Euler de França Belém
Euler de França Belém

Objetivo do Grupo Abril é salvar as galinhas de ovos de ouro: Veja, Exame e Quatro Rodas

Com uma dívida de 1,3 bilhão e um prejuízo de 331 milhões só em 2018, a Editora Abril muda de comando

Giancarlo Civita e Victor Civita Neto: os irmãos querem salvar o Grupo Abril e, ao mesmo tempo, manter a qualidade dos produtos da empresa

Victor Civita e Roberto Civita, pai e filho, construíram um império de comunicação com publicações de alta qualidade, como as revistas “Veja”, “Exame” e “Quatro Rodas”. Para não perder os dedos — dada sua dívida de 1,3 bilhão de reais (só em 2017 o prejuízo foi de 331 milhões de reais) —, os sucessores, Giancarlo Civita e Victor Civita Neto, estão entregando parte dos anéis. Na semana passada, descontinuaram a publicação de “Casa Cláudia”, “Elle”, “Cosmopolitan”, “Arquitetura e Construção”, “Boa Forma”, “Minha Casa”, “Mundo Estranho”, “Veja Rio” e “Guia do Estudante”. Restam as galinhas dos ovos de ouro — “Veja”, “Exame”, “Quatro Rodas”, “Cláudia”, “Saúde”, “Superintessante”, “Viagem e Turismo”, “Você S/A”, “Você RH”, “Capricho”, “MdeMulher”, “Vip” e “Placar”.

Os primeiros Civita, Victor e Roberto, avaliavam que uma revista lucrativa, como “Veja”, “Exame” e “Quatro Rodas”, deveriam bancar as deficitárias até que se firmassem. Entretanto, ante o volume das dívidas e às mudanças tecnológicas — e o novo hábito de leitura; cada vez mais, as pessoas querem informações “gratuitas” (grandes estruturas não têm como bancar isto por muito tempo) —, os herdeiros Giancarlo e Victor Civita decidiram agir rápido para evitar, adiante, o sacrifício do Grupo Abril inteiro. A direção da Editora Abril saiu dos Civitas e passou para Marcos Haaland, da consultoria Alvarez & Marsal, especializada em repor empresas, do ponto de vista financeiro, em ordem. O controle acionário continua com a família.

Num informe, os que estão assumindo o comando do negócio disseram palavras apropriadas e sensatas: “Em consonância com sua trajetória e relevância na imprensa brasileira, a Abril reafirma o seu compromisso de manter vivo o jornalismo de qualidade. Uma imprensa forte, livre e idônea em seus princípios é essencial para o desenvolvimento do Brasil e o único antídoto contra a desinformação e fake news”. Trata-se de um recado para os leitores e para os bancos: o Grupo Abril e suas publicações continuam.

O que se está fazendo é um ajuste para assegurar as publicações que realmente dão lucro e são os carros-chefes da empresa, como “Veja”, “Exame” e “Quatro Rodas”. O que se pretende é tornar a empresa mais leve para resistir à crise que atinge a imprensa mundial. A internet é um instrumento poderoso, que beneficia a imprensa — aumentando o acesso (as marcas da Abril que sobreviveram têm “audiência de 125 milhões de visitantes únicos por mês e 5,2 milhões de circulação nas versões imprensa e digital por mês”) —, mas não gera, até agora, recursos suficientes para manter as grandes estruturas do passado. Quem não se organizar, o quanto antes, tende a desaparecer (a “IstoÉ” está em recuperação judicial). A Abril, tudo indica, quer evitar seu desaparecimento.

É provável que, no mercado brasileiro, não existam compradores capitalizados para os principais produtos do Grupo Abril. Sobretudo, num mercado em crise, faltam interessados em comprar jornais e revistas. Um capitalista externo seria a solução, mas as leis brasileiras, que deveriam ser mudadas, impedem a entrada, ao menos de maneira dominante, de compradores estrangeiros. (Até as bancas de revistas e jornais estão “agregando valor”. A da T-62, do craque José Ribeiro, faz chaves, amola tesouras, comercializa suporte para celulares, vende picolé, doces, sapatos, bolas, CDs e… até revistas e jornais. José Ribeiro disse ao Jornal Opção que seu próximo passo será colocar “uma xerox”).

Tão lamentável quanto a crise do Grupo Abril, talvez incontornável — e é possível que os enxugamentos só estão começando —, são os comentários em blogs e redes sociais. Dado o contencioso com a esquerda — a “Veja” é vista como “inimiga” da esquerda, ainda que, ao longo de sua história, tenha aberto espaço para esquerdistas —, há uma torcida para que seus negócios naufragem inteiramente. Trata-se de um equívoco pelo menos por dois motivos.

Primeiro, os empregos. Fala-se, no momento, em 200 demitidos — e até mais. Os possivelmente exagerados chegaram a mencionar 800. E não são empregos quaisquer. São empregos qualificados — com salários acima da média do mercado jornalístico patropi. Uma crise numa área que paga bem, e em dia, leva a um aviltamento, às vezes global, do mercado. Segundo, a qualidade das publicações da Abril é indiscutível. Goste-se ou não de suas ideias, os Civita criaram um alto padrão de jornalismo — inclusive moral — que influenciou e influencia praticamente toda a imprensa brasileira. Criou uma escola de jornalismo, ainda que informal, no país. Quem torce contra a Abril torce, na verdade, contra a boa imprensa.

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Carlos Spindula

Faltou uma informação importante, a descontinuação das revistas em quadrinhos Disney: Pato Donald, Ze Carioca, Tio Patinhas e dos especiais capa dura que estavam no seu auge. O Pato Donald foi simplesmente a primeira revista que a Abril lançou, foram 68 anos ininterruptos de circulação, fazem parte simplesmente da infância e adolescência de milhões de brasileiros e tinham grandíssimo valor tanto emocional como de qualidade. Muito triste ver o Grupo Abril nessa crise e embora não concorde com a linha editorial de algumas publicações eu torço para a sua recuperação também.

Luiz Mello

É profundamente lamentável a situação da Editora Abril. Qualquer sociedade civilizada precisa de um mercado editorial forte e plural.

No entanto, se referir à Veja como publicação de qualidade indiscutível, ou de alto padrão de jornalismo, é uma avaliação defasada em 20 anos, mais ou menos. Pasquim de 5ª categoria.

A Exame é um exemplo muito superior de publicação de qualidade, independente do seu posicionamento ideológico.