Euler de França Belém
Euler de França Belém

Paradoxo do Brasil: o presidente é autoritário mas a imprensa é livre para criticá-lo

A imprensa patropi está sendo perseguida por Jair Bolsonaro? Certo é que está sendo duramente criticada, mas talvez nunca tenha sido tão livre

Paradoxo: o Brasil tem um presidente autoritário — Jair Messias Bolsonaro, de 65 anos — e uma imprensa absolutamente livre.

Se a imprensa é livríssima, podendo publicar o que quiser — dentro dos limites do decoro mínimo, quer dizer, do respeito às leis —, e se tem um presidente autoritário, o que é, afinal, o Brasil?

O Brasil, prova-o a imprensa livre — crítica ao poder e aos poderosos —, é um país democrático. Totalmente democrático.

A rigor, há perseguição a jornalistas, como dizem organizações nacionais e internacionais? De fato, o presidente Bolsonaro excede nas suas críticas e aliados excedem nas baixarias, por exemplo contra a extraordinária repórter Patrícia Campos Mello, da “Folha de S. Paulo”. Mas, ao menos até agora, o Estado, via seus representantes, não está tentando proibir jornalistas de publicarem o que quiserem.

A imprensa patropi vive um de seus melhores momentos na acidentada história do país. Pode dizer o que quiser e o presidente, com vocação para ditador — um capitão com sonhos de general —, nada faz para impedi-la de reportar, analisar e criticar. Palavrões, seguidos de discurso acerbo, não são o mesmo que censura, que vetos institucionais.

Há coisas cruciais na democracia autêntica. Citemos duas.

Primeiro, um país democrático resiste a quaisquer intempéries — inclusive a um presidente errático e destemperado como Bolsonaro. Quatro anos, e mesmo oito anos — afinal, o país resistiu ao governo também errático de Dilma Rousseff —, passam rápido. Podem até parecer uma eternidade. Mas não são. A democracia vai fazendo testes até se fortalecer e (o eleitor) fazer escolhas melhores.

Segundo, por mais que se reclame — Bolsonaro fala até em “cassar” a concessão da TV Globo (o que certamente não fará, não por que não queira, e sim porque, se tentar, não vai conseguir, o que o desmoralizará) —, a imprensa, mesmo numa crise econômico-financeira duradoura (e letal para alguns veículos), está livre para mostrar os equívocos do governo federal (e não só, é claro). Imprensa livre, publicando tudo o que avalia como correto, é vital para a democracia. E, como sabemos, a imprensa brasileira é, no momento, uma das mais livres do mundo. Sinal de que a democracia tropiniquim, por mais que se alardeiem ameaças — como a volta do AI-5 (segundo o deputado Eduardo Bolsonaro) —, é sólida.

O ótimo Guga Chacra pode parar de descabelar-se, na GloboNews: a imprensa patropi é mais livre do que James Bond. Não para matar, é certo, mas para criticar. Na crítica, notadamente nos veículos do Grupo Globo e na “Folha de S. Paulo”, está se aproximando, digamos assim, da figura do Justiceiro? Talvez não. Mas precisa examinar-se com mais cuidado, pois emissoras de televisão e jornais não podem se tornar os Bolsonaros do jornalismo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.