Euler de França Belém
Euler de França Belém

Padre não tem direito de “avaliar” orientação sexual de apresentador da TV Anhanguera e de policial

A sexualidade pertence aos indivíduos e eles devem ser avaliados, não por ela, e sim como cidadãos e profissionais

Pressionar uma pessoa para que saia do armário é uma forma de perseguição? Procede que a cobrança para que o indivíduo revele, de vez, sua orientação sexual é uma maneira de agredi-lo? Afinal, por que homens e mulheres têm de “assumir” que são bissexuais ou homossexuais? Alguém cobra isto de heterossexuais?

Matheus Ribeiro, apresentador do “Jornal Anhanguera”, e Yuri Piazzarollo, policial militar | Foto: Instagram

A decisão de sair do armário tem de ser do indivíduo, não de quem o pressiona. Ouvi, algumas vezes, que a saída do armário representou a conquista da felicidade, porque a pessoa pôde assumir sua sexualidade plenamente, em público (até o relacionamento com a família, que também estava no armário, melhorou). Ouvi também que, ao sair do armário, outras pessoas se sentiram prejudicadas, sobretudo no trabalho. Por isso, insistindo, a decisão de “assumir” ou não é da pessoa. Cada um tem seu “tempo” e “disposição” para enfrentar o que pode considerar como adversidades.

O jornalista Matheus Ribeiro é jovem e se destaca por apresentar o “Jornal Anhanguera”, e brevemente, em novembro, vai apresentar o “Jornal Nacional”. Será no dia 9 de novembro, num sábado. Trata-se de um profissional competente, em ascensão, e, adiante, pode ser convocado pela TV Globo ou pela Globo News para voos mais altos. Não se consagrou por ser “homossexual” ou “heterossexual”, e sim pelo fato de ter formação adequada ao telejornalismo.

Se está num momento ímpar da carreira, ainda que a audiência da TV do Grupo Jaime Câmara não seja excepcional — e, daqui pra frente, ninguém terá audiências extraordinários, exceto episodicamente, dada uma notícia explosiva —, por que Matheus Ribeiro decidiu divulgar uma fotografia com o seu namorado, Yuri Piazzarollo, um policial militar, no Instagram?

A fotografia, sobretudo o fato de assumir publicamente que ama um homem, pode prejudicá-lo? Matheus Ribeiro entendeu que não, que o Brasil, apesar do governo conservador de Jair Bolsonaro, está mudando e aceita orientações sexuais diferentes da dita tradicional. Essencialmente, o jornalista preocupou-se com a questão de sua individualidade — e não com o fato do que poderiam “pensar” a pessoa “x” e a pessoa “y”. Demonstrou coragem. Trata-se de um indivíduo intimorato — assim como o namorado, que, pertencendo à polícia, não hesitou. Ou melhor, pode até ter hesitado, mas teve energia para assumir o namoro.

Matheus Ribeiro e Yuri Piazzarollo: companheiros | Foto: Instagram

Matheus Ribeiro e Yuri Piazzarollo, dois homens bonitos, disseram “sim” à vida, aos seus direitos individuais, notadamente o direito de serem felizes. Aqui e ali, houve alguma reação contrária. No geral, porém, ninguém agrediu os dois, aceitando a decisão como uma coisa deles.

Em seguida, o leitor Renato Bernardes Lopes de Azevedo enviou para a redação do jornal a declaração de um padre condenando a decisão de Matheus Ribeiro e Yuri Piazzarollo. Ele também mandou mensagens com críticas ao religioso.

As críticas ao religioso são excessivas, considerando que ninguém, nem ele, é perfeito. Todos cometem erros. Ao condenar a divulgação do fato, o padre contradita inclusive o papa Francisco, que tem sugerido que “viver na verdade” é positivo para os indivíduos. Num momento em que a Igreja Católica vive cercada por denúncias de pedofilia, envolvendo figuras de proa, não há notícia de que o padre tenha se manifestado a respeito. As informações sobre pedofilia na Igreja, e não só na Igreja, devem ser divulgadas e os pedófilos devem ser criminalizados, independentemente dos cargos que ocupam na hierarquia católica. Mas talvez seja possível fazer uma ressalva: a campanha contra a pedofilia na Igreja Católica — frise-se que a pedofilia é um fato — não deve se transformar numa campanha contra os homossexuais. Acrescente-se que não se trata apenas de pedofilia, porque há assédio contra mulheres e homens adultos.

