Euler de França Belém
Euler de França Belém

Orhan Pamuk discute com mestria prosa de Vargas Llosa e Vladimir Nabokov

O escritor turco diz que voz do peruano tem a sinceridade de um menino e que prosa do russo deve sua beleza à crueldade

Texto publicado no Jornal Opção em 2012

Orhan Pamuk, Nobel de Literatura de 2006, é um prosador superestimado¹ (assunto sobre o qual, não sei por quê, estou em dúvida), ainda que tenha admiradores entre os melhores críticos literários do planeta. Porque escreve bem, ainda que sua imaginação literária possa ser posta sem dúvida. Mas no livro “Outras Cores — Ensaios e Um Conto” (Companhia das Letras, 477 páginas, tradução de Berilo Vargas), o escritor turco mostra que descobriu sua verdadeira vocação. É um crítico literário de primeira, do nível de Mario Vargas Llosa e, às vezes, próximo de George Steiner. São extremamente percucientes as análises de obras de Laurence Sterne, Victor Hugo, Dostoiévski, Vladimir Nabokov, Albert Camus, Thomas Bernhard, Vargas Llosa e Salman Rushdie. Ao comentar seus próprios livros, é, eventualmente, mais severo do que críticos amigáveis.

No ensaio “Mario Vargas Llosa e a literatura do Terceiro Mundo”, Pamuk escreve: “… existe um tipo de romance narrativo próprio dos países do Terceiro Mundo. Sua originalidade tem menos a ver com a localização do escritor do que com o fato de ele saber que escreve longe dos centros literários do mundo e sentir essa distância dentro dele. Se algo distingue a literatura do Terceiro Mundo não é a pobreza, não é a violência, não é a política ou o tumulto social do país de onde ela emerge, mas a consciência do escritor de que sua obra está de alguma forma longe dos centros onde a história de sua arte — a arte do romance — é descrita, e de que ele reflete essa distância em sua obra. O crucial aqui é a percepção que possui o escritor do Terceiro Mundo de estar exilado dos centros literários mundiais. Um escritor do Terceiro Mundo pode optar por deixar o seu país e fixar-se — como o fez Vargas Llosa — num dos centros culturais da Europa. Mas a ideia que tem de si mesmo pode não mudar, pois o ‘exílio’ de um escritor do Terceiro Mundo não é tanto uma questão geográfica como um estado de espírito, um senso de exclusão, de ser perpetuamente estrangeiro”. Pamuk está falando de Vargas Llosa e, naturalmente, dele mesmo.

Mario Vargas Llosa: Nobel de Literatura | Foto: Reprodução

Há vantagens de ser “estrangeiro”, na opinião de Pamuk. “A sensação de ser forasteiro o liberta das angústias da originalidade. Não precisa meter-se numa disputa obsessiva com pais ou precursores para encontrar a própria voz. Pois explora novo terreno, aborda assuntos nunca discutidos em sua cultura, e geralmente se dirige a leitores distintos e emergentes, nunca vistos em seu país — o que confere a seus escritos uma espécie de originalidade, de autenticidade.”

O filósofo e escritor francês Jean-Paul Sartre influenciou Vargas Llosa. “Como Sartre, Vargas Llosa usaria colagem, justaposição, montagem, recortes e outras estratégias narrativas para orquestrar seus romances.” O americano John Dos Passos também influenciou a prosa do escritor peruano. Mas William Faulkner é, no final, a maior influência. “O que Vargas Llosa acha louvável em ‘Santuário’ [romance de Faulkner] — a justaposição de cenas e os cortes no tempo — é ainda mais evidente nos romances do próprio Vargas Llosa. Ele usa magistralmente essa estratégia — o implacável entrelaçamento de vozes, histórias e diálogos — em ‘Lituma nos Andes’.”

