. O próprio presidente, além dos filhos, fornece munição para agravar a imagem pessoal e a do governo. Os supostos malfeitos do ministro do Turismo, que está sob intenso bombardeio, não são invenções da imprensa. Ainda assim, ele é mantido no cargo pelo presidente, contrariando, inclusive, auxiliares bem próximos. A história de Fabrício Queiroz, o homem que sabe multiplicar dinheiro com uma facilidade que deve impressionar até os potentados do Itaú e do Bradesco, não foi inventada pela imprensa, que só a divulgou. Flávio Bolsonaro pode esclarecer o que está acontecendo, mas não o faz. A história de Geraldo Bebianno, ainda que silenciada, não está devidamente explicada.

O presidente Jair Bolsonaro tem de entender que precisa estar acima da guerra ideológica

O fantasma do impeachment

O contencioso de Bolsonaro com a imprensa não é fabricado pela imprensa, e sim pelo próprio presidente e alguns de seus seguidores radicais — lembrando que caso semelhante ocorreu quando Fernando Collor era presidente da República. Fica-se com a impressão de que Bolsonaro comporta-se, até hoje, como candidato, como integrante de um partido — quiçá de um movimento —, e não como presidente da República. Como presidente, tem de ser representante de todos os brasileiros, inclusive daqueles que não o apreciam. Vive-se, afinal, sob uma democracia.

A principal reserva democrática do governo de Bolsonaro está assentada nas figuras de Sergio Fernando Moro, de Paulo Guedes e de alguns generais, como os ponderados e democráticos Hamilton Mourão e Augusto Heleno. Os militares não querem “enquadrar” o Brasil, mas sabem que, se não “enquadrarem” Bolsonaro — se não contribuírem ele para guardar certa distância dos bolsões radicais, que estão mais preocupados em “extirpar” os petistas dos “poros” do governo e, aparentemente, até do país —, o Brasil não sai, de vez, da crise. Sergio Moro está absolutamente certo ao apresentar um pacote anticrime que visa conter o crime organizado de amplo espectro e raio de ação. Paulo Guedes pretende enxugar o Estado com a intenção de deixá-lo mais “leve” para a sociedade. As reformas, com a da Previdência, têm este objetivo. Tais assuntos sérios e vitais às vezes são obscurecidos pelos arroubos do presidente. Espera-se, inclusive, que sejam apenas arroubos. Mas não é apropriado, numa democracia, que um presidente “incorpore” a linguagem de radicais que falam em “extirpar” a esquerda, o petismo. Democracia é convivência dos contrários no mesmo espaço e tempo. A esquerda e a direita não podem ter suas vozes cassadas. Apreciando ou não suas diferenças, têm o dever de conviver e pensar, acima de tudo, no país e na permanência da democracia.

Aos poucos, e a duras penas, Bolsonaro vai perceber, queira ou não, que seu problema não é imprensa — que só divulga malfeitos. Seus “problemas” são a crise e a necessidade de o país voltar a crescer. Para tanto, para que o país volte ao eixo, o presidente tem de concentrar energia no que é essencial, e não perfunctório. Se tratar as críticas com mais leveza, avaliando seu conteúdo para além do ideológico — há, por vezes, más intenções —, Bolsonaro vai ganhar, pois entenderá que vai ajudá-lo a governar. Então, os brasileiros e o país serão os grandes vitoriosos.

Não há a menor dúvida de que Bolsonaro perde tempo com picuinhas, com coisas menores e, certamente por isso, desconcentra-se do que é seminal. A pendenga do momento é a história de que a repórter Constança Rezende integra uma conspiração para “derrubá-lo”.

Constança Rezende, repórter do “Estadão”

O site Terça Livre disse que a jornalista Constança Rezende tem a “intenção” de “arruinar Flávio Bolsonaro e o governo”. Os fatos são os seguintes: a repórter conversou com o “estudante Alex MacAllister” — assim se apresentou —, que expôs a ideia de fazer um estudo comparativo entre Bolsonaro e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Agora, Jawad Rhalib, que se diz jornalista, divulgou trecho da conversa gravada entre a profissional do “Estadão” e “Alex MacAllister”. A gravação, mesmo aparentemente editada, não sugere, em nenhum momento, que Constança tem a “intenção” de prejudicar ou “arruinar” o presidente e seu governo. A jornalista, na gravação, sugere que “o caso [de Flávio Bolsonaro] pode comprometer” e “está arruinando Bolsonaro”. Mas a questão decisiva é: a repórter não diz, sequer sugere, que trabalha para “arruinar” o governo e a imagem de Bolsonaro. O que comenta é, por certo, o que todos comentam.

Há outra observação a fazer. A Polícia Federal e a Agência Brasileira de Inteligência (Abin), altamente qualificadas, poderiam ter examinado toda a gravação e ter preparado um relatório para o presidente. No entanto, Bolsonaro demonstra confiar mais num site, que o apoia politicamente e é anti-esquerda, do que nos órgãos oficiais. Mais: gravar conversas com pessoas, apresentando nomes supostamente falsos, não deixa de ser uma ação próxima da criminalidade. O presidente da República tem o dever de se manter no quadro da legalidade.

O principal “adversário” do presidente, a instituição, é Bolsonaro, o indivíduo. Não é a imprensa. A repórter Constança Rezende é vítima do embate ideológico e não agente de qualquer conspiração contra o presidente brasileiro. Na verdade, a jornalista é a vítima da conspiração. Conspiração que, se há, é interna, dos aliados — que confundem pernilongos com drones —, e não externa. A rigor, neste momento, ninguém pensa em impeachment de Bolsonaro. O “fantasma” pode ser do presidente, não dos brasileiros.

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