Euler de França Belém
Euler de França Belém

O Professor Ferreira é o Euclides da Cunha do Cerrado, diz o médico e escritor Heitor Rosa

Pesquisa do autor do celebrado “Dicionário Analógico da Língua Portuguesa” descreveu, de maneira minuciosa, os limites de Goiás

O livro “Memórias de Nossa Gente” (Unicred, 319 páginas), uma coletânea de ensaios-artigos sobre escritores e intelectuais, escrita por vários autores, merece um lugar na estante, tal sua qualidade. Heitor Rosa — escritor de prosa refinada (sempre cercado de uma pesquisa consistente, mas sem a chatice do didatismo); se não fosse um grande médico, diria que a literatura é sua verdadeira vocação — escreve sobre Francisco Ferreira dos Santos Azevedo, autor do “Dicionário Analógico da Língua Portuguesa — Ideias Afins” (Lexicon, 763 páginas). Seu ensaio biográfico sobre o Professor Ferreira tem 14 páginas, mas, terminada a leitura, queremos mais, muito mais, quase que cobrando do estudioso uma sequência, uma biografia alentada.

O faz-tudo e professor Francisco Ferreira dos Santos Azevedo (de terno escuro), goiano, e o mineiro Benedito Quintino dos Santos assinam o tratado que definiu os limites entre os Estados de Goiás e Minas Gerais, em 18 de abril de 1939 | Foto: Reprodução

“O Dicionário Analógico da Língua Portuguesa” é muito conhecido no Brasil e até noutros países, mas seu autor é pouco conhecido. Só o dicionário o consagra como um autor respeitável, daqueles dos quais jornalistas e escritores, para citar apenas duas categorias, têm dependência crônica. Pode-se escrever sem o auxílio do livro do Professor Ferreira, mas quem o tem à mão tende a escrever de mais maneira mais refinada, com menos repetições e, sobretudo, com precisão no uso das palavras, portanto, da linguagem. Heitor Rosa apresenta um Professor Ferreira multifacetado, um intelectual que, além do dicionário, escreveu outros estudos e, também, foi um homem de ação (até, quem sabe, uma espécie de “diplomata”). Por isso, não é exagero sugerir que o Professor Ferreira é o Euclides da Cunha do Cerrado, ou, como diz Heitor Rosa, “o Euclides da Cunha goiano”.

Francisco Ferreiros dos Santos Azevedo nasceu em 14 de abril de 1875, na cidade de Goyaz, e morreu em 15 de novembro de 1942, em plena Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Seu pai participou da Guerra do Paraguai. O menino iniciou “sua educação e formação humanística no tradicional Lyceu de Goyaz”. Sua mãe, dona Ricota, “tornou-se doceira para sustentar a família”, pois o marido havia falecido no ano do nascimento do garoto.

Em 1890, aos 15 anos, Francisco matricula-se nos cursos preparatórios da História, Inglês e Corografia do Brasil (estudo e descrição de regiões)” e “ingressa no Exército”. Promovido a 2º sargento, é enviado para a Escola Militar, no Rio de Janeiro. Viajou “trinta dias em lombo de burro”. Porém, não lhe agradando a vida militar, regressa a Vila Boa de Goyaz, conseguindo um emprego nos Correios e Telégrafos. Em 1893, ajudado por Leopoldo de Bulhões, goiano influente na política nacional, consegue emprego nos Correios de São Paulo. Depois, em Ouro Preto, torna-se agrimensor. Em 1896, é “nomeado pelo presidente da província de Goyaz, coronel José Ignácio Xavier de Brito, para cargo na Diretoria de Instrução, Terras e Obras Públicas”.

O Professor Ferreira se tornou conhecido pelo “Dicionário Analógico da Língua Portuguesa”

Aos 21 anos, era um homem importante e um dos “mais elegantes da sociedade vila-boense”. Casa-se com Virgínia de Carvalho, em 1899, com quem teve 11 filhos.

Heitor Rosa nota que era um homem “extremamente versátil” e, em termos produtivos, “irrequieto”. O quase-biógrafo — o escritor não se apresenta como “biógrafo”, dados os limites de sua pesquisa — conta que Francisco Ferreira aprendeu quadro idiomas, porém não se sabe “se os falava com fluência. Mas tinha um conhecimento suficiente para comunicação escrita e falada”.

Francisco Ferreira aprendeu inglês com o pastor protestante McIntyre e alemão com o mecânico Fritz. “Os idiomas francês e italiano Azevedo aprendeu com a comunidade religiosa que aportou na cidade de Goyaz”, registra Heitor Rosa. Os dominicanos franceses “chegaram à diocese de Goiás em 1881”. Em 1938, “o convento da cidade de Goiás foi entregue aos padres dominicanos italianos”. As irmãs dominicanas, que chegaram em 1889, fundaram o Colégio Sant’Ana. “Azevedo ensinava português para as freiras e em troca aprendia o francês. Monsenhor Penso entregava-lhes as homilias e discursos em italiano para serem traduzidos ao português.”

