O Brasil é um país relativamente “estranho”, talvez como todos os outros, quando se trata de tradução de poesia. O britânico Philip Larkin é, sem dúvida, um poeta extraordinário. Mas, exceto por poemas esparsos, não há nenhum livro de sua autoria publicado no Brasil.

Jorge Wanderley e Abgar Renault traduziram três poemas de Philip Larkin. Abaixo, o leitor verá quatro poemas, mas “Partida” e “Indo” são o mesmo poema (recomendo, por sinal, que o leitor verifique, logo no início, uma discrepância mínima entre as versões).

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Philip Larkin: poeta britânico | Foto: Reprodução

Philip Larkin tem o porte de T. S. Eliot e Auden. Portanto, não sei por que não foi traduzido. O livro “Os Bastidores” (Companhia das Letras, 592 páginas, tradução de José Rubens Siqueira), de Martin Amis, e “¿Cómo Fue Que Todo Salió Bien?” (Entropía, 411 páginas, tradução de Juan Nadalini), de Al Alvarez, contêm histórias memoráveis do poeta relativamente recluso.

“A mente sofre. Não por remorso — o bem não/ Feito, o amor não dado, os anos e anos mal/ Gastos, apenas jogados no lixo, ou então/ Tentando consertar um erro inicial;/ Mas pela ideia de um total e eterno nada’.” — Philip Larkin

(O livro de Amis é um romance-ensaio literário — e até, quem sabe, uma “oficina literária” sobre a arte de escrever. As memórias de Alvarez são uma delícia. Os dois autores conheceram Larkin e apreciam sua poesia complexa e desnorteante. O inglês não escrevia para agradar, e sim para estremecer a alma, digamos.)

Philip Larkin chega ao Brasil da melhor maneira possível, com edição da Companhia das Letras e, sobretudo, tradução de Paulo Henriques Britto, um dos mais qualificados tradutores de poesia. “O Lar É Tão Triste e Outros Poemas” conta com posfácio de autoria do tradutor.

Philip Larkin capa de poesia 500

Release da Editora Cia das Letras

“Reunião de 45 poemas representativos da produção de um dos principais poetas britânicos do século XX, desde sua estreia — com ‘North Ship’, de 1945 — até sua última coletânea, ‘High Windows’, de 1974, além de poemas não publicados em livro. Edição bilingue.

“A obra de Philip Larkin pode ser resumida em um mote: a desesperança. Seus versos tratam da dificuldade do eu lírico de se relacionar com os outros e de encontrar propósito em percorrer o destino esperado — crescer, casar, ter filhos. Essa descrença, abordada em tom extremamente lógico e por vezes cínico, confere aos poemas uma visão pessimista e pragmática sobre o significado da vida.

“O poeta Paulo Henriques Britto, responsável pela organização e pela tradução deste volume, comenta a inventividade e os temas caros ao autor: ‘O medo de morrer, a rejeição ao casamento e a ojeriza às crianças (que Larkin afirma numa carta) apontam todos num mesmo sentido: uma incapacidade de aceitar — tanto no plano racional quanto no emocional — algumas condições básicas e inescapáveis da experiência humana’.

Philip Larkin foto reprodução ok1de500

“Com uma produção que pode ser considerada breve, inicialmente marcada pela influência de poetas como W. H. Auden e W. B. Yeats, Larkin notabilizou-se por retratar o vazio existencial, como evidencia o magistral poema ‘Aubade’ (‘Alba’): ‘A mente sofre. Não por remorso — o bem não/ Feito, o amor não dado, os anos e anos mal/ Gastos, apenas jogados no lixo, ou então/ Tentando consertar um erro inicial;/ Mas pela ideia de um total e eterno nada’.”

O lançamento do livro de Philip Larkin está previsto para 27 de outubro deste ano.

2 poemas de Larkin em tradução de Jorge Wanderley

1

Dias

Para que servem os dias?

Os dias o são lugar que vivemos.

Eles chegam, nos acordam,

Sempre e de novo.

São feitos para sermos felizes neles:

Onde podemos viver senão nos dias?

Ah, a resposta a esta questão

Traz o padre e o doutor

(Em seus casacos longos)

Correndo, pelos campos…

2

Partida

Há um anoitecer se aproximando

Através dos campos; um que jamais foi visto

E que não acende lâmpada alguma.

À distância parece de seda, embora

Quando puxado por sobre os joelhos e o peito

Não traga nenhum conforto.

Para onde foi a árvore, que atava

A terra ao céu? Que há sob as minhas mãos

Que não posso sentir?

Que força atrai minhas mãos para baixo?

[Os dois poemas foram retirados do livro “22 Ingleses Modernos — Uma Antologia Poética”, Editora Civilização Brasileira, organização, tradução e notas de Jorge Wanderley)

2 poemas de Larkin traduzidos por Abgar Renault

1

Indo

Há uma tarde chegando

através dos campos, nunca vista antes,

que não acende lâmpada.

De seda ela parece na distância; todavia,

Quando se detém nos joelhos e no peito,

não traz nenhum consolo.

Aonde foi a árvore que fechava

A terra ao céu? Que está sob as minhas mãos,

que não posso sentir?

Que faz pender para o chão as minhas mãos?

2

Necessidades

Além de tudo isso, este desejo de estar só,

por mais que o céu fique escuro de cartões de convite,

por mais que sigamos as direções impressas do sexo,

por mais que a família esteja fotografada sob o mastro da bandeira…

Além de tudo isso, este desejo de estar só.

Sob tudo, este desejo de esquecimento corre:

a despeito das ardilosas pressões do calendário,

do seguro de vida, da lista dos ritos de fertilidade,

da penosa aversão dos olhos à morte…

Sob tudo, este desejo de esquecimento corre.

[Dois poemas extraídos do livro “Poesia — Tradução e Versão”, de Abgar Renault, Editora Record]