Euler de França Belém
Euler de França Belém

“Permanência de Bolsonaro é fatal para a nova direita”, diz cientista política Camila Rocha

A doutora em ciência política pela USP afirma que o presidente “é um obstáculo para a nova direita”

Pode-se falar na existência de direitas — e não direita — no Brasil. Há uma direita que acredita que, longe de Jair Bolsonaro, o Brasil não tem salvação. Mas há outra direita que postula que, com o presidente, o país terá dificuldade para atrair investimentos e se reposicionar entre os maiores do PIB em termos globais.

As direitas são poucas estudadas, porque, no geral, são vistas, sobretudo devido às ações e linguajar de Bolsonaro, como “bárbaras”. A doutora em ciência política Camila Rocha de Oliveira é uma das poucas scholars que se propõem a examinar a sério — e não apenas para “atacar” — as direitas patropis. É autora de um livro importante, resultado de sua tese de doutorado na Universidade de São Paulo: “Menos Marx, Mais Mises — O Liberalismo e a Nova Direita no Brasil” (Todavia, 240 páginas). Ela é expert na nova direita brasileira.

Camila Rocha: cientista política | Foto: Reprodução

Na sexta-feira, 3, o repórter Guilherme Caetano, de “O Globo”, publicou uma entrevista de Camila Rocha, com o título de “Pesquisadora diz que Bolsonaro aposta ‘todas as fichas’ em atos e que relação do presidente com a direita é ‘frágil’”.

A relação de Bolsonaro e a direita está, hoje, “muito fragilizada”. Camila Rocha afirma que, “com a pandemia, piorou. O governo está dependendo muito de forças que não são organizadas via política institucional, como parte das Forças Armadas e das polícias, e outra que até é organizada politicamente, como alguns setores dos evangélicos, mas cujo apoio é condicionado ao atendimento de certas demandas”.

No momento, há uma crise entre Bolsonaro e os dirigentes de bancos, das indústrias (Fiesp) e do agronegócio. As três áreas não querem saber de golpe de Estado e primam pela defesa da democracia, das instituições. Quando concedem entrevistas, e assinam manifestos, estão dando um recado para o presidente, para a sociedade e para o mercado externo. “Tem gente [na direita] procurando uma candidatura alternativa [para presidente, em 2022]”, sublinha Camila Rocha. Mas a cientista política ressalva que ainda é cedo para conclusões. João Doria (PSDB), governador de São Paulo, e Rodrigo Pacheco (DEM, a caminho do PSD), presidente do Senado, são nomes palatáveis para os homens de negócios. “Mas as pessoas da direita tendem a dizer: ‘Olha, por mais que esteja decepcionado com Bolsonaro, votarei nele porque vai ser o menos pior”, assinala a pesquisadora.

Camila Rocha frisa que “Bolsonaro está entregando pouco do que prometeu. O principal, para o mercado, é resultado econômico. A inflação disparou, e isso é muito importante para eles. Mas isso não quer dizer que todo esse desgaste institucional não seja relevante. Eles sabem que, para atingir algum patamar de estabilidade econômica, um mínimo de estabilidade política é fundamental”. Paulo Guedes, quiçá o único realmente liberal no primeiro escalão do governo, perdeu parte de sua credibilidade junto aos homens do PIB. Não porque deixou de ser liberal — na verdade, continua um chicago-old —, e sim por ter perdido influência para outros setores, como o “gastador” Rogério Marinho, suposto “pai” do orçamento secreto (que permitiu que deputados e senadores se tornassem não elaboradores de projetos, e sim distribuidores de tratores no interior do país).

Guilherme Caetano inquire sobre qual “parte direita vai embarcar nos atos” de 7 de setembro. “O núcleo duro do bolsonarismo, que a gente calcula ser entre 12% e 15% do eleitorado. Fazem parte de uma direita mais radical, mas há pessoas, não necessariamente extremistas, que enxergam o STF como uma Corte mancomunada com a esquerda, que age para prejudicar o governo. Sentem que Bolsonaro acaba ficando pressionado por um Congresso corrupto e tem que ceder para continuar no poder. E tem um setor importante que é o das Polícias Militares, historicamente ignoradas politicamente tanto pela esquerda quanto pela direita. Elas têm demandas trabalhistas reprimidas e veem no Bolsonaro uma voz que pelo menos parece ecoar suas demandas”.

Sobre a nova direita, a cientista política informa: “É uma nova força política que começou a se formar ainda no primeiro governo Lula, em meio ao período em que eclodiu o escândalo do mensalão. Eles fazem uma defesa mais radical do livre mercado, eliminação de direitos constitucionais e trabalhistas e um conservadorismo muito mais programático do que era defendido antes pela direita tradicional. Eles também acham que o presidencialismo de coalizão deve ser substituído por outra forma de governar, como semiparlamentarismo, parlamentarismo ou até monarquia”.

Camila Rocha sugere que, sem Bolsonaro, a nova direita pode sair “fortalecida”. “É muito melhor para ela, porque Bolsonaro é um obstáculo para a nova direita. Bolsonaro não deixa espaço nenhum para divergência, para pluralidade no campo das direitas. Ele demite as pessoas (que discordam dele), abandona aliados. Não é alguém com quem dá para compor. A permanência de Bolsonaro é fatal para a nova direita”.

Leia mais sobre Bolsonaro e a direita

Bolsonaro pode ser o responsável pelo “suicídio” político da direita brasileira

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.