O ensaio louva a prosa de Vargas Llosa, com uma ressalva: no romance “Lituma nos Andes”, sustenta Pamuk, “há pouco esforço para compreender os guerrilheiros do Sendero Luminoso. (…) Fica-se imaginando se é impossível para gente como nós ver a humanidade dos guerrilheiros quando deixa de ser jovem, ou se é porque depois de certa idade gente como nós não tem mais amigos na guerrilha. Vargas Llosa é um escritor tão bom, de opiniões tão convincentes, que, mesmo nos pontos em que a política nos afasta dele, sua voz ainda tem a sinceridade de um menino por quem não se pode deixar de sentir afeição”. No final do ensaio, Pamuk conclui que “a tristeza de sua voz [de Vargas Llosa] é inequivocamente a da distância do centro”.

Vladimir Nabokov: autor de “Lolita” e “Ada” | Foto: Reprodução

Vladimir Nabokov e o sentimento de culpa

“Lolita” fez bem e mal a Vladimir Nabokov. “Bem” porque o tornou conhecido do público. “Mal” porque parece que se tornou autor de um único romance, quando, na verdade, escreveu outros livros de igual envergadura, como “Ada”, “Fogo Pálido” e “A Verdadeira Vida de Sebastian Knight”. No ensaio “Crueldade, beleza e tempo: sobre ‘Ada’ e ‘Lolita’, de Nobokov”, Pamuk escreve uma crítica extremamente perceptiva e aguda em apenas seis páginas e sete linhas. “Nabokov é outro escritor [cita também Proust e Dostoiévski] que leio e releio sempre, e duvido que algum dia seja capaz de deixá-lo.”

“Lolita”, “Fogo Pálido” e “Fala, Memória” são, na opinião de Pamuk, “o ponto alto da prosa de Nabokov”. “É por causa da beleza da prosa de Nabokov. Mas o que chamo de ‘beleza’ não é explicação suficiente. Atrás da beleza dos livros de Nabokov há sempre algo de sinistro, um cheiro de tirania. Se a ‘atemporalidade’ da beleza é uma ilusão, isto é em si um reflexo da vida e da época de Nabokov.”

Nabokov não tem pena dos leitores, sobretudo dos pudicos, e chega a ser cruel, nos casos de “Lolita” (pedofilia) e “Ada” (incesto). O que dizer? Pamuk oferece uma resposta: “… a vida é assim mesmo; o escritor nos conta coisas que já sabemos, mas com uma honestidade chocante e resoluta que nos traz lágrimas aos olhos no momento certo. Nabokov disse certa vez que sabia muito bem usar ‘a palavra certa no lugar certo’. O talento para o ‘le mot juste’ dá à sua prosa uma qualidade estonteante, quase sobrenatural. Mas há uma crueldade por trás das puras palavras, que seu gênio e sua imaginação lhe deram”.

Orhan Pamuk, escritor e crítico literário turco | Foto: Reprodução

A prosa precisa e quase sádica de Nabokov diz, na avaliação de Pamuk, “que nada na vida resolve nossas dores e nossos problemas. Essa consciência nos faz lembrar o comentário de Lolita sobre a morte (‘estamos completamente sozinhos’), que seu padrasto também admirava. A profunda alegria de ler Nabokov vem de vermos a verdade cruel: nossa vida não faz parte da lógica do mundo. Aceitando tal verdade, podemos apreciar a beleza pela beleza. Só descobrindo a profunda lógica que governa o mundo — o mundo que nos é dado apreciar apenas por intermédio da grande literatura — podemos nos consolar com a beleza que temos nas mãos; no fim, nossa única defesa contra as crueldades da vida são as belas simetrias de Nabokov, suas piadas e seus jogos de espelho, sua celebração da luz e sua prosa, bela como as asas palpitantes de uma borboleta: depois de perder Lolita, Humbert diz ao leitor que tudo que lhe resta no mundo são as palavras, e, um pouco zombando de si mesmo, fala casualmente do ‘amor como último refúgio’”.

Para entrar nesse refúgio paga-se um preço, o da crueldade — origem dos “sentimentos de culpa”. “Como deve sua beleza à crueldade, a prosa de Nabokov é prejudicada pela mesma culpa, assim como Humbert, que procura a beleza eterna com toda a inocência de uma criança pequena”, escreve Pamuk. O crítico assinala que, para Nabokov, “a culpa é uma dor que apareceu depois da infância. (…) A implicância de Nabokov com Freud, e o prazer que tinha em alfinetá-lo, sugere que tentava defender-se da culpa terrível que sentia pela idade de ouro da sua infância”.

