Euler de França Belém
Euler de França Belém

O proustiano Carlos Augusto Silva é um crítico que firma e reafirma escritores

O professor e crítico literário mescla o analista que não tem preconceito com a crítica impressionista ao analista com formação acadêmica rigorosa

((Publicado no Jornal Opção na edição de 29 de dezembro de 2013 a 4 de janeiro de 2014))

A qualidade da obra de arte existe em si. Sem a crítica, no entanto, a obra de arte, por mais qualitativa que seja, não se afirma e, assim, pode ficar adormecida por longo tempo. Mais tarde, ressalte-se, será descoberta e firmada como tal. Pode ser, é claro, que determinada obra, em choque com seu tempo, com a crítica dominante, fique submersa — isto ocorreu com artistas plásticos, escritores e músicos. Não significa, portanto, que não tinha qualidade, e sim que a crítica de seu tempo não tinha os instrumentos ou parâmetros necessários para entendê-la e, a seguir, explicá-la. Sem conseguir absorvê-la, havia dois caminhos: bombardeá-la, como “absurda” ou “insuficiente”, ou ignorá-la. Aquilo que é incômodo, que não conseguimos enquadrar, é costumeiramente deixado à parte. Há outro viés. Quando uma obra de arte é bem assimilada pela crítica, com suas virtudes abundantemente anunciadas, seus méritos tornam-se senso comum e fica-se com a impressão de que prescinde da crítica. Não é assim que funciona o mundo da criação artística. É óbvio que a crítica não deve arvorar-se a superior à arte, mas é um par, um complemento, fundamental. É imprescindível. Pode-se dizer, sem medo de errar, que a crítica bem-feita é o sol da arte.

Carlos Augusto Silva: crítico literário | Foto: Facebook

Edmund Wilson (1895-1972), em que pese possíveis equívocos e exageros — chegou a se avaliar como prosador do primeiro time, o que não era (os contos de “Memórias do Condado de Hecate” não “beijam” os pés dos contistas Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway) —, foi um dos mais importantes críticos dos Estados Unidos, no seu tempo, ao lado de H. L. Mencken (1880-1956). Ele escreveu em cima da hora sobre a literatura de Marcel Proust (“Em Busca do Tempo Perdido”) e James Joyce (“Ulysses”). Alguns de seus ensaios, publicados em “O Castelo de Axel” e traduzidos pelo poeta e crítico José Paulo Paes, poderiam ter ficado datados e se tornado apenas uma história da crítica em determinado momento, fim da década de 1920 e início da década de 1930. Os textos, construídos a partir da leitura dos próprios romances — é possível que o francês e o irlandês não tenham escrito romances, e sim bíblias, “livros” de um único livro —, praticamente sem nenhuma fortuna crítica para a alicerçá-los, permanecem vivos, reverberando em livros que, com o volume de material crítico reunido mais tarde, naturalmente são mais densos e amplos.

Como crítico, Edmund Wilson tinha o hábito de restabelecer reputações e firmar novos escritores, “dando-lhes” um espaço de honra na literatura universal. Escreveu ensaios magistrais sobre Flaubert, Turguêniev e Dickens. Quando o inglês havia se tornado “apenas” um autor “popular”, porque vendia milhares de exemplares, e um autor quase para “crianças”, devido ao sucesso de “David Copperfield” e “Oliver Twist”, o autor de “Onze Ensaios — Literatura, Política, História” (tradução de José Paulo Paes) escreveu um ensaio poderoso no qual explicava como, em determinados momentos, ele aproximava-se de Shakespeare e de outros escritores de alto nível. A reputação de Dickens como escritor de porte não foi firmada unicamente por Edmund Wilson, mas sua releitura foi decisiva para recolocá-lo entre os principais criadores ingleses.