Acima de tudo, observa Heitor Rosa, o Professor Ferreira foi, além de um “sei-tudo”, um educador. Iniciou sua docência em 1901, no Lyceu, como professor de inglês e, depois, geografia, astronomia, mecânica e matemática. Em 1921 torna-se diretor do colégio. “Em 1930 recebe a direção da Escola Normal.”

Talvez devido à sua vocação de professor, tornou-se, aponta Heitor Rosa, um escritor versátil, “oscilando entre” a “literatura e a ciência”. Depois do primeiro livro, “As Datas do Descobrimento da América e do Brasil, Segundo o Calendário Gregoriano” (1897), escreveu “Páginas Áridas” (1913) e “Considerações Gerais Sobre as Quantidades Negativas” (1919). Os primeiros trabalhos indicam que já se tratava de um pesquisador.

Seu trabalho mais conhecido é o “Dicionário Analógico da Língua Portuguesa”. “É um livro para estar junto aos grandes dicionários brasileiros, como o do Aurélio e o de Houaiss”, afirma, com Heitor Rosa. Porém, como, sem “uma coleção de livros” — o mestre “não tinha uma biblioteca” —, num Estado relativamente isolado, o Professor Ferreira escreveu um dicionário de tal magnitude? E sozinho! “Não se sabe ao certo como o Professor Ferreira teve a ideia do ‘Dicionário’, nem quando começou a coleção de palavras e expressões afins”, escreve Heitor Rosa. Ao apresentar a obra, Batista da Luz sugere que o pesquisador goiano adotou “a classificação das palavras segundo o sistema de Peter Mark Roger” (1779-1869). Heitor Rosa diz que o livro The Thesaurus of English Words and Phrases Classified and Arranged so as to Facilate the Expressioon of Ideas ans Assist in Literary Composition”, publicado em 1852, “jamais foi visto” nas mãos do Professor Ferreira. É possível que o tenha consultado nas suas andanças por São Paulo e Rio de Janeiro? Talvez.

O Professor Ferreira “escrevia”, relata Heitor Rosa, “deitado em uma rede, na sala de visitas; folhas de papel almaço eram apoiadas sobre um grosso papelão, à guisa de prancheta. Muitas anotações estavam em fichas para posterior transcrição nas folhas. Escrevia a lápis, pois as esferográficas ainda não haviam sido inventadas. As folhas preenchidas eram jogadas ao chão e depois recolhidas e guardadas dentro de um pequeno armário de vidro. Ali estava o seu arquivo e acervo. Eleusa, sua neta com 15 anos, diariamente datilografas os textos”.

A nova edição do “Dicionário Analógico da Língua Portuguesa”. O livro encantou o historiador Sérgio Buarque de Holanda e mesmerizou o compositor e escritor Chico Buarque | Foto: Jornal Opção

Publicado em 1950

O “Dicionário Analógico” só foi publicado em 1950, oito anos depois da morte do Professor Ferreira. A última edição, da Lexicon, vendeu mais de 10 mil exemplares.

Mas o Professor Ferreira era, por assim dizer, “maior” do que seu dicionário. Baseado no “Almanaque Brasileiro Garnier”, editou, em 1910, o “Annuario Historico, Geographico e Descriptivo do Estado de Goyaz Para 1910”. Já em 1902, o mestre “desenha” a “Carta de Goyaz” e “ganha concessão para pesquisar minérios em vários locais do Etado”. “O Annuario”, com 240 páginas, “foi uma publicação de impacto, moderna, que atualizava o leitor politicamente e dava-lhe também uma incrível noção de geografia-política. (…) O que mais impressiona no ‘Almanaque’ é uma maravilhosa e detalhada História de Goyaz, compreendendo o período de 1647 a 1823”.

Ao pesquisar a quase virgem realidade de Goiás, para descrevê-la, o Professor Ferreira poderia ter se transformado num historiador-geógrafo rigoroso e detalhista? Tornou-se, nota muito bem Heitor Rosa, “o Euclides da Cunha” goiano. Euclides, além de “Os Sertões”, pesquisou o Brasil, nas suas lonjuras, e apresentou-o aos brasileiros.

“A Francisco Azevedo só faltou testemunhar alguma batalha ou escaramuças no território goiano, mas canudos acadêmicos não faltaram em sua ajuda na descrição de cidades goianas. Na seção destinada à Geographia Geral, o agrimensor se mostra com toda sua visão que o aproxima de Euclides da Cunha. Descreve com minúcias os limites do Estado de Goiás, numa época em que Goiás e Minas disputavam o território do Triângulo Mineiro. Como um verdadeiro geógrafo publica a Carta Geográfica de Goiás, elaborada por ele em 1902 e duramente criticada pelos mineiros. Com grande cuidado científico descreve a Potamografia dos rios Tocantins (extensa e minuciosa descrição), Araguaia e Paranaíba. Na parte de Orografia, descreve 13 serras e oito lagos. Quarenta e três cidades e vilas são descritas do ponto de vista sociopolítico e geográfico. Ainda se estende ao estudo do clima das diferentes regiões e finalmente, como um antropólogo, descreve as tribos indígenas”.

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