Euler de França Belém
Euler de França Belém

O povo alemão sabia do Holocausto, diz o historiador Robert Gellately

Não há como dizer que os alemães eram um “povo-criança”, que não sabia de nada. O Holocausto, a Gestapo e a SS eram assuntos públicos e, pior, apoiados pela sociedade

Até pouco tempo, não havia consenso sobre se os alemães comuns, das décadas de 1930 e 1940, sabiam do Holocausto e da ação da Gestapo, polícia secreta do nazismo. Quem tem dúvidas sobre o assunto deve ler o esplêndido “Apoiando Hitler — Consentimento e Coerção na Alemanha Nazista” (Record, 517 páginas, tradução de Vitor Paolozzi), de Robert Gellately. Pesquisando em jornais e consultando livros de forma a extrair o novo de velhas apurações, o historiador mostra que, sim, os alemães não eram ingênuos e mal informados. Eles sabiam o que estava acontecendo e, sobretudo, o assunto não era segredo nem mesmo nos jornais. Outra coisa, e isto já é mais divulgado: os alemães idolatravam Hitler.

“Em 1939, o culto a Hitler alcançara proporções gigantescas. Nesta foto pessoas esperaram até pouco depois da meia-noite, em 20 de abril de 1939, data do aniversário do Führer, para prestar-lhe homenagem” | Foto: Reprodução

“Numa questão de meses após sua indicação [ocorrida em 1933] como chanceler, a maior parte dos cidadãos passou a aceitá-lo [Hitler] e depois a apoiá-lo com firmeza”, ressalta Gellately. Ao contrário do que muitos pensam, Hitler não tratava o povo alemão, pelo menos antes da Segunda Guerra Mundial (e mesmo durante), com violência. Ele “buscava o consentimento e o apoio do povo a toda hora. (…) O consentimento e a coerção estiveram inextricavelmente entrelaçados durante toda a história do Terceiro Reich, até certo ponto porque a maior parte da repressão e do terror foi usada contra indivíduos específicos, minorias e grupos sociais pelos quais o povo tinha pouca simpatia. A coerção e o terror eram altamente seletivos e não se abateram de maneira universal sobre o povo alemão”.

“Capa com a detalhada e ilustrada matéria descrevendo Dachau, conforme publicada pelo Illustrierter Beobachter (3 de dezembro de 1936)” | Foto: Reprodução

No livro “Os Carrascos Voluntários de Hitler — O Povo Alemão e o Holocausto” (Companhia das Letras, 656 páginas), Daniel Goldhagen é muito duro com os filhos da terra de Goethe e Thomas Mann. Gellately diz “que a concordância social, ou a mera tolerância popular, em relação a Hitler e à ditadura foi obtida por muitos motivos, dos quais alguns dos mais importantes tinham pouco ou nada a ver com a perseguição de judeus. O antissemitismo a princípio foi atenuado não apenas porque impedir a subsistência dos judeus iria afetar a recuperação econômica, mas porque em 1933 a maioria dos alemães não nutria sentimentos tão fortes e negativos em relação a eles quanto os de Hitler e dos nazistas. Portanto, os primeiros alvos não foram os judeus, mas indivíduos e grupos que havia muito eram considerados ameaças à ordem social (como os comunistas) ou ao universal moral, como os criminosos, os ‘antissociais’ e outros ‘casos problemáticos’. (…) Durante os primeiros anos do novo Reich, as políticas racistas em geral eram formuladas e implementadas de maneira bem cautelosa”.

Robert Gellately, historiador canadense: “Os alemães responderam afirmativamente às várias ondas de perseguição e até mesmo ao espírito de ‘justiça’ nazista” | Foto: Reprodução

Entretanto, se não tinham tanto interesse no massacre dos judeus, “os alemães sabiam a respeito da polícia secreta e dos campos, das perseguições, dos assassinatos”. Examinando jornais e documentos, Gellately descobriu que as informações sobre o assunto eram públicas. “Uma vasta quantidade de material sobre a polícia e os campos e (…) diversas campanhas discriminatórias foram publicadas na imprensa da época. Nos anos 1930, o regime assegurou-se de que os campos de concentração ganhassem espaço na imprensa, exibindo-os para colher louvor e orgulhosamente fazendo saber que homens e mulheres eram confinados nos campos, sem julgamento, por ordens da polícia. O regime apregoava de maneira aberta o seu novo sistema de ‘justiça social’, pelo qual a Polícia Secreta (Gestapo) e a Polícia Criminal (Kripo) podiam decidir por si mesmas qual era a lei e mandar quando quisessem pessoas para os campos. (…) Longe de promover tais práticas em segredo, o regime exibiu-as na imprensa, exaltando a modernidade e a superioridade do sistema nazista sobre todos os demais.”

Enfim, “os alemães responderam afirmativamente às várias ondas de perseguição e até mesmo ao espírito de ‘justiça’ nazista”, diz Gellately. Não há mais como dizer que os alemães eram um “povo-criança”, que não sabia de nada. O Holocausto, a Gestapo e a SS eram assuntos públicos e, pior, apoiados pelos alemães. Mas podem ser chamados de “carrascos voluntários” de Hitler? Talvez não. Talvez mais ou menos.

Publicado no Jornal Opção em 2011

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