O verdadeiro crítico não é “apenas” aquele que “reafirma” reputações. O crítico respeitável também é aquele que “firma” novas reputações. Os americanos Ernest Hemingway e F. Scott Fitzgerald, independentemente das análises de Edmund Wilson, teriam se firmado como prosadores do primeiro time. Mas as críticas do autor de “Onze Ensaios” contribuíram para consolidá-los como autores do porte de Nathaniel Hawthorne, Herman Melville e Henry James exatamente no momento em que estavam publicando e ainda eram vistos com desconfiança por parte dos leitores e, mesmo, da crítica especializada. Alguns os tratavam não como escritores, e sim como bêbados profissionais. Edmund Wilson, que fazia a ponte entre a crítica metódica (era de Princeton) e a, digamos assim, crítica impressionista, vasculhou as origens da prosa enxuta, quase telegráfica de Hemingway. Descobriu — e expôs seu pensamento com a maior clareza — e mostrou que Hemingway não era filho tão-somente dos manuais de redação dos jornais americanos, que sugeriam contenção, leveza e precisão no trato das informações e histórias. O autor de contos esplêndidos, como “Os Assassinos”, era também filho da prosa enxuta dos discursos do presidente Abraham Lincoln, um filho de Shakespeare, e da precisão séria (como literatura) e, ao mesmo tempo, satírica de Mark Twain.

No Brasil, há uma espécie de Fla X Flu entre os críticos. Há os impressionistas, como Álvaro Lins, e há os acadêmicos, com métodos sofisticados de análise literária. As fronteiras entre os dois tipos de crítica — e entre os acadêmicos há vários “divisões” e “subdivisões” — são mais tênues do que, à primeira vista, parecem. João Luiz Lafetá, ao analisar a poesia de Mário de Andrade, percebeu que acertos analíticos estão presentes num trabalho de Álvaro Lins. Várias ideias, e não meros insights, e não inteiramente desenvolvidas adiante pela crítica acadêmica, foram antecipadas por Álvaro Lins, possivelmente um dos primeiros grandes proustianos brasileiros. (Vale a pena ler o excelente “Crítica Literária — Em Busca do Tempo Perdido?”, de João Cezar de Castro Rocha. O crítico, de formação acadêmica rigorosa, valoriza a crítica dita impressionista e nota que o poeta Mário Faustino fez uma crítica que, tida como impressionista, foi além disso.)

Thomas Mann: sua obra é examinada de maneira ousada| Foto: Reprodução

Wilson Martins é visto nos Estados Unidos como scholar, um acadêmico, autor de uma obra de referência, “História da Inteligência Brasileira”, apreciada e respeitada, mas no Brasil é percebido quase que como um crítico impressionista, sobretudo dadas às críticas de jornais (os “rodapés”, em “O Globo”, no “Jornal do Brasil” e em “O Estado de S. Paulo”), sempre sobre autores brasileiros. Portanto, um crítico difícil de classificar, e que parecia desconfiar da crítica acadêmica, embora fosse pródigo em análises positivas de alguns trabalhos universitários. De resto, era um crítico que de fato lia os livros que comentava semanalmente. Era um crítico militante, avesso às modas, e um leitor distanciado, corajoso e avesso às panelinhas.

Antonio Candido é tido e havido como o mais importante crítico literário brasileiro — questionado, aqui e ali, pelos concretistas, especialmente sobre o lugar do barroco na literatura patropi. Fez crítica de jornal, entre o academicismo e o impressionismo, mas estabeleceu, com seus trabalhos mais rigorosos, um caminho que sincronizou a crítica literária e, por assim dizer, a sociologia — “método” que possivelmente desaguou nas análises de Machado de Assis por Roberto Schwarz.

O fato é que a crítica de jornal é necessária, não porque seja extremamente iluminadora — em geral, não há espaço para comparações e reparos mais amplos —, e sim, se bem-feita, ainda que ligeiramente perfunctória, porque contribui para divulgar a boa literatura. A crítica de jornal é mais um convite à leitura, num tempo de dispersão, com tantas coisas para se fazer e se divertir. Mas há distinções. Há os críticos de jornal que mal leem o que comentam — já houve caso de o analista frisar que estava examinando um livro de contos quando, na verdade, tratava-se de um romance com histórias que se integravam como se fossem contos. Mas os críticos de jornal que unem a “impressão” (a dica para o leitor, por assim dizer) ao saber acadêmico — cada vez mais necessário, porque mais amplo, mais bem pensado e com certo distanciamento — também não são iguais. Há aqueles que, mesmo com espaço exíguo, digamos três mil ou sete mil caracteres, conseguem produzir uma crítica que mescla impressionismo e refinamento analítico. É o caso de Alcir Pécora, Carlos Augusto Silva — mais conhecido por suas exegeses da obra de Marcel Proust — e Miguel Sanches Neto (por sinal, ótimo prosador).

