Euler de França Belém
Euler de França Belém

Pai de governadora de Santa Catarina é “nazista convicto e negacionista do Holocausto”

A presença de neonazistas atuantes sugere que, de alguma maneira, Hitler, Himmler e Eichmann permanecem “vivos”, reverberando no Brasil e no mundo

Daniela Reinehr, governadora de Santa Catarina: o pai é nazista assumido | Foto: Reprodução

Adolf Hitler e o nazismo “vivem”. Porque há neonazistas em vários países, inclusive no Brasil, sobretudo nos Estados do Sul do país, notadamente em Santa Catarina. Segundo reportagem de Fábio Zanini, da “Folha de S. Paulo” (quinta-feira, 29), o pai da governadora interina de Santa Catarina, Daniela Reinehr, do PSL, “é um hitlerista convicto e negacionista do Holocausto”. O nome do professor de História é Altair Reinehr. Imagine que, se continuar lecionando, o que ensina em sala de aula: que o nazismo é a redenção dos homens?

O nazismo matou 6 milhões de judeus em campos de extermínio e de concentração e vários outros milhões de não-judeus durante a Segunda Guerra Mundial. O Holocausto é sabidamente comprovável e negá-lo chega às raias do absurdo. Trata-se de um fato histórico — uma das maiores abominações do século 20. Só mesmo um nazista para se comportar como negacionista.

A governadora de Santa Catarina até agora não se manifestou sobre o credo nazista do pai. O que é grave. Porque, se não quer se manifestar, embora possa até não ser neonazista, significa que não condena o nazismo. Porque o nazismo do pai nada tem de específico — é o mesmo nazismo de Hitler, Heinrich Himmler, Goering, Reinhard Heydrich, Adolf Eichmann.

O jornalista Thomas Traumann, da revista “Veja”, não hesita e chama Daniela Reinehr de “a governadora nazista”. No lugar de condenar o nazismo histórico e o nazismo do pai, a governadora disse: “Eu respeito, volto a dizer, respeito as pessoas independentemente dos seus pensamentos, respeito os direitos individuais e as liberdades. Qualquer regime que vá contra o que eu acredito, eu repudio”.

Altair Reinehr, pai da governadora de Santa Catarina, fez questão de posar na frente da casa onde nasceu Adolf Hitler, na Áustria | Foto: Reprodução

Altair Reinehr, pai da governadora de Santa Catarina, fez questão de posar na frente da casa onde nasceu Adolf Hitler, na Áustria | Foto: ReproduçãoAltair Reinehr, pai da governadora de Santa Catarina, fez questão de posar na frente da casa onde nasceu Adolf Hitler, na Áustria | Foto: ReproduçãoComo não repudiou o nazismo, estaria sugerindo que repudia o quê? O comunismo? A gestora estadual acrescentou: “Existe uma relação e uma convicção que move a mim, e acredito que a todos os senhores, que se chama família. Me cabe, como filha, manter a relação familiar em harmonia, independente das diferenças de pensamento, das defesas” (de ideias). Depreende-se que, para não revelar o que realmente pensa, a política está apenas se esquivando. Mas quem não condena o nazismo, de cara, sugere que o defende e que, portanto, não reconhece sua gravidade. Em tempo: vi, na GloboNews, que a governadora disse — finalmente! — que “é” contra o nazismo. Se é mesmo, por que a demora em dizer? Na verdade, ante a pressão da sociedade, Daniela Reinehr talvez tenha percebido a conveniência de mudar de posição.

Jair Bolsonaro e Daniela Reinehr: os dois são aliados, mas o presidente não comunga das ideias nazistas do pai da governadora | Foto: Reprodução

Se a Inglaterra, os Estados Unidos e a União Soviética pensassem como Daniela Reinehr não teriam lutado contra o nazismo de Hitler. Teriam, se acolhessem o pensamento da governadora, ficado quietos — respeitando as “diferenças de pensamento”. Ora, se um pensamento quer liquidar todos os demais, para impor um rumo histórico único, pode se falar realmente em liberdade de ideias e democracia? Não, de maneira alguma.

É provável que os eleitores de Santa Catarina estejam envergonhados de ter uma governadora que não denuncia o nazismo como uma das mais graves abominações do século 20 (e, como se vê, do século 21). Daniela Reinehr talvez não queira saber, mas 1500 brasileiros pereceram como vítimas do nazismo. Muitos eram civis que estavam em navios que foram torpedeados por submarinos da Alemanha nazista. Vários morreram lutando pela democracia e contra o nazifascismo na Itália. Cento e onze goianos lutaram contra as tropas de Hitler na Europa (Aldemar Ferrugem e outros morreram; Benvindo Belém ficou com sequelas e morreu aos 32 anos. Joaquim Pinto Magalhães perdeu uma perna em Montese). No total 25 mil brasileiros lutaram bravamente contra aqueles que “amavam” Hitler e Benito Mussolini, o ditador italiano.

No final de seu texto, Thomas Traumann cita o poeta Cruz e Souza, de Santa Catarina: “Toda alma num cárcere anda presa/ Soluçando nas trevas, entre as grades/ Do calabouço olhando imensidades,/ Mares, estrelas, tardes, natureza. Mas principalmente almas presas, mudas e fechadas/ Nas prisões colossais e abandonadas/ Da dor no calabouço, atroz, funéreo!”. Frise-se que o grande bardo não pôde ser promotor de justiça em Laguna “porque”, relata o repórter, “a sociedade local se recusava a ter um não-branco com poder”.

Wandercy Pugliesi pintou a suástica no fundo da piscina de sua casa | Foto: Reprodução

Células neonazistas no Brasil

A professora-doutora Adriana Dias, da Unicamp, estuda a presença do neonazismo no Brasil há 20 anos. Ela disse a Fábio Zanini que há 350 células neonazistas no país, “o maior numero em Santa Catarina”, seguido de São Paulo, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Distrito Federal. “É gente que extrapola o ciberespaço fazendo pichações, distribuindo panfletos e eventualmente cometendo agressões verbal ou física”, relata o jornalista.

Wandercy Antônio Pugliesi, de 58 anos, mandou pintar uma suástica no fundo da piscina de sua casa, em Pomerode, cidade de Santa Catarina. Ele tentou ser candidato a vereador pelo PL, mas, quando a notícia de que era defensor do nazismo foi divulgada, o partido o excluiu da chapa. No site do TSE, aparece com o nome de “Professor Wander”, seguido da palavra “renúncia”. Informa-se que é professor de ensino superior e tem um patrimônio declarado de 451 mil reais (seu imóvel rural vale 400 mil reais).

Sobre o professor de História Wandercy Pugliesi, a doutora em Antropologia Adriana Dias assinala, segundo registro de Fábio Zanini: “A partir do momento que a suástica pode ser vista no Google Earth, deixou de ser privada”. A pesquisadora tem absoluta razão.

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