Em “Ada”, aponta Pamuk, “Nabokov nos recorda que nossas lembranças nos permitem carregar conosco a nossa infância, e com ela a idade de ouro que julgávamos ter deixado para trás. Nabokov dá realidade a essa ideia simples e óbvia com um belo lirismo, mostrando como o passado e o presente podem coexistir na mesma frase. (…) A memória — para Nabokov, o maior recurso do escritor e da imaginação — envolve o presente com o halo do passado. As insistentes explorações da memória e do tempo por Nabokov falam de um escritor seguro do presente e do futuro, que sabe que suas lembranças nascem de jogos e são moldadas pelas vicissitudes da experiência. A equilibrada vitalidade de Lolita decorre do vaivém às vezes sereno, às vezes agitado, entre o passado e o presente: a narração de Humbert dispara das lembranças da meninice (bem antes de Lolita) para as lembranças posteriores à fuga de Lolita dos tempos felizes que viveu com ela. Quando fala dessas maravilhosas lembranças, Nabokov repete a palavra ‘paraíso’ muitas vezes; numa passagem até se refere aos ‘icebergs do paraíso’”.

“Ada” não é igual a “Lolita”, explica Pamuk. “Por contraste”, escreve, “Ada é a tentativa de trazer o paraíso perdido do passado para o presente. (…) Nabokov mistura lembranças desses dois mundos [a Rússia e os Estados Unidos] para criar um terceiro país, um paraíso literário totalmente imaginário. Feito de detalhes abundantes de uma infância que ele via como inocente de pecado, é um estranho e maravilhoso mundo de desenfreado narcisismo completamente infantil. (…) … num ‘tour de force’ elegante e altivo, Nabokov decide transplantar a infância para a velhice. Vemos seus heróis perdidos de amor não só tornarem realidade seus amores de infância, mas preservarem os estados de espírito que lhes permitirão carregar esses amores até a morte. Humbert pode passar a vida em busca do amor perdido na meninice, mas Van e Ada querem viver para sempre no paraíso que se irradia do seu amor de infância. Primeiro somos informados de que os dois são primos, depois, de que são irmão e irmã. Como Freud, que ele amava odiar, Nabokov faz essa revelação aos poucos, sugerindo que os tabus é que nos expulsam do paraíso da infância”.

O leitor precisa ter paciência com as dificuldades criadas por Nabokov e com seu humor que eventualmente, de tão corrosivo, não parece humor. Para entendê-lo, sem rejeição, o leitor precisa entender a sua grandeza, sugere Pamuk. Moral e estética. “Enquanto Nabokov luta para trazer o paraíso para o nosso tempo — e criar para si próprio um refúgio da realidade —, seu gosto por piadas e trocadilhos pessoais, por prazeres e jogos secretos, e por elaborar seu espanto diante da imensidade da imaginação, esse impulso produz momentos em ‘Ada’ em que o autor perde o leitor impaciente. (…) Nabokov, pai da piada pós-moderna, previu a resposta do leitor, e envolve-o num jogo: fala da dificuldade do romance filosófico de Van, de como ‘na tagarelice de sala de estar de senhoras que agitam leques’ ele é visto como arrogante por sua indiferença à fama literária.”

Pamuk observa que a “grande literatura vive num lugar próximo, refrescada pelo vento alienante da culpa. ‘Ada’ é a tentativa feita por um grande escritor para erradicar essa culpa, para usar o poder e a força de vontade da literatura a fim de trazer o paraíso para o presente. É por isso que, uma vez que perdemos a fé, nesse livro e na união incestuosa de Van e Ada, o livro se afoga num pecado que é o oposto do que pretendia Nabokov”. Será mesmo? Pamuk não aprofunda a possível discordância, deixando a sua certeza mais como dúvida. De qualquer modo, Pamuk, como crítico, redime-se. Torna-se um grande escritor menos pela prosa literária e mais pela prosa crítica.

Nota

¹ Quando escrevi o texto, em 2012, pensava assim de Orhan Pamuk. Hoje, minha opinião é outra: a prosa do escritor turco é bem melhor do que inicialmente avaliei.

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