Euler de França Belém
Euler de França Belém

Pelé, “em vez de 15 minutos de fama, terá 15 séculos”, disse Andy Warhol

O Rei driblava e chutava bem, tinha uma energia poderosa. E, gênio, era taticamente inteligente e objetivo

Pelé, o Rei: menino já era um gênio do futebol | Foto: Reprodução

Edson Arantes do Nascimento nasceu em 23 de outubro de 1940, na cidade mineira de Três Corações, e completou 80 anos na sexta-feira, 23. João Ramos do Nascimento, Dondinho, e Celeste Arantes, seus pais, eram pessoas humildes. O prenome Edson foi escolhido como homenagem ao americano Thomas Edison. O nome do menino patropi perdeu o “i”, mas o plebeu de Minas, as Gerais de Carlos Drummond de Andrade e Guimarães Rosa, se tornou majestade — talvez o brasileiro mais conhecido da história. Consta que até a bola “ajoelhava-se” ante seus pés aristocráticos.

O esporte gera gênios? Claro. Pelé, o Edson — que trata Pelé como personagem, o que é —, é um gênio do futebol, não “um” craque, mas “o” craque. O seu título de rei é vitalício, porque ninguém, nem mesmo Maradona, Cruyff e Messi (sua objetividade lembra a de Pelé), pode competir com o brasileiro em majestade. Há vários nobres no futebol, como os três citados, mas, rei, só um.

Na revista “Veja”, o jornalista Fábio Altman afirma que, depois de sugerir que, “no futuro, todo mundo será famoso por 15 minutos”, Andy Warhol acrescentou ou se corrigiu: “Pelé é um dos poucos craques que contrariam minha tese. Em vez de 15 minutos de fama, terá 15 séculos”. Difícil discordar do artista plástico americano.

Pelé jogava para si e para seu time, o Santos ou a Seleção Brasileira: era o craque do futebol tão vistoso quanto objetivo | Foto: Reprodução

Fisicamente, Pelé, com 1,73m, não era (não é) um gigante. Mas, em campo, parecia ter 2,73m. Quando surgia na frente de um adversário, com seu preparo físico excepcional e uma inteligência ímpar — parecia ter quatro olhos: dois na frente e dois na nuca —, não havia quem não tremesse. Os súditos, mesmo adversários, às vezes caíam antes do drible fulminante e sagaz. Pelé era um artista-arteiro — mais do que Garrincha, outro gênio, de cariz mais intuitivo e artístico (não raro faltava-lhe objetividade, mas, em sã consciência, pode-se cobrar objetividade de um mago como Garrincha?). Jogava para si, sabendo que, assim, estava jogando para o time. “Além do brilho e da magia, o Rei jogava com grande objetividade”, disse Tostão, o melhor analista de futebol do país.

Autor de 1281 gols (que fez mesmo, diferentemente de alguns jogadores que contam até gols que fizeram quando usavam fraldas), em 1363 jogos, Pelé fazia o jogo girar em torno dele. Não por que quisesse, e sim porque o time adversário sabia que seus 11 jogadores — inclusive o goleiro — tinham de ficar de olho num único atleta, aquele que decidia, mesmo quando estava “parado”. O fato é que, embora fosse o rei, Pelé “permitia” que seus companheiros de jornada também brilhassem, caso de Coutinho e Clodoaldo. Porque, como era super marcado, os demais ficavam livres para jogar e marcar gols.

Pelé: o Rei do futebol que, aos 80 anos, não perdeu a majestade e, por isso, não foi e nunca será “deposto” | Foto: Reprodução

Torço para o Santos desde 1970, pelo menos. Antes, por causa de Pelé. Meu pai, Raul, sabendo que eu admirador do craque, dizia: “Você não torce para o Santos. Você é torcedor do Pelé Futebol Clube”. Não estava errado, não. Comecei a torcer para o Santos por causa de Pelé, o artilheiro de futebol vistoso e, repetindo Tostão, objetivo.

