Euler de França Belém
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Olavo de Carvalho volta a atacar Bolsonaro, que, realista, se afasta do filósofo

O filósofo, radicado nos Estados Unidos, volta a criticar o presidente, Damares Alves e os generais

Em tom de blague, um professor, que se diz ex-olavista, relata: “Olavo de Carvalho foi ao oftalmologista e exigiu: ‘Preciso de uma lente que me possibilite enxergar só comunistas’. Desde então, quando mata um pernilongo, ao ver o sangue, naturalmente vermelho, vocifera: ‘Mais um comunista que cai’”. Um escritor francês, dos mais cautos, escreveu mais ou menos assim: “Não sei porque está me atacando se nunca lhe ajudei”.

Olavo de Carvalho e Jair Bolsonaro | Foto: Reprodução

O filósofo Olavo de Carvalho, um homem inteligente — é tolice caracterizá-lo tão-somente como “astrólogo” —, garante que ajudou a eleger Jair Bolsonaro a presidente da República, em 2018. Ajudou, de fato, ao criar uma militância que, nas redes sociais, derrotou a combalida rede de petistas e demais esquerdistas. O mais importante é que o pensador da Virginia não tem 60 milhões de seguidores. A maioria dos 57 milhões de eleitores de Bolsonaro certamente nunca ouviu falar de Olavo de Carvalho. Portanto, não foram influenciados por sua retórica. O mesmerizador de brasileiros é mesmo Bolsonaro, e não seus ideológos.

Como se sabe fora da Virginia, Bolsonaro tem de governar um país gigante, com mais de 8 milhões de km² e 210 milhões de habitantes. Uma nação em crise: pandemia do novo coronavírus (quase 140 mil mortos), economia em frangalhos, desemprego, crime organizado reinando (ainda que sob ataque), o senador Flávio Bolsonaro às portas da Justiça etc.

Mas o presidente “tem” de entender que Olavo de Carvalho precisa ser “atendido”, não com chupeta ou mamadeira. Mas atenção mesmo, carinho, gratidão.

No Facebook, Olavo de Carvalho atacou: “Subir na vida e, uma vez lá em cima, livrar-se dos que o ajudaram na escalada. O Bolsonaro aprendeu isso com Maquiavel e vai terminar como Maquiavel terminou: vivendo da caridade de seus inimigos. Se há uns tipinhos que Deus odeia, [nota da redação: a vírgula é de Olavo de Carvalho] são os ingratos. E não pensem que o diabo os ama”. Bem, é de se duvidar que Bolsonaro tenha lido “O Príncipe” ou qualquer outra obra de Maquiavel. Entretanto, como suas ideias se tornaram senso comum, é provável que, na prática, o presidente saiba aplicá-las. Tanto que, para governar, para se firmar como príncipe da República, deu um chega-pra-lá nos ideólogos e nos pirotécnicos das redes sociais e se aproximou do centrão e passou a afrontar menos o Supremo Tribunal Federal e o Congresso Nacional.

Olavo de Carvalho estaria considerando Bolsonaro como o escorpião da fábula? Conta-se que o escorpião pediu para o sapo atravessá-lo para a outra margem do rio. O sapo disse: “Mas você vai me picar”. O escorpião afirmou: “De jeito nenhum; se eu o picar, morro afogado”. O sapo deu-lhe um carona e, no meio do rio, o escorpião o picou. O sapo lamentou: “Por que fez isto, se nós dois vamos morrer?” O escorpião redarguiu: “Sinto muito, é minha natureza”. No caso de Bolsonaro e Olavo de Carvalho, não se sabe quem é o sapo e quem é o escorpião.

O filósofo escreveu: “Bem que, em tempo, adverti a meus alunos e amigos que jamais deveriam aceitar cargos públicos. Agora entendam que não era figura de linguagem”. Não se sabe de nenhum pedido de demissão em massa dos aliados de Olavo de Carvalho. Talvez estejam se tornando mais bolsonaristas do que olavistas. Pilas são melhores do que bílis.

A irritação do autor do livro “O Imbecil Coletivo” também atinge a ministra Damares Alves, que exonerou Sandra Terena, secretária de Políticas de Promoção da igualdade Racial. A ex-auxiliar da ministra é casada com Oswaldo Eustáquio, o blogueiro que, dada sua participação em “atos antidemocráticos”, foi preso por determinação do Supremo Tribunal Federal.

“Bolsonaro, Damares, mais todos os ministros e generais, somados, não têm cultura histórico-política suficiente para saber lidar com comunistas. Tomam no cu e se revoltam contra quem quer ajudá-los a escapar disso”, ataca Olavo de Carvalho. A revista “Veja” escreveu “xx” no lugar de “cu”. Como todos sabem o que é, e também têm, optamos por não omitir a palavra, que faz parte da bela e culta quase última flor do Lácio.

O ataque de Olavo Carvalho continua: “Quando mais Bolsonaro tenta se fazer de bonzinho ante a esquerda nacional e internacional, mais ela o difama e achincalha. Acho que ele não tem cultura histórico-política suficiente — como também não a têm seus lindos generais — para entender que acomodação com comunistas é suicídio”.

Há uma verdade e uma informação incorreta. Parte da esquerda “difama” Bolsonaro — e está fazendo política — e às vezes fala a verdade sobre o presidente. Mas não procede que Bolsonaro “tenta se fazer de bonzinho ante a esquerda nacional e internacional”.

O fato é que, quanto mais realista fica, mais Bolsonaro se afasta de Olavo de Carvalho e epígonos — soldados invernais da Guerra Fria.

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