Euler de França Belém
Euler de França Belém

Papa Francisco defende jornalismo livre. Mas e se isto for ficção?

O que Francisco está postulando é um jornalismo que defenda mais a sociedade, e não apenas interesses de grupos

O papa Francisco está mais atualizando do que mudando a Igreja Católica — o que, longe de ser pouco, é um grande feito. Jorge Mario Bergoglio, argentino de 82 anos, é um dos religiosos mais admiráveis da atualidade. Trata-se de um humanista e, ao mesmo tempo, um modernizador. Antes de tudo, é um realista, que sabe de seus limites porque preside, como uma espécie de majestade, um império. Sabe-se que impérios, com estruturas milenares, resistem a mudanças estruturais, sobretudo quando muito rápidas. Por isso, o jesuíta avança um passo, conquista uma posição e a mantém, depois avança outro passo — quase tudo lentamente, mas, do ponto de vista de alguns integrantes da Igreja Católica, tudo muito rapidamente. A questão da sexualidade — que vai além da homossexualidade e da pedofilia — tem sido administrada com rigor, mas com amplo direito de defesa.

Papa Francisco: o religioso está modernizando a Igreja Católica | Foto: Reprodução / Vaticano

Convém não esquecer que Francisco é jesuíta e, na sua tradição guerreira, os jesuítas não costuma recuar. Se tiver saúde, mantendo a lucidez e a energia para gerir mudanças, o papa certamente vai “recriar” a Igreja Católica, tornando-a, ainda que parcialmente, contemporânea de seus seguidores. Se não o fizer, verá seus integrantes pregando uma coisa, inclusive sobre sexualidade, e fazendo outra, completamente diferente do dogma.

Se o papa é extraordinário, do ponto de vista litúrgico e das ideias, às vezes diz coisas que, a rigor, são corretas, mas não são bem explicadas nem nuançadas. Na sexta-feira, 3, no Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, Francisco divulgou uma mensagem: “Nós precisamos de um jornalismo que seja livre, a serviço da verdade, da bondade, e justiça; um jornalismo que ajude a construir uma cultura de encontro”. O que disse é irretocável, até de uma beleza incomum, mas não é inteiramente realista.

O jornalismo é negócio e, como tal, não é livre. Serve ao próprio negócio e, por vezes, àqueles a quem interessa beneficiar. Há exceções? É possível. Mas, no geral, jornalistas, ancorados na posição de editores, criam mitos de que há jornalismo livre e independente. Talvez seja possível sugerir que o jornalismo de determinado jornal, revista e emissora de televisão é mais “livre” do que o produzido por outros veículos. Mas não se aproxima da verdade — a factual, como sugere Mino Carta (cuja revista persiste defendendo o petismo e criticando seus adversários) — quem postula que o jornalismo é inteiramente livre. Porque não é. E certamente jamais será.

O que Francisco está postulando é um jornalismo que defenda mais a sociedade, e não apenas interesses de grupos. O papa está propondo que o jornalismo seja parecido com o Estado — cuja função não é defender as elites, mas sim ser um mediador dos conflitos sociais e das divergências entre as classes para melhorar a qualidade de vida de todos. É possível? Talvez.

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