Euler de França Belém
Euler de França Belém

Poeta, cujo primeiro livro vendeu 120 mil exemplares, morre aos 24 anos

O autor teve problemas com drogas e, tendo sofrido ameaças de radicais islamitas, havia recebido proteção policial

Pio Vargas, poeta brasileiro, morreu aos 26 anos, em 1991 — de uma overdose de cocaína — quando estava firmando sua voz literária. Grande promessa, deixou uma obra de qualidade — à espera de uma avaliação crítica tanto nuançada quando distanciada (parte de seus leitores, até alguns críticos, se comporta como fã). Yahya Hassan, poeta dinamarquês de origem palestina, morreu no dia 29 de abril, numa quarta-feira, com 24 anos (faria 25 anos no dia 19 de maio).

Yahya Hassan, poeta dinamarquês de origem palestina | Foto: Reprodução

Segundo reportagem da agência EFE, publicada pelo jornal “ABC”, da Espanha, Yahya Hassan “foi encontrado sem vida, em sua casa de Aarhus, cidade na qual nasceu e cresceu, em um gueto muçulmano”. A causa da morte não foi divulgada.

Em 2013, o poeta publicou um livro, com o título de “Yahya Hassan” — seu nome —, e vendeu, de cara, 120 mil exemplares. Trata-se do “livro de poesia de um estreante mais vendido na história da Dinamarca”. O impacto foi grande no país, gerando debate sobre a obra e, também, sobre o escritor — de vida controvertida.

“Seus poemas duros e diretos sobre seu crescimento em uma família disfuncional, sua crítica aos círculos islamitas e seu peculiar estilo ao recitar o tornaram uma promessa da literatura dinamarquesa e um fenômeno social, que foi traduzido para vários idiomas”, afirma a reportagem.

Yahya Hassan ganhou vários prêmios literários prestigiosos na Dinamarca, como o criado pelo “‘Politiken’, principal diário do país”.

O poeta era crítico do estado do bem-estar da Dinamarca. Ele apreciava destoar do coro dos contentes.

Ameaçado de morte por radicais islâmicos, Yahya Hassan “teve de receber proteção policial”.

Já famoso, teve problemas com a Justiça, por causa de “episódios violentos e posse de drogas”. Chegou a ser internado num hospital psiquiátrico.

Em novembro de 2019, o bardo lançou “Yahya Hassan 2”, “outro livro de poemas autobiográficos”. O livro levou-o “a ser indicado para o prêmio de literatura do Conselho Nórdico, um dos mais prestigiosos da Escandinávia”.

Como Pio Vargas, Yahya Hassan, buscando firmar sua voz poética, tentava consolidar sua singularidade literária. Para além da fama. Não teve tempo. Ficará como um Rimbaud ou um Radiguet? Talvez não. Talvez sim. O tempo, mestre da razão, dirá.

Yahya Hassan escrevia com letras maiúsculas. Talvez fosse sua forma de gritar, digamos assim.

INFÂNCIA

Poesia de Yahya Hassan

CINCO FILHOS EM FILA E UM PAI COM UM PAU

MÚLTIPLOS CHOROS E UMA POÇA DE URINA

ESTENDEM SEMPRE A MÃO

POR ISSO A PREVISIBILIDADE

ESSE SOM QUANDO LHE ALCANÇAM OS GOLPES

A IRMÃ QUE PULA RÁPIDA

DE UM PÉ A OUTRO

A URINA É UMA CATARATA QUE LHE DESCE PELAS PERNAS

PRIMEIRO UMA MÃO ESTENDIDA LOGO A OUTRA

PASSA-SE LONGO TEMPO OS GOLPES CAEM ALEATORIAMENTE

UM GOLPE UM GRITO UM NÚMERO 30 OU 40 ÀS VEZES ATÉ 50

E UM ÚLTIMO PAU NO CU AO SAIR PELA PORTA

ELE PEGA MEU IRMÃO PELOS OMBROS O ENDIREITA

CONTINUA PEGANDO E CONTANDO

E OLHO PARA O CHÃO ESPERANDO MINHA VEZ

MÃE QUEBRA PRATOS NA ESCADA

AO MESMO TEMPO EM QUE A TV AL JAZEERA TRANSMITE

HIPERATIVAS ESCAVADEIRAS E COLÉRICAS PARTES DO CORPO

A FAIXA DE GAZA AO SOL

QUEIMAM-SE BANDEIRAS

SE UM SIONISTA NÃO RECONHECE NOSSA EXISTÊNCIA

SE É QUE EXISTIMOS

QUANDO OFEGAMOS ANGÚSTIA E DOR

QUANDO ESTAMOS BOQUIABERTOS BUSCANDO AR OU SENTIDO

NA ESCOLA NÃO NOS DEIXAM FALAR ÁRABE

EM CASA NÃO NOS DEIXAM FALAR DINAMARQUÊS

UM GOLPE UM GRITO UM NÚMERO

Tradução de Rut de las Heras Bretín. Texto com tradução livre a partir de “Yahya Hassan: ‘El dolor es una fuerza motriz'”. A versão do poema seguiu a tradução espanhola.

Confira mais informações no link

http://www.blogletras.com/2014/11/a-poesia-de-yahya-hassan.html

Poemas traduzidos para o espanhol pela Editora Suma

A LA PUERTA

ROSQUILLA NAVIDEÑA EN MANO ME METÍA EN UN ARMARIO

APRENDÍ A AMARRAR EL CORDÓN DE MIS ZAPATOS EN SILENCIO

DECORÉ NARANJAS CON ESPECIAS Y CINTAS ROJAS

COLGABAN DEL TECHO COMO MUÑECAS DE VUDÚ

ASÍ RECUERDO EL KINDERGARTEN

LOS OTROS ESPERABAN A PAPÁ NOEL

PERO YO LE TENÍA TANTO MIEDO

COMO A MI PADRE

SALAM HABIBI

YO PULÍA UN PEDAZO DE MADERA EN LA ESCUELA

CUANDO EL MAESTRO ME ENTREGÓ EL TELÉFONO

QUE USABA PARA LLAMAR A MI PADRE

QUÉ HE HECHO AHORA PREGUNTÉ

Y PUSE EL TELÉFONO AL OÍDO

PERO ERA MI MADRE

DIJO QUE SE HABÍA IDO

ME PUSE A LLORAR

LA NOCHE ANTERIOR NOS HABÍAN DEJADO EN LA SALA

LA PUERTA DE LA ALCOBA PERMANECÍA CERRADA

RUIDOS ADENTRO Y UNA MIRADA POR EL OJO DE LA CERRADURA

MAMÁ CON UN CABLE AL CUELLO

YO EMPUJÉ LA PUERTA Y ÉL SE SOLTÓ EL CINTURÓN

YA ME HABÍA DICHO QUE PERMANECIERA EN LA SALA

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