Em campo, quando fazia uma bela jogada, que resultava em gol ou não — e às vezes a jogada era tão fantástica que todos aplaudiam mais do que o próprio gol —, Pelé parecia um escultor, como Rodin. As jogadas eram esculpidas, com aquela perfeição dos mestres dos mestres.

Machado de Assis atualizou o Brasil, em termos literários, entre o século 19 e o início do século 20. Morreu em 1908, mesmo ano em que nasceu Guimarães Rosa, o escritor que, igualmente, tornou o Brasil contemporâneo tanto de James Joyce, autor de “Ulysses”, quando de William Faulkner, autor de “O Som e a Fúria”. Pois Pelé, negro, como Machado de Assis, pôs o futebol do Brasil no circuito internacional. Poucas vezes o mundo ajoelhou-se aos pés de um brasileiro. Aos pés de Pelé, todos, sem distinção, se ajoelharam e ainda se ajoelham. Eu, claro, entre eles.

Sabe o dia em que a Corte, os Estados Unidos, se tornou Colônia do Brasil? Pois sim: Pelé, ao jogar no Cosmos, conquistou o coração dos americanos. O futebol dos EUA só melhorou com a presença do mestre dos mestres em seus gramados.

Dizem: “Pelé não é perfeito, pois não quis assumir uma filha, exceto sob pressão da Justiça”. De fato. Mas ninguém, nem os que se acham, é perfeito. O mundo seria chatíssimo e unidimensional se a maioria das pessoas fosse perfeita. De quem, afinal, falaríamos mal? Dos perfeitos, claro, que se tornariam imperfeitos.

Mais do que moderno, Pelé é eterno. Para além dos 15 séculos previstos por Andy Warhol.

Jairzinho, o Furacão da Copa do México

Jairzinho Furacão: quando arrancava para o campo adversário, como na Copa do México, gritava-se “gol!” | Foto: Reprodução

Abre-se um parêntese para, quem sabe, contribuir para, um dia, abrir as cortinas para o carioca Jair Ventura Filho — Jairzinho Furacão, o príncipe do Botafogo e da Seleção Brasileira. Ele tem 75 anos e merece uma biografia.

Um centímetro mais alto do que Pelé — 1,74m —, Jairzinho, na Copa de Futebol do México, fez gols em todas as partidas. Jogou muito bem, levando a Seleção Brasileira adiante nos melhores e nos piores (poucos) momentos. Era um ponta-direita veloz e forte como um touro. Era quase impossível segurá-lo, com ou sem falta. Escapava, de maneira rápida, rumo ao gol. Quando não fazia o gol, servia aos companheiros com eficiência.

Numa seleção de craquíssimos, como Pelé, Gérson, Tostão e Rivellino, não era fácil aparecer. Jairzinho brilhou mesmo assim — o que mostra um talento superior. Ele fazia parte da “orquestra” mas também era “solista”.

Jairzinho: prestes a completar 76 anos, o Furacão merece uma biografia | Foto: Reprodução

Em 1970, aos 9 anos, vi a Copa do México — maravilhado com nomes como Guadalajara e Jalisco (Estado cuja capital é Guadalajara) — numa televisão preto e branco, com chuviscos, na casa de um vizinho, o cartorário João Borges, em Porangatu. Diga-se que, na verdade, eu apreciava muito mais ouvir os jogos no rádio, nas vozes de Jorge Curi e Waldir Amaral. Era mais emocionante. Ouvir Mário Vianna, com “dois enes”, criticar os árbitros, com o máximo de rigor — dizia “lamano” e “gol le… gal” —, era impagável.

Era minha primeira copa, pois, em 1966, com 5 anos, não entendia muito do assunto. Fiquei encantado e tinha inclusive álbum de figurinhas. Lembro-me que todos elogiavam Pelé, Tostão, Rivellino, Gerson, Clodoaldo (que era admirado demais, pelo excelente futebol e por sua vitalidade) e Carlos Alberto, o grande “Capita”. Mas o jogador que eu (e outros meninos) mais admirava era Jairzinho, que, embora não fosse tão alto, parecia um gigante quando aparecia na frente dos adversários, deixando-os para trás. Quando o Furacão arrancava, eu começava a gritar “gol!”.

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