Elder Dias
Elder Dias

Papa Francisco e sua reverência à imprensa por mostrar os escândalos da Igreja

A verdade é o que de melhor o jornalismo pode oferecer ao mundo, ainda que muitas vezes o arauto seja sacrificado por quem preferem criar a própria realidade

Papa Francisco pede que políticos olhem pelos pobres e o meio ambiente | Foto: Blog Ney Vital

O negacionismo é exatamente o oposto de um preceito bíblico bem explícito, que, por coincidência e uma certa ironia já previsível, é também o lema do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) desde a campanha eleitoral:

“Conhecerei a verdade e a verdade vos libertará” (Jo 8, 23)

Traduzindo para não cristãos, o código ao fim da frase significa que a citação é o versículo 32 do capítulo 8 do Evangelho de São João.

Pois no sábado, 13, o papa Francisco deu uma demonstração, ao mesmo tempo de grandeza e humildade ao salientar a busca do jornalismo pela verdade, e em uma situação muito delicada. O Santo Padre entregou as insígnias de Dama e Cavaleiro da Grã-Cruz da Ordem Pia a dois jornalistas vaticanistas: Valentina Alazraki e Philip Pullella. Francisco os saudou como “companheiros de viagem”, pelos inúmeros encontros desde 2013 – quando assumiu o trono de Roma – em aviões, celebrações e encontros.

Mas a menção honrosa não ficou restrita à dupla que acompanha a rotina da cúpula da Igreja desde a década de 70. O papa estendeu a homenagem a toda a “sua comunidade de trabalho” que considera precioso. “O jornalismo não acontece escolhendo uma profissão, mas embarcando em uma missão, como um médico, que estuda e trabalha para que no mundo o mal seja curado.”

Não foi, porém, um simples rapapé para repórter. Foi muito mais profundo e significativo diante do que ele próprio chamou de “missão” da instituição imprensa. E aqui vem uma declaração que talvez outro papa não fizesse, ou não de forma tão direta: “Agradeço a vocês pelo que nos dizem sobre o que está errado na Igreja, por nos ajudar a não esconder isso embaixo do tapete, e pela voz que vocês deram às vítimas de abuso.”

As “vítimas de abuso” a que Francisco se refere são pessoas que foram abusadas por sacerdotes e bispos nas últimas décadas e cuja divulgação trouxe escândalos à tona. É a verdade, dolorosa, que sobressaiu ao silêncio diante do poderio de uma batina que matava aos poucos todos esses “pequeninos”, para se referir a outro termo bíblico dos evangelhos.

Não foi à toa que o papa Francisco se tornou papa por uma via heterodoxa: o então papa Bento XVI renunciou e abriu caminho para que o cardeal Jorge Bergoglio se tornasse o Sumo Pontífice da Igreja, em 2013. O argentino tinha disputado votos acirradamente com o alemão Joseph Ratzinger em 2005. Este venceu, mas, anos depois, com os rumos que havia tomado a Igreja e o mundo, teve a serenidade de entender que melhor seria se o papa fosse, naquele momento, o preterido no conclave que lhe deu a cadeira. A história está muito bem contada em Dois Papas (2019), filme do brasileiro Fernando Meirelles.

Francisco está escolhendo a verdade, ainda que ela doa. É o que de melhor a imprensa pode oferecer ao mundo de hoje, ainda que, muitas vezes, o arauto seja sacrificado por ideologias e autoritarismos que preferem criar sua própria realidade, na qual jornalistas sérios serão sempre um estorvo.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.