Wesley Peres: sua literatura modernista ganha análise notável | Foto: Reprodução

Em “Opção Crítica — Notas de Crítica e Literatura”, o professor e crítico Carlos Augusto Silva mescla o analista que não tem preconceito com a crítica impressionista ao analista com formação acadêmica rigorosa. O leitor atento notará que reafirma reputações, numa leitura direta de autores consagrados, como Liev Tolstói e Thomas Mann — suas opiniões a respeito do autor de “A Montanha Mágica” não são, no geral, ortodoxas e merecem desenvolvimento (como dizer que “José e Seus Irmãos” é uma obra importante, mesmo decisiva. “A tetralogia ‘José e Seus Irmãos’” são, segundo o crítico, “a sua grande e verdadeira obra-prima”. A maioria dos críticos prefere “A Montanha Mágica” e “Doutor Fausto”) —, e firma novas reputações literárias. A análise dos grandes autores, como disse, são feitas a partir de leituras diretas e não, como está na moda, a partir exclusivamente da fortuna crítica (o crítico não é avesso, nem poderia ser, às “teorias”, mas vai além delas, descobrindo novos veios). São leituras apreciáveis e corajosas, com autonomia crítica. Os textos indicam um leitor atentíssimo aos módulos centrais e às filigranas. Mas o grande momento são suas análises de autores ainda não bafejados pela fama literária. É possível que digam: sua análise da obra de Wesley Peres contém certo otimismo crítico. Não é bem isto, não. Trata-se de entusiasmo crítico, absolutamente necessário, com uma obra que está nascendo — e contém qualidade. Provar que Wesley Peres é um grande escritor não é fácil, especialmente porque não há fortuna crítica para amparar a leitura, mas Carlos Augusto Silva ressalta suas qualidades literárias, independentemente do que vai produzir (e de como será avaliado) amanhã. Os dois (o escritor e o crítico) sabem, porém, que são análises preliminares e que o acerto (ou não) será verificado mais tarde.

O poeta e prosador Heleno Godoy tem um “defeito” grave, sobretudo para leitores de província, que tendem a avaliar o homem e ignorar a obra. Apesar de sua precisão, exige um leitor com um mínimo de cultura para entender como lidar com a tradição literária e como se libertar dela — firmando seu próprio caminho. Pensa-se em Heleno Godoy como em geral pensa-se a respeito de João Cabral de Melo Neto: seria um poeta frio, avesso ao humor e às emoções. Não é bem assim. Trata-se de um poeta que explora vários recursos e campos do sentir humano. O que não faz é poesia derramada, a ser declamada por amantes ingênuos, panglossianos. Embora esteja na praça há décadas, analisado por Luiz Costa Lima, um crítico e teórico de renome internacional, Heleno Godoy não teve o conjunto de sua obra analisado detidamente. Um dos motivos é que reside na periferia cultural do país. A leitura de Carlos Augusto Silva o firma como um dos principais poetas nacionais — arrancando-o da província e do julgamento local. (A análise da poesia de João Cabral, frisando como arranca razão da emoção, é valiosa. Cobremos um ensaio mais detido do crítico. Cabral não é hermético, diz, por exemplo. Só um crítico pode dizer ou o leitor comum também pode fazê-lo?)

T. S. Eliot: o poeta é examinado em comparação a Fernando Pessoa | Foto: Reprodução

Uma das análises mais apaixonantes de autor consagrado está no ensaio “‘Middlemarch’, de George Eliot: um romance totêmico”. O livro, do século 19, “rompe as barreiras de sua época, chega até nós, inteiro, universal, sólido, arrebatadoramente humano”. A obra, “da era vitoriana, tem o poder de nos fazer envelhecer”. Nesta resenha, mais ensaio, Carlos Augusto Silva usa a crítica anterior não para repeti-la, e sim para iluminar e ampliar sua própria interpretação. Seu texto é um convite à leitura, a leitura crítica, pormenorizada. Sem deixar de apresentá-la como um autora do século 19. O crítico torna-a uma criadora contemporânea, próxima de todos nós, nos convidando, com sua paixão informada, a lê-la. É como se Carlos Augusto Silva nos colocasse no século 19, no momento em que o romance foi publicado, mas nos dissesse: “Veja como é atual e como, de algum modo, estava adiante de seu tempo, sem deixar de ser de seu tempo”.