Mas o que tem a ver o padre, um homem que a sociedade goiana respeita, com a vida sexual dos indivíduos? Ele tem direito sobre sua própria sexualidade, e não interessa saber qual é sua orientação sexual — se tem ou se não tem vida sexual (o poeta D. H. Lawrence diz que “gente assexuada não transmite nada”) —, mas deve respeitar a sexualidade alheia, ainda que seja divergente daquela que considera “normal” ou “padrão”. Por que o ser humano tem de ser infeliz, aceitando uma sexualidade que não vivencia, para agradar religiosos e, mesmo, familiares?

Há algum “mal” no fato de que Matheus Ribeiro e Yuri Piazzarollo — como outros homens — se amam e têm coragem de tornar público este amor? Não há mal algum. É um direito deles. A escolha que fizeram deve ser respeitada — inclusive por religiosos.

Quanto aos profissionais, Matheus Ribeiro e Yuri Piazzarollo têm de ser avaliados pelo resultado do que fazem. Matheus Ribeiro é um apresentador eficiente, que apresenta os fatos como são, sem distorcê-los. Não conheço o trabalho de Yuri Piazzarollo, mas tudo indica que não há nada que o desabone. Na vida cotidiana, devem ser avaliados como cidadãos e profissionais — não pela orientação sexual.

Pode ser uma “desconfiança” sem sentido, mas, ainda assim, explicito-a: indivíduos que denunciam a sexualidade alheia, por ser diferente daquela que avaliam como “a correta”, parecem ter uma atração visceral por aquilo que criticam. Trata-se de uma impressão? Talvez não. É provável que críticos excessivos da sexualidade alheia, sobretudo da homossexualidade, tenham uma atração poderosa — daí a rejeição fervorosa — por aquilo que o incomoda. Vale pensar a respeito quando se apontar o “problema” do outro.

“Gente assexuada não transmite nada”

D. H. Lawrence: prosador e poeta inglês | Foto: Reprodução

O inglês D. H. Lawrence escreveu um poema — “Somos transmissores” — que deve ser lido com prazer e atenção: “Somos, ao viver, transmissores de vida./ Quando deixamos de transmitir vida, ela a vida também deixa/de fluir em nós.// Parte do mistério do sexo, isto é um fluxo à frente./Gente assexuada não transmite nada.// Mas se chegamos, trabalhando, a transmitir vida ao trabalho,/ a vida, ainda mais vida, se lança em nós compensando, se mostrando/disposta a tudo/ e pelos dias que vêm nos encrespamos de vida.// Mesmo que seja uma mulher fazendo um simples pudim, ou um homem/fazendo um tamborete,/ se a vida entrar nesse pudim ele é bom/ bom é o tamborete,/ contente fica a mulher, com a vida nova que a encrespa,/ contente fica esse homem.// Dê que também lhe será dado/ é ainda a verdade da vida./ Mas não é assim tão fácil. Dar vida/não quer dizer passá-la adiante a algum bobo indigno, nem deixar que os/ mortos-vivos te suguem./ Quer dizer acender a qualidade da vida onde ela não se encontrava,/ mesmo que seja apenas na brancura de um lenço lavado.” (“Poemas”, de D. H. Lawrence, Editora Alhambra, 103 páginas, tradução de Leonardo Fróes.)

3 respostas para “Padre não tem direito de “avaliar” orientação sexual de apresentador da TV Anhanguera e de policial”

  1. Aurea de souza bizuca Souza bizuca disse:

    MATHEUS VC É DONO DO SEU NARIZ…SOU SUA FA NÚMERO 1 SEJA O QUE VC QUIZER…FODA-SE QUEM TIVER INCOMODADO…TCHAU OBRIGADA!ESTOU ESPERANDO ANSIOSA A SUA APRESENTAÇÃO NO J.N…TCHAU BRIGADO.BJM.

  2. Idioma oliveira disse:

    O gente boa deixem rapaz em paz, se não gostam opção sexual dele problema de vocês, ele vive vida jeito que quiser, preocupem com a vidinha vocês, devem esta pior que a dele, parem viver vida dos próximos.

  3. Pedro disse:

    Também não consegui entender qual direto a Igreja Católica tem de criticar pessoas homossexuais se sempre protegeram e defenderam padres e freiras pedófilos??

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