A comparação entre T. S. Eliot e Fernando Pessoa, que, teoricamente, são poetas de linguagens diferentes, é um dos trunfos do livro. “Ambos os poemas” — “A canção de amor de J. Alfred Prufrock”, de T. S. Eliot, e “Tabacaria”, de Fernando Pessoa — “revelam um sujeito lírico sem lugar no mundo para explicar sua solidão, seja de um quarto do qual se avista a rua, os passantes, ou das festas nas quais damas discutem a arte do Renascimento italiano. (…) São poemas modernos, sem o compromisso de uma medida exata dos versos, no qual a preocupação maior não são as formas fixas de composição”.

Edival Lourenço: início de uma fortuna crítica respeitável | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Examinar James Joyce é complicado, porque — embora seja um autor a respeito do qual se pode dizer sempre mais, porque a crítica não o esgotou — vários críticos competentes, como o biógrafo Richard Ellmann, citado, e Anthony Burgess, entre vários outros ainda mais requestados (e altamente especializados, alguns deles admirados por Harold Bloom, crítico que nota Joyce como um shakespeariano relativamente rebelde), já disseram muito de sua obra reverberativa. Ainda assim, Carlos Augusto Silva examina cuidadosa e ousadamente, e tendo o que acrescentar, o conto “Os Mortos” (de “Dublinenses”), tido como um dos mais importantes do escritor irlandês.

Uma das comparações mais ousadas é certamente entre o francês Louis-Ferdinand Céline, de “Viagem ao Fim da Noite”, e o austríaco (nascido na Holanda por acaso) Thomas Bernhard, de “O Sobrinho de Wittgenstein”. Céline, por ser fascista, acabou discriminado, como escritor, mas o tempo, o distanciamento, permitiu que suas diatribes antissemíticas fossem não esquecidas, se sim deixadas momentaneamente de lado para que sua obra fosse (seja) examinada com isenção (como literatura). Bernhard, criador de uma prosa filosófica de extrema violência verbal, filha de uma mescla entre Schopenhauer e Nietzsche, embora votasse certo desprezo ao populacho, e talvez mais acentuadamente às classes médias, era um antiautoritário por excelência. Como escritor, pega fatos reais e ficcionaliza-os, rompendo os limites entre realidade e ficção, como no caso de “O Náufrago”, um de seus mais polêmicos “romances”. Pois Carlos Augusto Silva consegue perceber conexões entre os dois autores, num texto excepcional e que merece expansão. E, ao examinar “O Náufrago”, faz os alertas apropriados para que o leitor não se perca na prosa estranha, errática e selvagem, de Bernhard.

Pio Vargas: sua poesia ganha uma análise percuciente | Fotos: Reproduções

As análises de Pio Vargas — extremamente originais e sugerindo ideias para estudiosos de sua poesia —, Valdivino Braz e Edival Lourenço mostram o crítico, aqui atuando livremente, praticamente sem fortuna crítica, firmando autores de qualidade, mas não devidamente estudados. Por fim, há um ensaio que mostra o nosso crítico “brigando” com a questão do “gosto”, no ensaio “Preferência não se discute; gosto, sim”. Com habilidade, com um texto sempre bem urdido, Carlos Augusto Silva pega o leitor pela mão e o ensina a ler, mas não com a chatice do didatismo, e sim com a paixão iluminadora. O leitor vai perceber, por fim, que, se os temas são diferentes, há unidade em suas análises e pode-se concluir que é possível manter certa profundidade em textos para jornais.

Ler um romance ou uma poesia, a partir do que repara Carlos Augusto Silva, é sempre um raro prazer.

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